quarta-feira, setembro 30, 2015

Casa da Passarella: As Vinhas Velhas desde 2008

Em poucas ou muitas palavras e sem dar grandes voltas, seguir a evolução, à distância, de um projecto, ir sentindo a sua consistência, a capacidade para se recriar, para inovar, para reajustar, para tomar outros caminhos, permite-nos ir alimentando o desejo de, volta na volta, querer reprovar. 

O incontornável Vinhas Velhas 2008: Frescura, delicadeza, elegância sempre foram o apanágio deste vinho experimental.
Uma gama que é a cara, quiçá o porta-estandarte, da Casa. Um blockbuster. Por entre as variações naturais e normais de cada ano, ficou a sensação que a colheita de 2012 merece toda atenção. Com uma frescura acutilante, com uma finura que (me) impressionou. 
Reprovar nem que seja, apenas, para saber como andam as andanças, relembrar os primeiros passos e um passado que começa a ficar distante. Depois abalar até ao próximo reencontro. Costuma-se dizer: mataram-se as saudades. 

quinta-feira, setembro 24, 2015

O Infeliz Estado do Vinho nos Supermercados

As selecções de vinhos das grandes cadeias comerciais disponibilizadas a todos consumidores é, na sua grande maioria, pobre, miserável, sem interesse, desorganizadas, mal amanhadas, com preços sem sentido, onde algumas promoções aparentam ser, na sua maioria, tudo menos isso: promoções. Em algumas situações o preço verdadeiro do vinho parece ser o da promoção e não o outro pretenso preço que surge rasurado. 
A cadeia Continente/Modelo lidera a olhos vistos e destacada o pódio do virtual desinvestimento na diversidade, na diferenciação, no tratamento cuidado e organizado dos vinhos, com uma política de preços, no mínimo, muito estranha. Olhar para as presumíveis garrafeiras desta cadeia é, em muitos casos, aflitivo. Bisbilhotar as suas prateleiras é, na maior parte das vezes, uma tarefa que se aproxima de um acto puramente masoquista. Sai-se de lá deprimido e angustiado. A Bairrada e o Dão estão votadas completamente ao abandono, sem nada que valha a pena, na maior parte dos casos. Digamos que a aposta é em vinhos de assinatura e reconhecidamente medalhados.


Nas outras cadeias comerciais, a situação não é muito melhor. Salvam-se alguns Intermarché, situados curiosamente no interior do país, o Jumbo/Auchan e o incontornável El Corte Inglès (e Apolónia).
É certo que não voltaremos aos tempos áureos das feiras de vinhos cheias de novidades, com coisas mais ou menos interessantes, que faziam vibrar todos e mais alguns, sem excepção. Mas será tão difícil, impossível, contentar um pouco a minoria silenciosa?
Olhando para este paupérrimo cenário, diria que um blogger teria enorme sucesso, tornar-se-ia até num case study, se se dedicasse, apenas, ao que existe nos enfadonhos corredores que são pomposamente baptizados de garrafeira, divulgando as melhores promoções, com ou sem cartão, aconselhando felizes maridagens, escrevendo eloquentes notas de prova. 

segunda-feira, setembro 21, 2015

O milimétrico

Todos nós temos determinadas idiossincrasias que caracterizam-nos, enquanto seres humanos. Umas surgem por educação, por (de)formação, por causa de hábitos repetidos, por isto ou por aquilo. Diz-se em tom ligeiro que somos aquilo que somos. 

Concebido com o intuito de ser bem definido, ajustado, profundamente elegante, leve e equilibrado.
Sempre tive alguma predilecção pelo que é perfeito, pela organização, pelo que encaixa milimetricamente, sem folgas. Pelas linhas, semi ou segmentos de recta traçados de uma só vez, com uma precisão irrepetível e irrepreensível. Gosto de apreciar a capacidade cirúrgica com que se vai de um ponto no espaço a outro ponto, sem qualquer desvio pelo meio, sem ter que apagar para começar de novo. Apreciar a beleza de um sólido platónico, de uma demonstração, do estudo de uma função. 


Olhar para a natureza e perceber que tudo tem um sentido e que o que parece aparentemente imperfeito não o é, de facto. Que existe uma causa e um efeito, uma imagem e um objecto. Não fomos nós que matemizamos a natureza. Ela é que obrigou a matemizar para a podermos compreender, até ao mais ínfimo milímetro, até ao valor que nos parece ser ridiculamente pequeno.

sábado, setembro 19, 2015

Por causa de Isabel Silvestre

Larguei quase tudo e parei para ouvir a Isabel Silvestre. Parei e escutei, porque gosto de a ver e de a ouvir. A sua voz, o seu aspecto, os ouros que usa fazem-me recordar tanta coisa. Saudosismo? Sim. Muito. Gosto de não perder o rasto. O meu rasto. 
Recordo toda uma juventude, uma infância que está, cada vez, mais longe. Faz trazer à memória coisas que jamais voltarão. Jamais voltarão as florestas. Jamais voltaram as ribeiras correr da mesma maneira. Nem os penedos, agora, parecem-me ser os mesmos. Tudo soa a perdido, a esfumaçado. 
Ouço a Isabel, perdoem-me o trato ligeiro, porque aqui e além, vai alimentando as minhas memórias mais longínquas. Imagino, ainda, que os meus amigos andam por lá, que ainda esperam por mim na estação de comboio. Que levam-me para a camioneta. 


Trago à memória, com a voz da Isabel, o que é saber de onde onde vimos, de onde vieram os meus pais. Vieram lá de cima, como se dizia nos idos anos setenta e oitenta. Éramos de lá de cima, orgulhosamente, mesmo que não fossemos de berço. Éramos e somos de sangue, de hábitos e costumes. 
Ouço a Isabel Silvestre para continuar a ouvir a água a correr por entre as pedras, olhar para a floresta, subir às montanhas, mudar o sotaque, ouvir o sino da igreja, mesmo que não fosse para ir à missa. Ouvir o Padre Leitão, perante os meus primos, dizer-me: Rui não te vejo há muito tempo

quarta-feira, setembro 16, 2015

Chã Vinho do Fogo

Antes de Tudo
Num dia que pouco contou para a história e que, como sempre, observaram-se silêncios, assistiram-se à assinatura de acordos de conveniência, aos prós e aos contras, resta-me a satisfação de saber que cada vez menos sei sobre tanta coisa. Malditas indefinições. As minhas. 

O Tudo
Feito o desvio habitual, partilho uma curiosidade, algo que não fará, certamente, as delicias dos doutores da ciência. Nem encartados, por encartar ou a encartar. E porque está na moda, atrevo-me a dizer que uma imagem, neste caso duas, irá valer por mil palavras. Neste caso, as minhas. 


Vinho de Cabo Verde, com rótulo minimalista, em que o ano da colheita (2013) é registado no contra-rótulo à mão. Pormenor que fez largar um sorriso. Havia ali qualquer coisa de profundamente artesanal, iniciático, genuíno. Diz que é feito com Moscatel Branco.
Segundo consta, e por causa do vulcão que se reactivou, talvez não haja, para já, mais colheitas, deste ou de outros vinhos. Lembro de ter visto qualquer coisa sobre o assunto, na altura, na televisão. Na verdade, o nome reporta-nos para uma terra inóspita, dominada pelas agruras da natureza, em que o tal vulcão parece mandar nas cercanias. 


Experiência interessante, que ao coberto de meia dúzia de sugestões, parece ser possível, acho eu, encontrar alguns aromas identificativos da terra, do local onde, eventualmente, foi feito. O corpo não aguenta com grau alcoólico que apresenta: 14%. Contudo, é um vinho singular e esforçado que, acredito, seria melhor compreendido, se fosse bebido in situ. Aí, presumo, iríamos entendê-lo melhor. Ainda assim, foi bebido até à última gota.

quarta-feira, setembro 09, 2015

Maquia

Elucidação
A palavra Maquia significa dois dezasseis avos de um alqueire; parte que os moleiros tomam para si, como pagamento pelo seu trabalho; uma porção de qualquer coisa; quantidade de dinheiro, pé-de-meia ou pecúlio (não conhecia este termo); ganho ou lucro ou ainda uma tareia, sova ou surra, regionalismos que desconhecia. 

Explanação
Dos poucos vinhos tintos que tenho bebido ultimamente, e tendo em conta o enorme bloco de vinhos monocromáticos, que proliferam na generalidade do país, olhei para este projecto, resultante de uma joint venture entre o Álvaro, Dirk e Carlos, como se fosse uma pequena lufada de ar fresco. Sustento tamanha consideração com o relativo afastamento/desconhecimento sobre o que se vai fazendo aqui ou além. 


A sua elegante simplicidade, pouco habitual nos dias que correm, é um argumento de muito peso. Um argumento, que pessoalmente, foi mais que suficiente para ficar interessado, curioso, agradado. Duplamente satisfeito, por causa do preço.


Senti acima de tudo, e isto é que importa para o caso, estar perante um vinho pouco carregado, pouco musculado, enganosamente débil e  com uma tonalidade que permite deixar passar a luz do dia e não barrá-la, tal breu, como é apanágio de muitos vinhos. 

Desfecho
Para beber até aos últimos resquícios de vida. Um feliz acontecimento, desejando que não tenha sido obra do acaso e esperando que se mantenha nas próximas colheitas, desta forma. Que consiga resistir às derivas extractivas que afastam-nos incessantemente do copo de vinho. 

segunda-feira, setembro 07, 2015

A Saudável Loucura

A loucura permite-nos, a partir de certa altura, viver solto de toda e qualquer obrigação, pela simples razão de ninguém querer estar ao pé de um louco. Existe o risco de ser-se considerado, de igual forma, um louco. E num mundo do politicamente correcto, do parecer bem, do estar bem com todos, não fica bem, nada bem, conviver com alguém que não cumpre com determinadas regras. Que joga com outras cartas, que está a borrifar-se para o que deve ser ou não ser.

1. Não sei qual a definição de grande vinho. mas o que importa, cada vez mais, é que na imensidão de vinhos sem alma, demasiadamente educados, sem porra de carácter, é possível, ainda, beber um vinho sem parecer que estamos a ver o mesmo filme, vezes sem conta, fazendo-nos crer que existem ali algumas nuances.
Ser-se louco ajuda a viver com a alma limpa, desinfestada de maleitas parasitárias. Poder dizer, sem grandes problemas, constrangimentos, medos ou cuidados o que achamos ou não, mesmo sabendo, de antemão, que não será levado a sério por ninguém, tal bobo da corte. 

2. Fresco e airoso, profundamente vegetal, silvestre. Com uma simplicidade estonteante, que se torna a cada golada num vicio incontrolável. 
Apetece pedir, por isso, a todos os loucos, desta e de outras vidas, que não são muitos: uni-vos! O mundo será muito mais divertido, muito mais interessante, muito mais colorido, muito mais louco.

terça-feira, setembro 01, 2015

Quinta dos Carvalhais: O tal Reserva Branco de 2010

Não pretendem ser um mero contraditório, as linhas que irei traçar. Dito de outra forma, também não será uma simples reacção impulsiva para contrariar, só por contrariar. As poucas ou muitas palavras que serão traçadas, mais abaixo, são o reflexo de alguém que gostou, porque gostou e não porque se sentiu obrigado a gostar. Ponto.
Não é um vinho fácil, não é um vinho consensual. Nunca o será e ainda bem que assim é. E pelos mais diversos motivos, que não vou escalpelizar, não tem sido bem amado. 
Passados muitos meses, mais de um ano, sobre a última vez que o provei ou bebi, depende da perspectiva em que cada um se coloca, devo dizer que apreciei bastante o vinho. Apreciei, devo realçar, debaixo de uma nuvem carregada de estímulos e impressões pouco favoráveis, como devem suspeitar.


O vinho, aquele que bebi, apresentava um punhado de sensações que despertaram enorme curiosidade e interesse. O primeiro impacto é estranho, algo inusitado. A sua cor tendia para o cobre ou laranja como agora se diz. Uma moda. Se nos primeiros goles, eram perceptíveis cheiros e sabores menos conseguidos, com o arejamento, com a oxigenação, com a dilatação do tempo de abertura (foi bebido ao longo de dois dias), o vinho começou a mostrar o que de bom possuía. Ultrapassada a fase inicial da estranheza, começou a ser possível entranharmo-nos de corpo e alma. 
Deambulava, o vinho, por entre cheiros que (me) fizeram pensar na laranja, na casca da mesma caramelizada, na toranja, na tangerina e em outras tantas sugestões a frutas que escuso de descrever, por serem eventualmente enganos ou ilusões mentais. Junte-se, ainda, a sensação torrada, num registo que nunca achei incomodativo. Sempre apoiado por um nível de frescura que aparentou estar bem ajustado.
  

Resumindo, baralhando e concluindo. Pareceu-me estar, pegando na experiência que tive, numa boa fase de consumo em que são realçadas as virtudes do longo estágio a que foi submetido e da oxidação que daí deriva. Relembrou positivamente um ou outro vinho. Para ser bebido, como se fosse quase um vinho tinto e em que a decantação poderá ajudar na sua compreensão. Para guardar, deixar evoluir ainda mais e voltar a ele no futuro.