sexta-feira, junho 16, 2017

Podem festejar!

Para balanço! Vai fechar para arrumações, para fazer o inventário e limpar os cacos que se espalharam num ápice. Há que voltar a colá-los, se conseguir.


Por tempo indeterminado. Podem festejar! Lançar foguetes. Suspirar de alívio. Por agora, tenho coisas bem mais importantes para fazer. Para recuperar. Voltarei quando tiver vontade, sempre no mesmo estilo e na mesma forma. Logo vejo. Até já.

sexta-feira, junho 09, 2017

O Melhor do Mundo...

É um pedido muito pessoal a todos aqueles que trabalham na comunicação e que nos enviam press release's a dar nota do nosso sucesso pelo mundo fora. O pedido é simples. Podem parar com aqueles títulos bombásticos que dizem que o melhor do mundo foi Sicrano ou Beltrano? Por favor, parem com isso. Digam, apenas, que foram os melhores neste ou naquele concurso. Que recebeu esta ou aquela medalha ou diploma ou menção, que foi escolhido para isto ou para aquilo. Ok, entende-se e percebe-se. Deve ser conhecido e divulgado. Nada contra e aplaudo efusivamente.


Mas, por favor, não digam que é o melhor do mundo, na categoria A, B ou C. A sério. Não usem chavões que possam levar ao engano o tipo mais distraído. Só é preciso reajustar a prosa que nos enviam, enquadrar o titulo de forma correcta e consentânea com a realidade. Não custa nada. Vá lá. Depois temos a malta como nós, que não percebe do assunto e amplifica a coisa. É que alguns acreditam, mesmo, que eles foram os melhores do mundo. Por exemplo, o Salvador Sobral não é o melhor do mundo.

quarta-feira, junho 07, 2017

Vale dos Ares: Limited Edition

Os miúdos do vinho estão a arriscar. Arriscam nos vinhos que fazem. Procuram o seu sucesso, o seu lugar ao sol, calcorreando outros caminhos, experimentando novas abordagens. Tentam fugir à norma, ao vinho sem carácter, sem personalidade, sem ponta de graça. Estes miúdos dos vinhos são cada vez mais. E com isto conseguem criar uma falange de seguidores e admiradores. Na maior parte, bem mais cotas, bem menos jovens. Ainda não caíram totalmente nas graças da critica engravatada. Ainda bem. Temo que um dia quando olharem para eles, a sério, se tornem em barões gordos e aburguesados e deixem de falar com o povo. A todos os miúdos do vinho, peço que continuem a assim, não voltem atrás, não mudem a vossa agulha. Continuem!


Estamos, afirmo-o sem qualquer pudor ou contenção nas palavras, perante um vinho branco de grande amplitude, estrutura e frescura. Com uma paleta de aromas e sabores, haja imaginação para os descrever, enorme e bastante complexa. Num registo profundamente seco e sóbrio, por vezes férreo, mas muito apaixonante. Percebe-se que foi arquitectado de forma ponderada e com um objectivo bem definido. Com o simples propósito de nos encher as medidas, de nos deixar satisfeitos, de nos arrumar a um canto e mostrar quem manda


E meus caros amigos, leitores e não leitores, seguidores e não seguidores, este vinho foi uma das melhores surpresas que tive este ano e fatalmente um dos vinhos que mais gozo e prazer me deu a beber. Basicamente era só isto.

Post Scriptum: O Vinho foi oferecido pelo Produtor.

segunda-feira, junho 05, 2017

Zafirah: Paradigma do Insólito

Este vinho encaixa que nem uma luva naquilo que consideramos de diferente, no sentido mais restrito do conceito. É completamente inusitado e desviante. Tenho alguma dificuldade em procurar algo semelhante ou que se aproxime a isto, aqui em Portugal. O próprio autor diz, em jeito de brincadeira, que é um vinho com problemas, com arestas e sujo (não foi filtrado). Um conjunto de atributos que atiçam a curiosidade de quem procura por aquele derradeiro vinho. 


Um vinho tinto com uma cor muito pouco carregada, quase aberta, não fermentou com a película, com uma frescura pujante, a pedir comida gorda, bem portuguesa. Daquela sem arranjos florais, sem espumas e esferas. Limpa a boca, refresca o palato. Tem fruta vermelha e uma forte componente vegetal. Com presença e com uma rusticidade elegante que nos vicia e que não estamos à espera. Estranha-se, depois entranha-se e nunca mais paramos.


Não foi feito para agradar a todos e nem terá sido esse o objectivo, mas alegrará todos aqueles que gostam de emoções mais fortes, que apreciam desafios intensos, que procuram ter prazer com algo que não seja igual a tudo o resto. Que tenham um vinho à sua mesa, que não seja simplesmente mais um. Se forem um destes, procurem o vinho e bebam-no. Bebam-no sem temor e sem receio (grau alcoólico muito baixo). Irão gostar, certamente. Aos outros, tentem e provavelmente irão ficar surpreendidos. Já, agora, atrevo-me a dizer que temos vinho tinto para o Verão. É que vai com tudo.

sexta-feira, junho 02, 2017

Quinta do Ameal: O Loureiro!

A época balnear abriu oficialmente! Como sempre no dia da Criança, sendo que este ano a época da praia pareceu ter começado mais cedo. Na verdade, e porque está na agenda do dia, cheira-me e sem fundamento, que as características do nosso clima estão cada vez mais semelhantes às do norte de África. Verão durante quase doze meses. Isto está mesmo a mudar, caramba. Ainda iremos festejar o Natal de manga curta.


Por isto tudo, faz cada vez mais sentido que os vinhos sejam mais frescos, mais fáceis, mais sadios, mais leves, com menos madeira, com mais nervo, com mais finura. Começa a não fazer sentido a expressão vinho para o Inverno. E com um Inverno como o nosso, cada vez mais soft, mais ligeiro, podemos na boa  passar a vida a beber vinhos como este, que faz as honras de ilustração para a coisa de hoje. Continua consistente, no registo que nos habituou. 


Com muita frescura. Vibrante. Mostra capacidade para evoluir. Aliás, este vinho sempre teve a capacidade para ganhar dimensão e volume com o tempo. Ah, acreditam que só reparei nos desejados e ambicionados pontos RP, depois da garrafa estar vazia? Ainda tentei tirar etiqueta para a foto, mas estragava o rótulo.

quarta-feira, maio 31, 2017

Cenários Vintage

São momentos de um certo tempo. Digamos que são cenários Vintage. Retratos de um estilo de vida que está a desaparecer, sem gente, em que se bebia um copo daquele palhete bem fresco, junto da latada ou encostado à porta, procurando pela sombra. Um prosaico copo de vinho acompanhado por um bolo seco. 




Provavelmente serão lances toscos, rudes, sinónimo de ausência de evolução, para a maioria de vós. Sem qualquer requinte e que não fica bem mostrar ao mundo. Sem interesse e sem estilo. Mas são coisas que têm um profundo significado para mim. 

segunda-feira, maio 29, 2017

O Chipmunk do António Serôdio

Este post pertence ao grupo dos posts em que a carga pessoal é das mais elevadas. Vou tentar ir por partes, se conseguir. Se não conseguir, que se lixe.
Como é público e sabido nunca pretendi (nem pretendo) esconder as minhas relações, as minhas intimidades, as minhas amizades, os meus gostos, as minhas fraquezas e dúvidas. Não sou independente. Não sou e não quero ser. Sinto-me bem neste estado e é assim que a coisa irá desenrolar-se, até chegar à linha da meta. Mesmo que chegue em último lugar. Já não há idade ou paciência para ser diferente.


O vinho, para além da Matemática, proporcionou-me a possibilidade de conhecer gente. Gente que gosto, com quem estabeleci relações fortes. Gente de quem me tornei amigo. O António Serôdio é um deles. Arriscou vir lá de cima para conhecer os bloggers portugueses em 2007, na York House. Jantou connosco, falou connosco. Falava com ele com enorme regularidade.
Mais tarde, fui a casa dele, algures em Fermentões (Sabrosa). Comi à mesa com ele, bebi o Vinho da Menina, que era do ano de nascimento de sua mãe. Ela estava no topo da mesa. Fumou-se charuto. Professor como eu, mas de ciências bem diferentes das minhas, resolveu lançar-se no mundo dos vinhos. Enviou-me uma garrafa para beber.


Rótulo completamente inusitado. Contra-rótulo completamente louco. Fala sobre aviação. Mas o que importa para mim é que estive perante um vinho branco que reflecte o jovem produtor. Um vinho profundamente fresco. Um vinho que não alinha no diapasão da fruta madura, exuberante e imediata. Um vinho que é limpo, sadio, que é, sei lá, tenso e aguerrido. Cristalino. Um vinho que não se coaduna com urbanidades, nem com quem gosta de coisas da cidade, que gosta do plastificado. Fica muito bem numa mesa e à mesa. Um vinho que me emocionou e que desfrutei até à última gota. Daqueles para beber aos copos. E isto é derradeira homenagem que se pode fazer a um vinho.

quinta-feira, maio 25, 2017

Muros Antigos Escolha 2001

Digamos que foi uma das novidades do ano para mim. Não fazia a mínima ideia que existia. Um vinho que terá sido na altura o reactor para uma nova abordagem ao alvarinho. Podemos afirmar que em dois mil e um, já lá vão dezasseis anos, Anselmo Mendes deu início aos Curtimenta, mas ainda debaixo do chapéu Muros Antigos. Distinguia-se dos restantes pela gargantilha dourada e pela menção Escolha. Certamente passaria despercebido.


Um vinho completamente inusitado na sua concepção (curtimenta total em cuba de inox, fermentando até ao fim com as películas). Na verdade, os vinhos brancos portugueses naquela altura estavam bem longe do reconhecimento interno que hoje possuem. Perfeitamente desenquadrado no que seria a moda naqueles tempos. Um arrojo ou uma loucura. Ou ambos. Diz a história que foi a partir desta combinação que saíram as melhores obras. Quando se fica pelo certo e seguro não se sai da mediania. Tal como ir no meio da multidão, sem saber porque se vai lá. Apenas porque é assim e fica bem. Na altura, segundo se consta, o mercado rejeitou este vinho, por causa da cor mais carregada que tinha.


Não conheci o vinho em novo, como devem ter percebido, chegou-me às mãos em estado laranja. Mas num estado maduro, profundamente personalizado, com uma frescura imensa. Num estado que provavelmente não irá ao encontro da multidão, mas que apaixona todos aqueles que procuram por algo que os desafie, que os provoque. Um vinho com uma dimensão, perdoem-me o exagero, ímpar. 

quarta-feira, maio 24, 2017

Confuso?

Analisem, por favor, esta página da Revista de Vinhos - A Essência do Vinho relativo às boas compras do mês de Abril de 2017. Digam-me o que acham. Ajudem a desmontar a coisa. Acham que um vinho com classificação de 14,5 e que custa 10.50€ pode ser considerado uma boa compra? Terá o produtor em causa partilhado esta informação efusivamente?


Outra curiosidade: dois vinhos com a mesma nota, mas com preços completamente díspares (Curva Reserva 2013, o tal que custa 10.50€ e Kopke 2013 que custa 4.30€), ambos do mesmo produtor, ganham o selo Boas Compras. Mirabolante, não? Ah! E como é que um vinho com uns honrosos 13,5 tem direito ao selo? Só porque custa uns simples 2.99€? Parece-me muito curto. Epá, se fosse o produtor do vinho em causa, acreditem, que partilhava com muito alarido e em tom de provocação. Do tipo: tomem lá. Fico com a ideia que cabe tudo ou quase tudo nesta categoria. Desde a água ao jarro do Vinho da Casa, presumo. Há coisas do arco da velha que não se entendem e deixam um tipo meio confuso.

segunda-feira, maio 22, 2017

Deveremos fazer AutoCensura?

Até onde podemos ir quando partilhamos as nossas impressões? Até onde devemos ir? Será que temos que impor, a nós próprios, algo parecido como a autocensura? Penso com alguma regularidade, e cada vez mais, se não estaremos a correr riscos desnecessários, a irritar-nos, a desgastar-nos, quando dizemos que não concordamos, que temos outra visão sobre qualquer coisa. Nem melhor e nem pior. Apenas outra. São visíveis as indisposições e as consequências.


Valerá a pena andar a comprar guerras com o establishment? Deixar indisposta a malta que vive no wonderworld by Alice? Aquele mundo onde um simples sussurro é suficiente para desequilibrar os ténues equilíbrios. Um lugar que é abastado e muito fértil. Ausente de qualquer defeito, onde os seus habitantes, de corpos torneados e cheios de gordurinhas, atingiram um nível de felicidade ímpar.  E para quem ambicione lá chegar, só tem que incorporar um conjunto de preceitos. Um deles é não abrir a boquinha.

quinta-feira, maio 18, 2017

Comprem isto! Não se acanhem!

Para terminar a semana. Uma semana em que a malta andou, mais uma vez, no rebuliço. Até foi fixe. Deste modo, reduziram-se os tempos mortos. E no meio de uma bica, mandou-se uma boca, meteu-se um like, fez-se um comentário. Deu-se uma graçola. Mas adiante que hoje a coisa é leve, levezinha.



Epá ando encantado com este vinho. Sabe-me mesmo muito bem. Diria que está um mimo. Bem balanceado, bem fresco. Tem nervo, corpo e dá para quase tudo. Por isso, meus amigos não se acanhem, comprem disto às caixas. É um conselho que vos dou :)

quarta-feira, maio 17, 2017

Terras de Tavares Reserva 1997

É simplesmente um dos vinhos do Dão que mais gosto de beber. É, sem tirar e nem pôr, um dos vinhos que tenho mais prazer. Está, agora, numa fase brilhante, mais adulto, mais domado, mais equilibrado. Está um vinho, digamos, do caraças. Apetece beber e beber. Aos copos.



Aqui entre nós, nunca percebi muito bem porque é que este vinho passou ou passa ao lado de tanta gente. Nunca entendi, porque é que não foi elevado aos patamares mais altos dos elogios. Porque é que não é mais vezes comentado pela malta. Ele está fantástico. Fica a minha dúvida.

terça-feira, maio 16, 2017

Bio: Convicção ou Necessidade?

Gostava (muito) que fosse o ponto de partida para uma troca de argumentos sem qualquer preconceito. Adoraria que não houvessem interpretações dúbias. Apreciava muito que enólogos e produtores se chegassem à frente e dissessem o que pensam sobre o assunto. A sua opinião, a sua visão sobre o tema. Para evitar que ficássemos, mais uma vez, a falar entre nós e para nós, até que aparecer alguém a dizer que só dizemos disparates. Ou que vivemos no mundo do achismo


Tenho assistido nos últimos tempos ao aparecimento de um número cada vez maior de vinhos da joanhinha. De um momento para o outro, são cada vez mais os produtores que apresentam um ou mais vinhos que são biológicos ou biodinâmicos ou naturais ou minimalistas. Ou orgânicos (não serão todos?). Ainda tenho dificuldades em separar estes conceitos, em perceber o que é o quê. Se é tudo a mesma coisa ou se não têm nada a ver ou se cruzam entre eles.
As perguntas que lanço são tão simples quanto isto: Esta mudança (aparente?) é resultado de um conjunto de convicções bem fundamentadas ou nem por isso? Ou apenas uma mera necessidade comercial? Tipo enriquecer o portefólio com um produto que vai ao encontro de uma faixa de consumidores que só consome produtos naturais? Escuto.

domingo, maio 14, 2017

Casa de Santar: De outros tempos (com mais glamour)

Atrevo-me a dizer que é um representante dos tempos áureos do produtor. Dos tempos em que os vinhos da Casa de Santar era sinónimo de valor acrescentado, de mais valia, de história. Agora, parecem-me descontextualizados, meio perdidos, com uma alma bem mais pequena. Partilho com vocês a profunda desilusão que tive quando bebi o Reserva da colheita de 2015. Fiquei meio atónito. Não estava à espera.


Fiquei quase chocado com o estado em que o encontrei. Pareceu-me demasiado normal, sem fulgor. Muito pouco, pensei eu, para um Reserva de uma das casas com mais nome e história na região do Dão. Que se passa? Que é isto? Pensei eu.
A sorte é aparecerem estas pérolas (de 1993), de tempos a tempos à nossa frente, e que nos fazem recordar outras épocas, quiçá, bem mais áureas, com muito mais glamour.

sábado, maio 13, 2017

Primeiro Round: A Vitória vai para ...

E pronto, terminou o primeiro round. Agora com os dois números uns nas mãos (entretanto, já saiu o número dois da renovada Essência do Vinho, ups da Revista de Vinhos - A Essência do Vinho), podemos dizer que a fase inicial da revolução está terminada. Começa a assentar o pó.


Ainda não li com toda a atenção a primeira edição da Vinho - Grandes Escolhas, mas um rápido raio x às muitas folhas que transporta (está grossa a edição inaugural), permite-me ainda assim dizer, sem qualquer leitura dúbia ou dúvida, que aparentemente deu abada no confronto dos números uns. Está, parece-me, mais coerente. Digamos que está projectada da cabeça aos pés (independentemente se gostamos ou não, se concordamos ou não). E percebe-se ou nota-se ou sente-se a mão dos autores. Há, pelo menos eu senti, uma certa continuidade do trabalho feito durante anos na antiga Revista de Vinhos. Não foi feita a martelo como aconteceu com a sua concorrente, em que meteram uma Wine com outra capa. O resto fica à consideração de quem lê. Iremos ter, certamente, muito assunto para conversar, concordar e discordar.


Agora aguardemos pelo desenlace da história. Quero ver, acima de tudo, como é que os produtores e distribuidores se vão comportar e alinhar perante as duas propostas de encontros com o vinho que irão acontecer, lá mais para a frente. Ambos prometem ser os maiores. Certamente, estarão a fazer contas à vida. Pelo meio, iremos assistir por esse país fora a eventos organizados e dinamizados pelos dois projectos concorrentes. Serão pequenas escaramuças. O confronto final será, como todos sabemos, no final do ano, na capital do império. Esperemos pelos próximos episódios.

quinta-feira, maio 11, 2017

Fui tramado, tramaram-me e eu tramei-me ...

Ups! E aconteceu. É mais um episódio que reflecte a minha incoerência. Desta vez, fui apanhado, como se costuma dizer, descalço. Portanto, a coisa de hoje é um contraditório. Não é a primeira vez que o faço. E são estes momentos que nos fazem rir, divertir e relativizar tudo e mais alguma coisa. É assim que as coisas têm de ser.


Fui literalmente tramado. No meio de três vinhos tintos que me deram a provar o que mais gostei foi este. Este mesmo. Sem tirar e nem pôr, foi este vinho que numa determinada noite gostei mais, que mais elogiei, que mais bebi.


Em tempo algum pensei quem era ou o que era. Estava simplesmente a curtir o vinho e a esvaziar cada dose que me era dada. Apresentava um estado de equilíbrio que não era nada, nada mesmo, desprezível. Como devem imaginar, engoli em seco. E esta hein? Há coisas do caraças... :)

segunda-feira, maio 08, 2017

Epá conheço isto!

Tenho que vos dizer que nunca fui daqueles gajos com enormes capacidades de prova, nem com especial apetência para escalpelizar um vinho, como se fosse um cirurgião especializado. E nos tempos que já lá vão, quando tinha a veleidade de caracterizar um vinho exaustivamente, a maior parte das coisas que dizia eram, na sua essência, sugestões emocionais, sem qualquer enquadramento com a realidade. Bom, era a minha realidade. Acreditava piamente que estava mesmo a sentir aquilo que estava a sentir. Eram, portanto, actos de enorme fé. Visões, estímulos, sensações. Imaginação e loucura juntas.

Está a ganhar dimensão, estatura à medida que o tempo vai passando. A complexizar-se cada vez mais, mantendo aquele registo que nos diz: não é para todos.
Mas aqui há dias, lá tive a sorte de adivinhar o que me enfiaram no copo. Tive o atrevimento, vejam lá a coisa, de dizer epá eu acho que conheço isto. O estilo pareceu-me, sei lá, inconfundível. Arrisquei o palpite. E aquilo que estava no copo era mesmo o que estava a pensar que era. Senti-me, como podem imaginar, um provador do caraças, capaz de rivalizar com os mais experientes da nossa praça. É de um tipo ficar inchado de orgulho.

quinta-feira, maio 04, 2017

Sim, gostei: Cortes de Cima

Vou fazer assim um post quase à antiga. Andava com vontade para pegar no vinho e bebê-lo sozinho, sem qualquer influência externa, sem ninguém à minha volta a dizer isto ou aquilo, sem dizer que o vinho é isto ou aquilo. Tinha provado o dito duas ou três vezes em ambiente de feira ou encontros, em que o pessoal parece saber tudo de tudo, até ao ínfimo pormenor. Alguns são puros campeões de provas, maratonistas, com uma capacidade de resistência ímpar.


E sem rodeios, sem aqueles prelúdios, tenho que confidenciar-vos, sem qualquer pejo, que gostei francamente do vinho. Soube-me, antes de mais, muito bem.


Pareceu-me ser, gosto de usar este verbo - parecer, um vinho branco que consegue combinar de forma bem curiosa, quase provocatória, meio louca, algum do peso, da gordura, da fruta meio impositiva, com uma sensação de frescura bem intensa, quase inesperada. Que marcava de forma convicta o momento, deixando um rasto bem vincado. Atrevo-me a dizer, perdoem-me se estarei errado, que será um vinho a dois tempos, meio bipolar. Intenso, voluptuoso, quase carnudo, num primeiro ataque e depois profundamente refrescante, airoso, limpo. Decididamente um alentejano refrescado e muito bem esgalhado. Valeu!

terça-feira, maio 02, 2017

Trivialidades de um Gajo (Parte II)

E quando um gajo se senta ao balcão para beber um copo, desfrutando da mera companhia desse copo? São momentos de introspecção, de análise, de conversa íntima. Por vezes, até se mete paleio com o outro tipo que está ao lado, sentado a olhar para nada. Começa-se muitas vezes por trivialidades, pelos lugares comuns, pelo tempo, pela falta de dinheiro, acabando quase sempre em partilhas inusitadas. Os desconhecidos passam num ápice a confidentes. Bebem-se mais duas rodadas, pagas a meias.


Percorre-se uma porrada de acontecimentos, acordam-se fantasmas e tenta projectar-se o que há de ainda vir. Se vier. E o diálogo termina quando os copos ficam vazios e as contas saldadas. Levanta-se e regressa-se cá para fora.

domingo, abril 30, 2017

Não há Fome que não dê em Fartura

Não sei se o provérbio está correto, mas tenho que assumir que isto está mesmo ao rubro. Depois das mudanças que assistimos no mundo editorial, com a morte de uma revista e posterior ressurreição sobre o nome de outra, a criação de uma outra, somos confrontados com os eventos. A uma distância considerável, os dois players concorrentes começam a posicionar-se para os encontros que irão realizar. E ambos serão, consta-se, os maiores eventos de vinho, alguma vez realizados. Os locais escolhidos até parecem ter uma mensagem implícita. Ora reparem: A antiga Revista de Vinhos que era para Apreciadores Exigentes e que agora é A Essência do Vinho continua com o Encontro com Vinhos/Encontro com Sabores na antiga FIL. A nova Revista de Vinhos que se chama Vinho - Grandes Escolhas vai para a nova FIL. Tudo isto não deixa de ser simbólico, não acham?
Estou curioso para saber quem serão os escolhidos para os respectivos painéis da "Escolha da Imprensa" que eventualmente irão ser criados. A Wine, caramba, a Revista de Vinhos - A Essência do Vinho diz que vai reforçar o painel de jurados com críticos internacionais convidados. Cheira-me a réplica do que se faz na Essência do Vinho, no Porto.


Ambos projectos prometem oferecer-nos The Next Big Thing. Tenho curiosidade, a sério, para saber como é que as falanges se irão colocar no terreno. Para os produtores será complicado tomar uma posição. Irão optar por um em detrimento de outro ou irão aos dois ou não irão a nenhum? Tenho que assumir que decisão não será fácil para eles. Os custos, presumo, não serão poucos. Para nós, vulgares mortais, creio que também não será fácil optar. Mas acho que, no final, a malta irá acabar por ir a tudo, para ficar bem com todos. É o início.


Se no lançamento dos números uns das novas revistas, a Wine, desculpem a Revista de Vinhos - A Essência de Vinho, foi a primeira a sair da recta da meta, com resultados que são, na minha opinião, medíocres, para ser simpático, a Vinho - Grandes Escolhas coloca-se em posição de destaque na organização do primeiro grande evento do ano, na capital do império, com o nome Vinhos e Sabores. Perante tudo isto, há que dizer que não há fome que não dê em fartura. No que me diz respeito, partilho com vocês, fiquei com vontade de dar uma olhadela nos dois Encontros com o Vinho, só para ver as vistas. Haja permissão superior.

sexta-feira, abril 28, 2017

Quinta da Lomba

Conheço a Quinta da Lomba desde que me conheço como gente. Desde que comecei a andar. Desde que soletrei os primeiros articulados verbais. Este espaço faz parte do meu imaginário. A quinta fazia e faz paredes meias com propriedades familiares e foram bastas as vezes que por lá andei a fazer poeira, a sacar uns bagos de uvas para comer no pico da tarde. Tropelias de rufias. 


Assisti à decadência, à formação das ruínas, até cair no abandono. Ainda assim, as suas uvas, em 2008, deram origem a um dos melhores vinhos brancos do Dão. Um vinho feito pela mão de João Tavares de Pina.


Agora faz parte do universo Niepoort. E desde a sua aquisição pelo actual proprietário que está a ser feito um trabalho de recuperação dos edifícios, das vinhas, dos muros, de todo o património que a quinta possui. Numa linha minimalista, sem grandes arrojos arquitectónicos, sem grandes modernices. E ainda bem. Consegue-se, assim, sentir aquele lado mais rupestre, mais bucólico e despojado da Serra. Existe coerência, respeito, enquadramento. E é com satisfação que observo a sua reedificação, o seu reaproveitamento. Num território que morre aceleradamente, qualquer investimento, seja ele qual for, é de registar.


Sobre as amostras de vinho que provei, mas em bruto, vindas das cubas de inox, dos tonéis, das barricas que são usadas, dos antigos lagares de cimento, ficou a ideia que temos aqui um conjunto de projectos que vão de encontro ao que Dirk pensa sobre o vinho, em que a elegância e a frescura parecem ser a linha mestra. Com muitas semelhanças, perdoem-me os entendidos na matéria, ao que é feito na vizinha Quinta de Baixo. Sendo, naturalmente, o desígnio mais recente de Dirk, iremos assistir com toda a naturalidade a afinações, a novas ideias, a novos vinhos (aquele Vinhas Velhas e Alfrocheiro). Mas o que importava mais, naquele momento, era calcorrear novamente cantos e recantos de um lugar que conheci muito bem. Digamos que é um lugar da História. Da minha.