quinta-feira, março 31, 2016

Quanto custa fazer um vinho?

Não sendo uma pessoa particularmente impressionável, devo dizer que fico perplexo com o preço a que alguns vinhos são vendidos. Este estado de perplexidade é válido tanto para vinhos estupidamente caros, como para vinhos ridiculamente baratos.


Se nos mais caros é aparentemente (in)compreensível, julgo e acho eu, os motivos e as razões de determinado preço, nos mais baratos não consigo descortinar, por muito que tente, a relação entre os custos e os (eventuais) lucros. Se é (quase) impossível ficar indiferente perante um vinho que custa dezenas e centenas de euros, na melhor das hipóteses, o mesmo se passa com vinhos que custam meia dúzia de centavos. Sendo fenómenos profundamente opostos, ambos deixam-me a pensar.

terça-feira, março 15, 2016

Quinta de SanJoanne: Escolhido há 13 anos atrás

Há momentos em que não são precisas grandes deambulações, grandes coisas para dizer textualmente e perante testemunhas: Grande Vinho! Ou vinho da noite ou daquele momento ou daquela altura. Daquelas sensações que arrebatam, que nos levam a dizer para connosco esquece lá o resto. É este e pronto. Não valia a pena estar com meias medidas, com meias palavras ou com grandes justificações. É assim mesmo.



Registei e ainda registo o facto de ter estado perante um vinho branco com treze anos de idade, que apresentava uma força descomunal, um vigor indescritível, com uma forma inatingível, quiçá, pela maioria dos vinhos brancos portugueses. Afirmação tola, exagerada e despropositada? Pois que seja, pois que seja.

sexta-feira, março 11, 2016

Moscatel de Setúbal: O estado da nação

As minhas escolhas estão cada vez mais afuniladas e restritas no que respeita ao Moscatel de Setúbal. A nova geração de moscatéis é caracterizada, em termos gerais, pela enorme falta de frescura,  pela ausência quase total de equilíbrio. Estão num patamar de complexidade muito abaixo dos pouquíssimos produtores se encontram no topo da pirâmide.  

Um moscatel bem balanceado e fresco, onde as sugestões a laranja, a toranja, a tangerina se misturam de forma equilibrada  com impressões a frutos secos. Com um nível de complexidade muito elevado. Um exemplo de como é possível colocar no mercado um vinho moscatel de superior qualidade a um preço que me parece perfeitamente aceitável. Incontornável. Exemplo de que é possível beber, sem ficar em estado de profundo enjoo.


São, na generalidade, vinhos chatos, profundamente doces e sem qualquer rasgo de genialidade. São apenas, atrevo-me a dizer, meros vinhos muito doces que indubitavelmente vão cansar-nos ao fim de poucos tragos. Pouquíssimos, aliás. Para serem acompanhados com limão, muitas pedras de gelo, e ou servirem como base a cocktails.

quarta-feira, março 09, 2016

Soalheiro: Sim ou Não? A minha eterna Dúvida

É um dos pináculos incontestáveis do mundo dos vinhos em Portugal, pelas mais diversas razões. E raras ou nenhumas são as vozes que contrariam esse estado de graça actual. Atrevo-me por isso a dizer que a maioria tem razão. É um facto. 


Pessoalmente não consigo ter uma posição definitiva sobre este vinho em particular. Umas vezes acho que sim, outras nem por isso. Por diversas vezes, fico com a sensação que estarei perante algo que não corresponde ao que esperaria de um alvarinho estreme. Dir-me-ão que ando a consumi-lo imberbe demais, quando está menos interessante, longe do seu melhor estado de maturação Que seja. 
Colocando as minhas considerações no universo da fé ou da mera opinião pessoal, creio que houve uma deriva no estilo e na abordagem. Tentativa após tentativa e num exercício que me demonstre que estou profundamente enganado, compro uma garrafa todos os anos. Sou confrontado sistematicamente com a perspectiva, errada com certeza, de estar perante um vinho em que o nervo, a acutilância foram relegados para planos subalternos, passando a ser dada mais ênfase à fruta de cariz mais tropical e ao arredondamento dos sabores.  


E na colheita de 2015? Após um conjunto de contradições e de estados de alma, largando todos os preconceitos e ideias pré-formadas, fiquei com a leve convicção que este terá sido o Soalheiro Clássico, nunca percebi este epíteto, que mais gostei. Pareceu-me mais equilibrado, aparentemente mais fresco, menos tropical, um pouco menos arredondado. Mas tudo preso por arestas, num jogo de harmonias aparentemente muito frágil. Suficiente para ficar convencido? Julgo que ainda não. Para o ano há mais. 

segunda-feira, março 07, 2016

Vergonhoso, Questionável, Enganador ou nada disto?

Têm sido recorrentes situações deste género na denominada maior garrafeira nacional, que é orientada, segundo se consta, por um presumível critico e produtor de vinhos da nossa praça. Isto é produz, critica  e classifica vinhos e ainda dá prémios por interposta pessoa. Mas adiante que o assunto é outro.
Independentemente de questionarmos a legalidade de tamanhas dádivas, atrevo-me a dizer que o pobre desconfia ou deve desconfiar de uma esmola deste calibre. A dimensão dos descontos oferecidos situa-se numa escala pornográfica. Serão feitos à revelia dos produtores? Serão feitos em conivência com os produtores? Ou falamos em produto empatado que precisa de ser escoado? São questões que gostava de ver esclarecidas, por quem de direito.

Foto de Tiago Fonseca
O que sobra no meio disto tudo, o que pode criar alguma (muita) perplexidade é que poderemos estar perante produtos e actores com muito pouca credibilidade, sem qualquer preocupação em oferecer mais valias, sem qualquer valor acrescentado e sem qualquer intuito ou interesse em fidelizar o cliente. Pretende-se, apenas e só apenas, vender para aquele consumidor que procura o mais baixo preço (e pouco mais). Pura canibalização e desvalorização de marcas. Perante estes comportamentos até apetece duvidar da qualidade dos vinhos. E com isto, arrependo-me de alguns comentários, bem mais positivos, que cheguei a fazer no passado. 

Foto de Paulo Pacheco
Não deixa de ser curioso que esta situação é transversal aos vinhos pertencentes ao universo Encostas do Alqueva e aos vinhos da Adega Cooperativa da Vidigueira, Cuba&Alvito. Terão ou haverá alguma coisa em comum entre eles? Ou serão apenas coincidências estranhas? Fazendo o paralelismo com a avaliação dos ratings das dívidas públicas, atrevo-me dizer que andaremos, aqui, muito perto do nível do lixo especulativo.