quinta-feira, maio 28, 2015

Em Contramão

Passados alguns dias, cumprindo a velha máxima masculina de não pensar em nada, um dos melhores estados de alma em que se pode estar, comecei a ouvir, sabe-se lá porquê, aquela canção do Abrunhosa, voamos em contramão. Lentamente, vagarosamente, foi instalando-se até tornar-se bastante audível no meio do tal nada em que estava envolvido. Romantismos à parte, choraminguices de lado, dei comigo a moer a cabeça com a percepção de que, na maior parte das vezes, circulo em contramão com o resto do trânsito. Questionei-me sobre a razão para tamanha inabilidade pessoal. A resposta parece-me simples: inaptidão intrínseca. 


Se no princípio, presumo estar inteiramente certo e o resto da malta, apesar de numerosa, estar errada, com o desenrolar dos acontecimentos, sejam eles quais forem, começo a achar estranho não encontrar ninguém que vá no mesmo sentido que eu. Nem uma viva alma. É o momento em que páro e percebo que tenho que saltar para a outra mão e seguir viagem como o resto da trupe. Para estar integrado, mesmo que seja num mero estado figurativo. Forçado, é certo, sigo na enxurrada para não destoar aparentemente. A porra (que em português do Brasil ou em brasileiro quer dizer algo diferente) é que, sem saber porquê, dou comigo novamente em contramão até à próxima saída.

sexta-feira, maio 22, 2015

Krohn 1958

Em jeito de fim de semana, nada melhor que deixar uma foto, no caso duas e parecidas, de um grande vinho do Porto. Largá-las apenas, ir embora e regressar aqui passados alguns dias para ver como andam as águas.



Fica, portanto, registado o momento para a posteridade, para relembrar unicamente que um dia cheguei a beber também um vinho da elite. O intuito, como podem ver, é muito simples e prosaico.

quinta-feira, maio 21, 2015

Com Rótulo, sem Rótulo: Importa antes de tudo o Vinho!

A homilia de hoje não tem como objectivo idolatrar a ausência do rótulo ou a prova cega que é endeusada ciclicamente, achando que é a única maneira de separar o trigo do joio. Curiosamente o joio é, na maior parte das vezes, considerado comestível, ao coberto de tais actividades honestamente cegas. Atrevo-me a dizer que serve para umas coisas, não servirá para outras. Varia consoante a perspectiva. Lá está a perspectiva. Serve, preferencialmente, se o vinho está dentro da fronteira daquilo que achamos ou pensamos gostar mais. 


Independentemente de tudo isso, há vinhos que dispensam o rótulo. Dispensam, porque o conteúdo, o carácter que possuem é incomensuravelmente maior do que qualquer rabisco decorativo que possam vir a ter. Atrevo-me a dizer que prescindem da vestimenta por completo. Quase que seria um acto de arrojo comercial, vender um vinho despojado de toda ou qualquer farpela, tal Adão e Eva. 


Estaríamos a sentir apenas o que ele é, sem qualquer distracção pela frente. Naturalmente, e sem qualquer problema, assumo que, neste caso, o quase vi nascer, conheço o seu nome e o rótulo virtual. Que ao fim ao cabo, conheço tudo sobre ele, logo não estou despido de qualquer parcialidade. Mas também não quero. O paralelismo com a relação humana é, por isso, dramaticamente muito semelhante.   

segunda-feira, maio 18, 2015

Outros Tempos: Palmella Superior

E é assim: Não conhecia, perdoem-me os entendidos. Não fazia qualquer ideia da sua existência. Desconhecimento total. Como tal, tenho sempre uma enorme desconfiança ou desconforto quando estou perante vinhos ou situações em que não domino nenhuma das variáveis. Bebo ou provo, por vezes, já com o intuito de largar o dito no momento seguinte. A surpresa, a estupefacção acabam por cair sobre a alma, por diversas vezes, fazendo esbugalhar os olhos. 


Uma rápida e superficial viagem pela rede, constato que serei ou seria o único que não conhecia a antiguidade desta categoria de vinhos. Surgem imagens de garrafas de com rótulos similares, alguns datados outros não, com variações na grafia e formato de garrafas.


Regressando ao presente, largando outras considerações desnecessárias, expressões e comentários mais ou menos incoerentes e ou alucinados, registo para memória futura deste pasquim, a elevada complexidade do vinho, a enorme capacidade para prender, despertar o interesse ao maior incauto. Um vinho que, após o primeiro trago, leva-nos a querer mais, mais e mais até que o estado de ebriedade caia  em cima de nós, de uma vez por todas, e nos adormeça.

quinta-feira, maio 14, 2015

O que se passa com as rolhas?

Coisa célere, muito rápida. Consideremos, apenas, como se fossem aquelas linhas gordas de um jornal. Tipo: Correio da Manhã. Um título popularucho: O que se passa com as rolhas? Haverá desinvestimento dos produtores na qualidade do vedante?
Depois das letras mais gordas, surge um acrescento à noticia, com letras mais pequenas, de forma a levar o leitor a parar, desfolhar o jornal e ler mais um pouco. Momento, esse, que acontecerá no café da esquina, enquanto se toma a bica. 


Baseado na prática diária de abrir vinhos, nota-se que o número de vinhos contaminados por rolha, tem estado a aumentar. Um aumento que parece ser (muito) significativo e que surge em vinhos das mais diversas gamas. Se por momentos, a possibilidade de encontrar um vinho marado por causa da rolha parecia ter desaparecido, agora fica a impressão, partilhada por outros conhecedores do meio, os consumidores, que a proporção de rolhas influenciadoras do mau estado dos vinhos tem vindo a crescer. Tudo, naturalmente, baseado em pressupostos científicos: a abertura de garrafas. Fica, novamente, a pergunta: O que se passa ou anda a passar com as rolhas? 

terça-feira, maio 12, 2015

A Touriga, outra vez

Correntes e contra-correntes. Existe uma imensidão de entendidos na matéria que diz estar farta da Touriga Nacional. Essa mesma imensidão pede, ainda, encarecidamente outras castas, pois a tal Touriga Nacional é, segundo consta, fraquinha, frouxa, monocórdica e linear.


Eu acrescentaria ao tal rol de epítetos, que ao caminharmos para o sul não passa, a maior parte das vezes, de uma senhora exuberante, voluptuosa, imediata, bem torneada, mas com fraca personalidade. Porreira, portanto, para momentos fáceis, rápidos e sem memória. Beber e esquecer. Ou nem sequer beber.


O que vale é surgirem, aqui ou além, vinhos que fogem a essa norma. Que parecem dizer que é possível fazer qualquer coisa com mais conteúdo, com mais interesse e sem complicar muito. Sem tentar mostrar aquilo que não é e não tenta ser. Apetece dizer: basta simplesmente não abastardar. Aparenta ser simples, não é?

quinta-feira, maio 07, 2015

Revisão

Estava por aqui a rever as inúmeras exortações ditas e escritas. Reparei num facto sem qualquer importância, mas curioso do ponto de vista pessoal. Comecei a palrar num dia vinte e quatro de Abril. Data que simboliza, vejam lá, o ancien régime, o passado. Também o caderno de encargos, na altura e durante algum tempo, era completamente diferente.
Entretanto fui mudando, rasurando, modificando o enfoque. Explicando melhor, deixou de ter qualquer enfoque, qualquer intuito. Passei a falar de tudo e de nada. Essencialmente comecei a talhar letras que nada dizem. Um simples acto de loucura libertadora, muito íntima e pessoalizada, em que são enumeradas simplesmente coisas.


A idade revelou-me, como o filosofo, que nada sabia e que as dúvidas eram e são incomensuravelmente superior às certezas. Na verdade, não tenho certezas. E apesar de tantos ziguezagues, mudanças de rumo, opções mal tomadas, evoluções e desevoluções, fica outra curiosidade: O primeiro apontamento! 

terça-feira, maio 05, 2015

O Primeiro

O primeiro não é na maior parte das vezes o melhor, o mais bem conseguido, que nos satisfaz na totalidade. Por vezes, carrega às costas imperfeições, arestas por limar, inúmeras falhas. Apesar de todos os eventuais desalinhos, acaba por ser curiosamente o mais marcante. Marcante, porque do nada e sem nada apareceu. Apareceu, porque naquela altura tinha que aparecer. Foi o ponto de partida e todos os pontos de partida dão origem a uma viagem. Curta ou longa.

O tempo tem-lhe feito muito bem. E apesar de todas as incoerências, minhas e do vinho, sempre gostei muito dele, vá-se lá saber porquê.

E as suas incorrecções, com o amadurecimento do tempo, tornam-se perfeições que fazem recordar diversas peripécias do passado, com um simples sorriso nos lábios, sem qualquer mágoa. Eram tempos de ingenuidade, em que se pensava que tudo era possível, alcançável e que o mundo estava ali ao dispor de uma simples passada.