quinta-feira, maio 25, 2017

Muros Antigos Escolha 2001

Digamos que foi uma das novidades do ano para mim. Não fazia a mínima ideia que existia. Um vinho que terá sido na altura o reactor para uma nova abordagem ao alvarinho. Podemos afirmar que em dois mil e um, já lá vão dezasseis anos, Anselmo Mendes deu início aos Curtimenta, mas ainda debaixo do chapéu Muros Antigos. Distinguia-se dos restantes pela gargantilha dourada e pela menção Escolha. Certamente passaria despercebido.


Um vinho completamente inusitado na sua concepção (curtimenta total em cuba de inox, fermentando até ao fim com as películas). Na verdade, os vinhos brancos portugueses naquela altura estavam bem longe do reconhecimento interno que hoje possuem. Perfeitamente desenquadrado no que seria a moda naqueles tempos. Um arrojo ou uma loucura. Ou ambos. Diz a história que foi a partir desta combinação que saíram as melhores obras. Quando se fica pelo certo e seguro não se sai da mediania. Tal como ir no meio da multidão, sem saber porque se vai lá. Apenas porque é assim e fica bem. Na altura, segundo se consta, o mercado rejeitou este vinho, por causa da cor mais carregada que tinha.


Não conheci o vinho em novo, como devem ter percebido, chegou-me às mãos em estado laranja. Mas num estado maduro, profundamente personalizado, com uma frescura imensa. Num estado que provavelmente não irá ao encontro da multidão, mas que apaixona todos aqueles que procuram por algo que os desafie, que os provoque. Um vinho com uma dimensão, perdoem-me o exagero, ímpar. 

quarta-feira, maio 24, 2017

Confuso?

Analisem, por favor, esta página da Revista de Vinhos - A Essência do Vinho relativo às boas compras do mês de Abril de 2017. Digam-me o que acham. Ajudem a desmontar a coisa. Acham que um vinho com classificação de 14,5 e que custa 10.50€ pode ser considerado uma boa compra? Terá o produtor em causa partilhado esta informação efusivamente?


Outra curiosidade: dois vinhos com a mesma nota, mas com preços completamente díspares (Curva Reserva 2013, o tal que custa 10.50€ e Kopke 2013 que custa 4.30€), ambos do mesmo produtor, ganham o selo Boas Compras. Mirabolante, não? Ah! E como é que um vinho com uns honrosos 13,5 tem direito ao selo? Só porque custa uns simples 2.99€? Parece-me muito curto. Epá, se fosse o produtor do vinho em causa, acreditem, que partilhava com muito alarido e em tom de provocação. Do tipo: tomem lá. Fico com a ideia que cabe tudo ou quase tudo nesta categoria. Desde a água ao jarro do Vinho da Casa, presumo. Há coisas do arco da velha que não se entendem e deixam um tipo meio confuso.

segunda-feira, maio 22, 2017

Deveremos fazer AutoCensura?

Até onde podemos ir quando partilhamos as nossas impressões? Até onde devemos ir? Será que temos que impor, a nós próprios, algo parecido como a autocensura? Penso com alguma regularidade, e cada vez mais, se não estaremos a correr riscos desnecessários, a irritar-nos, a desgastar-nos, quando dizemos que não concordamos, que temos outra visão sobre qualquer coisa. Nem melhor e nem pior. Apenas outra. São visíveis as indisposições e as consequências.


Valerá a pena andar a comprar guerras com o establishment? Deixar indisposta a malta que vive no wonderworld by Alice? Aquele mundo onde um simples sussurro é suficiente para desequilibrar os ténues equilíbrios. Um lugar que é abastado e muito fértil. Ausente de qualquer defeito, onde os seus habitantes, de corpos torneados e cheios de gordurinhas, atingiram um nível de felicidade ímpar.  E para quem ambicione lá chegar, só tem que incorporar um conjunto de preceitos. Um deles é não abrir a boquinha.

quinta-feira, maio 18, 2017

Comprem isto! Não se acanhem!

Para terminar a semana. Uma semana em que a malta andou, mais uma vez, no rebuliço. Até foi fixe. Deste modo, reduziram-se os tempos mortos. E no meio de uma bica, mandou-se uma boca, meteu-se um like, fez-se um comentário. Deu-se uma graçola. Mas adiante que hoje a coisa é leve, levezinha.



Epá ando encantado com este vinho. Sabe-me mesmo muito bem. Diria que está um mimo. Bem balanceado, bem fresco. Tem nervo, corpo e dá para quase tudo. Por isso, meus amigos não se acanhem, comprem disto às caixas. É um conselho que vos dou :)

quarta-feira, maio 17, 2017

Terras de Tavares Reserva 1997

É simplesmente um dos vinhos do Dão que mais gosto de beber. É, sem tirar e nem pôr, um dos vinhos que tenho mais prazer. Está, agora, numa fase brilhante, mais adulto, mais domado, mais equilibrado. Está um vinho, digamos, do caraças. Apetece beber e beber. Aos copos.



Aqui entre nós, nunca percebi muito bem porque é que este vinho passou ou passa ao lado de tanta gente. Nunca entendi, porque é que não foi elevado aos patamares mais altos dos elogios. Porque é que não é mais vezes comentado pela malta. Ele está fantástico. Fica a minha dúvida.

terça-feira, maio 16, 2017

Bio: Convicção ou Necessidade?

Gostava (muito) que fosse o ponto de partida para uma troca de argumentos sem qualquer preconceito. Adoraria que não houvessem interpretações dúbias. Apreciava muito que enólogos e produtores se chegassem à frente e dissessem o que pensam sobre o assunto. A sua opinião, a sua visão sobre o tema. Para evitar que ficássemos, mais uma vez, a falar entre nós e para nós, até que aparecer alguém a dizer que só dizemos disparates. Ou que vivemos no mundo do achismo


Tenho assistido nos últimos tempos ao aparecimento de um número cada vez maior de vinhos da joanhinha. De um momento para o outro, são cada vez mais os produtores que apresentam um ou mais vinhos que são biológicos ou biodinâmicos ou naturais ou minimalistas. Ou orgânicos (não serão todos?). Ainda tenho dificuldades em separar estes conceitos, em perceber o que é o quê. Se é tudo a mesma coisa ou se não têm nada a ver ou se cruzam entre eles.
As perguntas que lanço são tão simples quanto isto: Esta mudança (aparente?) é resultado de um conjunto de convicções bem fundamentadas ou nem por isso? Ou apenas uma mera necessidade comercial? Tipo enriquecer o portefólio com um produto que vai ao encontro de uma faixa de consumidores que só consome produtos naturais? Escuto.

domingo, maio 14, 2017

Casa de Santar: De outros tempos (com mais glamour)

Atrevo-me a dizer que é um representante dos tempos áureos do produtor. Dos tempos em que os vinhos da Casa de Santar era sinónimo de valor acrescentado, de mais valia, de história. Agora, parecem-me descontextualizados, meio perdidos, com uma alma bem mais pequena. Partilho com vocês a profunda desilusão que tive quando bebi o Reserva da colheita de 2015. Fiquei meio atónito. Não estava à espera.


Fiquei quase chocado com o estado em que o encontrei. Pareceu-me demasiado normal, sem fulgor. Muito pouco, pensei eu, para um Reserva de uma das casas com mais nome e história na região do Dão. Que se passa? Que é isto? Pensei eu.
A sorte é aparecerem estas pérolas (de 1993), de tempos a tempos à nossa frente, e que nos fazem recordar outras épocas, quiçá, bem mais áureas, com muito mais glamour.

sábado, maio 13, 2017

Primeiro Round: A Vitória vai para ...

E pronto, terminou o primeiro round. Agora com os dois números uns nas mãos (entretanto, já saiu o número dois da renovada Essência do Vinho, ups da Revista de Vinhos - A Essência do Vinho), podemos dizer que a fase inicial da revolução está terminada. Começa a assentar o pó.


Ainda não li com toda a atenção a primeira edição da Vinho - Grandes Escolhas, mas um rápido raio x às muitas folhas que transporta (está grossa a edição inaugural), permite-me ainda assim dizer, sem qualquer leitura dúbia ou dúvida, que aparentemente deu abada no confronto dos números uns. Está, parece-me, mais coerente. Digamos que está projectada da cabeça aos pés (independentemente se gostamos ou não, se concordamos ou não). E percebe-se ou nota-se ou sente-se a mão dos autores. Há, pelo menos eu senti, uma certa continuidade do trabalho feito durante anos na antiga Revista de Vinhos. Não foi feita a martelo como aconteceu com a sua concorrente, em que meteram uma Wine com outra capa. O resto fica à consideração de quem lê. Iremos ter, certamente, muito assunto para conversar, concordar e discordar.


Agora aguardemos pelo desenlace da história. Quero ver, acima de tudo, como é que os produtores e distribuidores se vão comportar e alinhar perante as duas propostas de encontros com o vinho que irão acontecer, lá mais para a frente. Ambos prometem ser os maiores. Certamente, estarão a fazer contas à vida. Pelo meio, iremos assistir por esse país fora a eventos organizados e dinamizados pelos dois projectos concorrentes. Serão pequenas escaramuças. O confronto final será, como todos sabemos, no final do ano, na capital do império. Esperemos pelos próximos episódios.

quinta-feira, maio 11, 2017

Fui tramado, tramaram-me e eu tramei-me ...

Ups! E aconteceu. É mais um episódio que reflecte a minha incoerência. Desta vez, fui apanhado, como se costuma dizer, descalço. Portanto, a coisa de hoje é um contraditório. Não é a primeira vez que o faço. E são estes momentos que nos fazem rir, divertir e relativizar tudo e mais alguma coisa. É assim que as coisas têm de ser.


Fui literalmente tramado. No meio de três vinhos tintos que me deram a provar o que mais gostei foi este. Este mesmo. Sem tirar e nem pôr, foi este vinho que numa determinada noite gostei mais, que mais elogiei, que mais bebi.


Em tempo algum pensei quem era ou o que era. Estava simplesmente a curtir o vinho e a esvaziar cada dose que me era dada. Apresentava um estado de equilíbrio que não era nada, nada mesmo, desprezível. Como devem imaginar, engoli em seco. E esta hein? Há coisas do caraças... :)

segunda-feira, maio 08, 2017

Epá conheço isto!

Tenho que vos dizer que nunca fui daqueles gajos com enormes capacidades de prova, nem com especial apetência para escalpelizar um vinho, como se fosse um cirurgião especializado. E nos tempos que já lá vão, quando tinha a veleidade de caracterizar um vinho exaustivamente, a maior parte das coisas que dizia eram, na sua essência, sugestões emocionais, sem qualquer enquadramento com a realidade. Bom, era a minha realidade. Acreditava piamente que estava mesmo a sentir aquilo que estava a sentir. Eram, portanto, actos de enorme fé. Visões, estímulos, sensações. Imaginação e loucura juntas.

Está a ganhar dimensão, estatura à medida que o tempo vai passando. A complexizar-se cada vez mais, mantendo aquele registo que nos diz: não é para todos.
Mas aqui há dias, lá tive a sorte de adivinhar o que me enfiaram no copo. Tive o atrevimento, vejam lá a coisa, de dizer epá eu acho que conheço isto. O estilo pareceu-me, sei lá, inconfundível. Arrisquei o palpite. E aquilo que estava no copo era mesmo o que estava a pensar que era. Senti-me, como podem imaginar, um provador do caraças, capaz de rivalizar com os mais experientes da nossa praça. É de um tipo ficar inchado de orgulho.

quinta-feira, maio 04, 2017

Sim, gostei: Cortes de Cima

Vou fazer assim um post quase à antiga. Andava com vontade para pegar no vinho e bebê-lo sozinho, sem qualquer influência externa, sem ninguém à minha volta a dizer isto ou aquilo, sem dizer que o vinho é isto ou aquilo. Tinha provado o dito duas ou três vezes em ambiente de feira ou encontros, em que o pessoal parece saber tudo de tudo, até ao ínfimo pormenor. Alguns são puros campeões de provas, maratonistas, com uma capacidade de resistência ímpar.


E sem rodeios, sem aqueles prelúdios, tenho que confidenciar-vos, sem qualquer pejo, que gostei francamente do vinho. Soube-me, antes de mais, muito bem.


Pareceu-me ser, gosto de usar este verbo - parecer, um vinho branco que consegue combinar de forma bem curiosa, quase provocatória, meio louca, algum do peso, da gordura, da fruta meio impositiva, com uma sensação de frescura bem intensa, quase inesperada. Que marcava de forma convicta o momento, deixando um rasto bem vincado. Atrevo-me a dizer, perdoem-me se estarei errado, que será um vinho a dois tempos, meio bipolar. Intenso, voluptuoso, quase carnudo, num primeiro ataque e depois profundamente refrescante, airoso, limpo. Decididamente um alentejano refrescado e muito bem esgalhado. Valeu!

terça-feira, maio 02, 2017

Trivialidades de um Gajo (Parte II)

E quando um gajo se senta ao balcão para beber um copo, desfrutando da mera companhia desse copo? São momentos de introspecção, de análise, de conversa íntima. Por vezes, até se mete paleio com o outro tipo que está ao lado, sentado a olhar para nada. Começa-se muitas vezes por trivialidades, pelos lugares comuns, pelo tempo, pela falta de dinheiro, acabando quase sempre em partilhas inusitadas. Os desconhecidos passam num ápice a confidentes. Bebem-se mais duas rodadas, pagas a meias.


Percorre-se uma porrada de acontecimentos, acordam-se fantasmas e tenta projectar-se o que há de ainda vir. Se vier. E o diálogo termina quando os copos ficam vazios e as contas saldadas. Levanta-se e regressa-se cá para fora.

domingo, abril 30, 2017

Não há Fome que não dê em Fartura

Não sei se o provérbio está correto, mas tenho que assumir que isto está mesmo ao rubro. Depois das mudanças que assistimos no mundo editorial, com a morte de uma revista e posterior ressurreição sobre o nome de outra, a criação de uma outra, somos confrontados com os eventos. A uma distância considerável, os dois players concorrentes começam a posicionar-se para os encontros que irão realizar. E ambos serão, consta-se, os maiores eventos de vinho, alguma vez realizados. Os locais escolhidos até parecem ter uma mensagem implícita. Ora reparem: A antiga Revista de Vinhos que era para Apreciadores Exigentes e que agora é A Essência do Vinho continua com o Encontro com Vinhos/Encontro com Sabores na antiga FIL. A nova Revista de Vinhos que se chama Vinho - Grandes Escolhas vai para a nova FIL. Tudo isto não deixa de ser simbólico, não acham?
Estou curioso para saber quem serão os escolhidos para os respectivos painéis da "Escolha da Imprensa" que eventualmente irão ser criados. A Wine, caramba, a Revista de Vinhos - A Essência do Vinho diz que vai reforçar o painel de jurados com críticos internacionais convidados. Cheira-me a réplica do que se faz na Essência do Vinho, no Porto.


Ambos projectos prometem oferecer-nos The Next Big Thing. Tenho curiosidade, a sério, para saber como é que as falanges se irão colocar no terreno. Para os produtores será complicado tomar uma posição. Irão optar por um em detrimento de outro ou irão aos dois ou não irão a nenhum? Tenho que assumir que decisão não será fácil para eles. Os custos, presumo, não serão poucos. Para nós, vulgares mortais, creio que também não será fácil optar. Mas acho que, no final, a malta irá acabar por ir a tudo, para ficar bem com todos. É o início.


Se no lançamento dos números uns das novas revistas, a Wine, desculpem a Revista de Vinhos - A Essência de Vinho, foi a primeira a sair da recta da meta, com resultados que são, na minha opinião, medíocres, para ser simpático, a Vinho - Grandes Escolhas coloca-se em posição de destaque na organização do primeiro grande evento do ano, na capital do império, com o nome Vinhos e Sabores. Perante tudo isto, há que dizer que não há fome que não dê em fartura. No que me diz respeito, partilho com vocês, fiquei com vontade de dar uma olhadela nos dois Encontros com o Vinho, só para ver as vistas. Haja permissão superior.

sexta-feira, abril 28, 2017

Quinta da Lomba

Conheço a Quinta da Lomba desde que me conheço como gente. Desde que comecei a andar. Desde que soletrei os primeiros articulados verbais. Este espaço faz parte do meu imaginário. A quinta fazia e faz paredes meias com propriedades familiares e foram bastas as vezes que por lá andei a fazer poeira, a sacar uns bagos de uvas para comer no pico da tarde. Tropelias de rufias. 


Assisti à decadência, à formação das ruínas, até cair no abandono. Ainda assim, as suas uvas, em 2008, deram origem a um dos melhores vinhos brancos do Dão. Um vinho feito pela mão de João Tavares de Pina.


Agora faz parte do universo Niepoort. E desde a sua aquisição pelo actual proprietário que está a ser feito um trabalho de recuperação dos edifícios, das vinhas, dos muros, de todo o património que a quinta possui. Numa linha minimalista, sem grandes arrojos arquitectónicos, sem grandes modernices. E ainda bem. Consegue-se, assim, sentir aquele lado mais rupestre, mais bucólico e despojado da Serra. Existe coerência, respeito, enquadramento. E é com satisfação que observo a sua reedificação, o seu reaproveitamento. Num território que morre aceleradamente, qualquer investimento, seja ele qual for, é de registar.


Sobre as amostras de vinho que provei, mas em bruto, vindas das cubas de inox, dos tonéis, das barricas que são usadas, dos antigos lagares de cimento, ficou a ideia que temos aqui um conjunto de projectos que vão de encontro ao que Dirk pensa sobre o vinho, em que a elegância e a frescura parecem ser a linha mestra. Com muitas semelhanças, perdoem-me os entendidos na matéria, ao que é feito na vizinha Quinta de Baixo. Sendo, naturalmente, o desígnio mais recente de Dirk, iremos assistir com toda a naturalidade a afinações, a novas ideias, a novos vinhos (aquele Vinhas Velhas e Alfrocheiro). Mas o que importava mais, naquele momento, era calcorrear novamente cantos e recantos de um lugar que conheci muito bem. Digamos que é um lugar da História. Da minha.

quarta-feira, abril 26, 2017

Trivialidades de um Gajo

Não sei se acontece convosco, mas existem vinhos e determinadas combinações gastronómicas que só fazem sentido se estivermos no local apropriado. No lugar deles. Costumava dizer que estávamos perante vinhos e comidas étnicas, tribais.


Fazem sentido, têm coerência, por alguma razão, apenas num determinado lugar. No seu lugar. E enquadrados pelo cenário certo, adquirem uma dimensão impossível de ser copiada noutros espaços. Roçam quase o superlativo, mesmo sabendo que não são mais do que trivialidades de um povo. E minhas.


Já fiz a tentativa de reproduzir os mesmos momentos, as mesmas situações noutros locais e tenho que assumir que o prazer não é comparável. Nada sabe igual. Fica-se descontextualizado, faltam outros adereços, como os cheiros, as vistas, as pessoas. Cai sobre nós um certo vazio, provavelmente causado pela impossibilidade de não estar lá, no lugar certo.

terça-feira, abril 25, 2017

Since 24 de Abril de 2006

A liberdade permite-nos dizer tudo ou nada. A liberdade permite-nos dizer o que nos vai na alma, correr riscos, gritar, vociferar, chorar, rir, brincar. Largar as inúmeras angústias, festejar as poucas alegrias. É pura terapia, um escape, uma bola anti-stress. A liberdade permite-nos ser independente no meio das nossas profundas dependências. Permite-nos dizer que somos influenciados, que temos amigos, que somos parciais, que não seguimos em fila indiana. Permite-nos achar isto ou aquilo sobre tudo e mais alguma coisa. 


A liberdade permite-nos afirmar que não se quer estar aí ou ali, que se quer estar aqui ou acolá, que se quer ir por outro caminho. Permite-nos pensar sobre tudo ou sobre nada, mesmo que no final se esteja errado. A liberdade permite-nos extremar ideias, mandar bocas, mesmo sabendo que mais tarde irá aparecer uma qualquer factura para ser cobrada. Mas que se lixe, depois logo se vê. E com isto só faltam mais 11 anos. Passa rápido.

sexta-feira, abril 21, 2017

Dizem que gostam de vinhos finos mas ...

Por entre os diversos episódios relatados por Dirk Niepoort na Revista de Vinhos - A Essência do Vinho, e que são conhecidos, saltou à vista uma passagem (que ninguém pegou), sobre a eventual mudança de perfil dos vinhos do Douro, no particular, mas que podemos extrapolar para outras regiões e que transcrevo. "(...)Tal como o Priorat, o Douro estava a seguir um caminho errado, com vinhos muito pesados e extraídos, a prometer ao mundo que iam envelhecer. Dez anos depois começamos a ver que não é assim, que talvez fosse melhor vinhos mais finos, mais precisos, menos alcoólicos, com mais acidez e menos madeira. Vejam o Alvaro Palacios. Fazia vinhos monumentais, que nunca gostei muito. Mudou o perfil e agora está a fazer vinhos fantásticos. Mas teve a coragem de mudar! O mundo está a mudar. Hoje, um grande vinho tem que ser um vinho equilibrado, fino, que envelheça bem."

Imagem retirada da RV - A Essência do Vinho
Depois Dirk sobre o assunto avança com a seguinte tirada, por causa de alguma incompreensão que sente em relação aos seus vinhos (dedução minha): "(...) Acho que os jornalistas estão muito enganados. Vão muito pelo grande vinho, não tanto pelo que dá gozo beber. Dizem que gostam de vinhos finos mas atribuem as pontuações mais elevadas aos vinhos pesados e alcoólicos. Há uma fantochada muito grande. Mas é o que é, é normal." Para quem serão os barretes?

Imagem retirada da RV - A Essência do Vinho
Tendo a crer, sem ter os dados todos, que o autor poderá ter uma certa razão. Na verdade, existe uma enorme distância entre o que são as novas correntes, o que se pede, o que se deseja aparentemente e aquilo que acontece efectivamente na realidade. Por vezes, acho, que no final das contas, os vinhos que continuam a dar mais nas vistas são aqueles que usam da força e da exuberância para nos chamar a atenção. Vinhos que foram feitos para correr a alta velocidade em pequenas distâncias. Não mais que isso.

quarta-feira, abril 19, 2017

Quinta de Camarate: Branco Seco

Será provavelmente o vinho branco da PS (Península de Setúbal) que consumo mais vezes. É eventualmente um dos vinhos brancos da região com maior registo de colheitas feitas, fora daquela gama mais comercial, onde pontificam, por exemplo, nomes como João Pires, BSE, Lancers, Catarina (...) e que eram aquelas escolhas óbvias de quem ia a um restaurante ou para uma pândega entre comparsas. E assim de repente, veio-me à lembrança, agora mesmo, o Cova da Ursa. Vinhos incontornáveis, pelas mais diversas razões, na PS. No universo das opções, das tendências pessoais, inclinei-me sempre para o Camarate. Uma questão de gosto, naturalmente.


Será escusado dizer que é dos vinhos que mais gosto da região. Consistente e que parece aguentar a passagem dos anos, de forma digna. Este 2013 mostrou-se adulto, com aromas complexos e cheio de frescura, melhorando, vejam lá, nos dias seguintes.


Resumindo a coluna de hoje, digamos que é um dos portos que escolho para ancorar com segurança. Basicamente um lugar comum para mim e para outros tantos. E isso basta-me.

segunda-feira, abril 17, 2017

Foram com muita sede ao Pote?

E prontos, saiu a primeira edição da Revista de Vinhos - A Essência do Vinho e uma coisa saltou logo à vista na capa, para além do material de que é feita: deixou de ter o subtítulo Para Apreciadores Exigentes. Sendo a primeira publicação com outra equipa é quase impossível avalizar de forma sustentada o novo projecto, as suas ideias e opções que irão ser tomadas no futuro. Contudo, a sensação que tive ao passar os olhos pela revista é que há um longo percurso a fazer e eventualmente muitos ajustes para concretizar. Ainda assim, avanço com algumas considerações.
Para esta edição devia ter havido, acho eu, muito mais cuidado na escolha dos temas para os artigos de opinião e reportagens, o que cimenta a minha convicção, muito pessoal, de que alguns dos conteúdos publicados agora, já estariam feitos e preparados para serem lançados na extinta Wine. Estava à espera de bem mais. Ok, uma reportagem com Dirk Niepoort é sempre um trunfo, mas só isto? E a Jancis? Podia ter sido desafiada a escrever sobre outra coisa bem mais significativa. Parece-me um autêntico desperdício de recursos. Basicamente, procurei por conteúdos e não os encontrei. Esqueceram-se que a primeira impressão conta muito?



Fiquei com a profunda crença que a nova equipa editorial trabalhou este número, sem rever o que já tinha sido publicado na RV no passado, pois só assim se justifica que surja outra vez uma reportagem sobre a Bacalhôa. Seria mais um artigo que já estava preparado para sair na Wine? Quase apetece extrapolar para outras situações: será que alguns vinhos provados e classificados para este número, já o tinham sido para a Wine ou para a RV? Terá havido revisão de artigos, reportagens e notas de prova já publicados? Terá havido reflexão sobre eventuais confusões que possam surgir no leitor e no produtor? Ficam as minhas dúvidas.


Os selos de garantia, tipo Boa Compra, mantêm-se, sendo que agora temos um ?novo? que é o Altamente Recomendado que provavelmente terá migrado da Wine. As selecções Para a Mesa e Para a Cave também se mantiveram, bem como as escolhas pessoais de cada provador. Mudou apenas o grafismo que pessoalmente não me agradou. Uma questão de gosto. 
No que respeita a propostas de enoturismo, a recauchutada Wine ou RV, não sei como as adjectivar, não publica qualquer referência. Opção editorial? Mantém as colunas sobre restaurantes e respectiva classificação por itens. Creio que é outra migração da Wine, salvo erro. Reparei que temos páginas com receitas de culinária o que achei, no mínimo, curioso. 


Bom, resumindo e baralhando e descontando o facto de estarmos perante algo novo com nome já antigo, tenho que partilhar que estava à espera de mais. Muito mais. No essencial o que vi foram flashes da revista Wine (que não compro há muito tempo), com o aproveitamento de alguns gadgets da RV, o que é manifestamente muito pouco para quem ambiciona ser um projecto de referência. Para já, diria que a revista Wine foi apenas forrada com a capa da RV. E como tal não basta. 
Sem saber como vai ser a primeira edição Vinho - Grandes Escolhas, apetece-me dizer que o arranque da RV - A Essência do Vinho foi muito titubeante, confuso e que não nos deixa perceber qual será o seu verdadeiro foco. Ouço falar no mundo Lusófono. 
Parece-me que deram 45 minutos de avanço aos seus concorrentes, o que lhes pode sair bem caro. É caso para dizer que foram com muita sede ao pote. Aguardemos, pois então, pelas cenas dos próximos capítulos. E eu que já não comprava uma revista de vinho há uma porrada de tempo? Sim senhor...

sábado, abril 15, 2017

No Conforto da Tribo...

São momentos de profundo equilíbrio emocional, de grande satisfação. Estar junto da tribo, protegido por ela, rodeado de múltiplos motivos que reportam a memórias, catapulta-me para um estado de felicidade que quase pensamos não existir. Assumidamente não sou bicho da cidade. Não curto o rebuliço, o barulho da grande urbe, as passarelas da vaidade. Está-se literalmente longe da vista e do longe do coração. Não se quer saber. Os problemas, sejam eles quais forem, surgem muito menos prementes, quase que não queremos saber deles. Que se lixem!


Na terra da tribo conseguimos recordar a simplicidade das coisas, aquilo que, em tempos, comemos e bebemos. As lembranças das pessoas que se levantaram da mesa, sem ordem, são muito menos doridas. É-se muito mais prosaico, muito mais despojado de artefactos, mas muito mais feliz. 


A porra disto tudo, é que o tempo não volta para trás, não se pode reescrever novamente a história, não se consegue obrigar o tempo a parar. O gajo não ouve e parece que corre cada vez mais veloz.