quarta-feira, dezembro 30, 2015

Esquecidos: Casas Altas Branco 2008

O vinho branco está indubitavelmente a ocupar um grande espaço nas minhas escolhas. Efectivamente interessam-me, muito mais, os vinhos brancos que os vinhos tintos. A possibilidade em encontrar algo que seja interessante é grande e, em muitos casos, surpreendente. Os tintos, por vezes, chateiam-me. 


Não sei se interessa para o caso, para o vosso ou para o meu, mas este vinho foi dado a beber, sem estar a ver o rótulo, sem saber de onde era, sem saber puto do que se tratava. As perguntas que foram sendo colocadas, à medida que ia engolindo os tragos, eram simples e directas: o que achas que é? de onde poderá vir? gostas ou não gostas? quantos anos terá? À primeira pergunta, respondi simplesmente não sei, após uma porrada de tentativas sem qualquer nexo ou sentido. À segunda questão, respinguei que não era vinho do Douro e muito menos do Sul, por causa da frescura e vigor que mostrava ter. Relativamente à terceira questão, retorqui com um claro e preciso gosto francamente. Perante a última questão e se a memória não me falha, julgo ter dito que seria qualquer coisa que andaria por dois mil e doze.


Revelado o rótulo, mostrada a precedência, a surpresa foi efectivamente enorme. Tratava-se de um vinho branco de dois mil e oito, com uma cor brilhante, cheia de vida, com uma juventude e complexidade estonteante e inusitada. Vivo, tenso, nervoso e com (enorme) carácter. Em jeito de remate, e sem qualquer cuidado no uso dos adjectivos, atrevo-me a dizer que é uma das grandes surpresas deste ano, principalmente por não estar à espera. 

quinta-feira, dezembro 17, 2015

O Pingus gostou destes: Os eleitos de 2015

A lógica é a mesma, a ideia é igual. Não há qualquer alteração, nem tem qualquer intuito em ser aquilo que nunca foi e que nunca será. É o bláblá de sempre.


É mais uma selecção de vinhos e que partilho. Como sempre e para não destoar, a sua escolha assenta em aspectos muito obscuros, tendenciosos e amplamente emocionais. Não há, portanto, quaisquer critérios. São meras notas soltas. Todos eles respeitam uma condição: foram referidos ou mencionados no meu pasquim e não noutros lugares.

O resto, como devem perceber, são assuntos sem importância. Eu gostei destes e vocês gostarão de outros. Constatação normal na vida de homens e mulheres. 

E até para o ano, se a vida quiser!

quarta-feira, dezembro 16, 2015

Gouvyas Cuvée OP 2000

E o ano encaminha-se para o fim e tudo foi quase igual como sempre. Nada de novo. Resumindo-se ao mesmo de sempre. Vinhos e mais vinhos. Provas e mais provas, com mais ou menos convites. Fotos e mais fotos. E lá andamos, todos, numa fila indiana mais ou menos organizada, com mais ou menos cotovelada. Faz parte.


Registo aqui no escaparate e para a posteridade, a minha, um dos vinhos que mais prazer deu na altura em que foi apresentado ao público. Andava esquecido nas calendas. 
Este vinho, entre outros, marcou um preríodo em que o mundo enófilo estava a despoletar de forma fervorosa, em que se falava de vinho de forma mais solta e sem qualquer constrangimento. A novidade era mesmo novidade, bem ao contrário do que acontece actualmente. Na verdade, naqueles tempos, tudo ou quase tudo parecia bem mais genuíno, bem mais inocente. Parecia. Autêntica Primavera.


Passados largos anos desde que o bebi pela última vez, foi com enorme surpresa que me apareceu pela frente. Este vinho não era e continua a não ser um vinho de modas. Era e é um vinho profundamente elegante, fresco e fino. Um vinho saudavelmente frio e estruturado para se beber do primeiro ao último copo. Um vinho tinto cheio de vida, que deu gozo enorme, que descontraiu de forma inusitada. E com isto tudo, já passou uma boa porrada de anos.

quarta-feira, dezembro 09, 2015

Remake: Somontes Touriga Nacional 2007

Apetecia-me dizer alarvidades, mas tentarei ser controlado na prosa e ela terá o valor que lhe quiserem dar. Adiante na prelecção que o que importa são outras coisas.
Quando falamos de Touriga Nacional e no que ela nos pode ou não oferecer, acabamos todos a debitar lugares comuns, palrar frases feitas e ideias pré-concebidas. Pouco sabemos.


Estamos aqui perante um vinho profundamente seco, muito fresco, com um carácter vincadamente vegetal, onde a fruta, a madeira e a doçura parecem não existir de todo. Se existem ou existirem estarão relegadas para lugares muito subalternos, bem lá no fundo da plateia.


Atreveria-me a dizer que será, neste momento, dos poucos exemplos, quiçá uma memória quase perdida, do que terão sido eventualmente os vinhos do Dão, no passado. Olhando para o rabisco que escrevi na altura, há quase três anos, devo dizer que não é preciso dizer mais. É vinho de memórias perdidas e uma muito feliz e desviante interpretação da Touriga Nacional.

segunda-feira, dezembro 07, 2015

1985

1985 foi um dos melhores anos da minha vida. Da minha vida juvenil, júnior. Consegui conciliar os bons resultados académicos com jogadas casanovianas que começaram a ocupar, a partir dessa altura, algum do tempo disponível. É certo que a maior parte das jogadas não davam em nada. Eram muito pouco profícuas e quase sempre desastradas. Ainda por cima, as paixonetas, as minhas e dos meus colegas, recaiam sempre sobre as jovens mais pretendidas, um pouco mais velhas e que faziam lembrar aquelas pin-up americanas. Faziam os deleites da rapaziada daquela altura.

Elegante e fresco. Para entreter.
Naturalmente as atenções de tais moçoilas não recaíam sobre jovens com penugem no buço, com erupções cutâneas, ainda com tiques de nerds, que tentavam largar a todo o custo.


Do outro lado, tínhamos as miúdas marronas, vestidas de forma colegial, que só mais tarde compreendemos a utilidade tal indumentária,  com golas e óculos de largo diâmetro e com borbulhas mais ou menos activas. Pioravam, ainda, quando esborratavam os seus lábios ou as suas sobrancelhas. Naturalmente fugíamos delas. Algumas, bem mais tarde, transfiguram-se em mulheres extremamente interessantes. Mas quem iria adivinhar?

quinta-feira, dezembro 03, 2015

Setúbal, Península de Setúbal ou Palmela

Em Setúbal, na Península de Setúbal ou em Palmela, é irrelevante para o caso a denominação, existe uma clara divisão entre o novo e moderno e a tradição, o clássico e a história. A clivagem entre estas duas visões é bastante clara nos vinhos da região.


A proliferação de vinhos pesados, doces e sem alma, parcos em frescura é cada vez maior e com uma falange de apoio cada vez mais significativa entre consumidores e produtores. Os números apontam, segundo consta, para isso. 


Pessoalmente é com profunda apreensão e pesar que assisto, salvo raras excepções, ao delapidar dos velhos castelões, em que o AS de António Saramago (que combina o castelão com outras castas) e Horácio Simões Grande Reserva são perfeitos exemplos. Vinhos profundos e potentes, mas com carácter, com personalidade vincada que aguentam o correr do tempo de forma digna. Foram substituídos por vinhos normalizados, onde uma palete de castas migrantes fazem o deleite da multidão.


Nos vinhos brancos apostou-se na exuberância aromática, na linearidade de aromas e sabores. São fáceis, são imediatos, são, como nos tintos, normalizados. Raros são os casos em que podemos deslumbrar um vinho marcante, como o Hexagon e o Horácio Simões Vinhas Velhas Boal que conseguem ombrear com os melhores vinhos brancos deste país, capazes de marcar um momento. 


É com enorme angústia que vejo uma porrada de moscatéis sem qualquer vivacidade, vindos principalmente das areias do Poceirão e Fernando Pó, sem a complexidade que um vinho desta estirpe deve ou devia ter. A falta de frescura é em alguns casos, se não na maior parte deles, aflitiva. Cansam ao fim de dois tragos, na melhor das hipóteses.
Salvam-se os confirmados José Maria da Fonseca, Bacalhôa, António Saramago e a Casa Agrícola Horácio Simões que parece apostar, de algum tempo a esta parte, na criação de um património que poderá dar origem, no futuro, a um conjunto de vinhos incontornáveis.


quarta-feira, dezembro 02, 2015

Oh Cistus! Que Surpresa!

Aproveitando alguns minutos de sossego interno, de algum distanciamento do rebuliço, disto e daquilo. Apetece-me palrar. Botar discurso, entreter-me com os meus botões, envolvendo-me com brincadeiras e jogos solitários. Falar de mim para mim, num jogo de monólogos vibrantes.

Oh! Que surpresa! 
Há dias em que se abre ou abriu uma garrafa sem qualquer objectivo, sem qualquer fim especifico. Abre-se porque se quer ou porque precisamos de libertar a cavilha da pressão, tentando evitar refluxos gastroesofágicos mais tarde.

A percepção de um vinho  (ainda jovem) com carácter que consegue cambiar bem a fruta directa com a frescura, sem nunca perder o interesse. Copo atrás de copo, vai-se esvaziando a garrafa sem dar conta. E fica a impressão de que é capaz de evoluir e bem no futuro.  Surpresa! Boa surpresa.
Escolhemos, ou tentamos, um vinho que potencie a alegria interna ou desfaça as tormentas e as dúvidas que incessantemente andam atrás de nós. Quando acertamos no propósito, ui, a coisa fica tão cor-de-rosa. Até parecemos outros.

Post Scriptum: O Vinho foi oferecido pelo Produtor.