quinta-feira, junho 21, 2018

A Mesa

Tive a sorte, no outro dia, de conseguir reproduzir em cima de uma mesa algo que é cada vez mais raro. Para mim. Não sendo a melhor cópia, foi o que foi possível no momento. 
Ter os melhores enchidos, sem o excesso de fumo (uma das razões porque nunca consegui habituar-me às versões sulistas), é quase uma quimera, para quem passa, como eu, grande parte da sua vida enfiado e amontoado nesta esquizofrénica linha litoral, entre Braga e Setúbal. Portugal Metropolitano, segundo consta. 

Queijeta, pão, chouriça, presunto e azeitonas. Feitos por mãos.
A treta é que tenho uma necessidade premente de comer com contexto. É uma forma de potenciar o meu prazer, torná-lo mais orgástico. Ter um contexto é fundamental, é imperioso. Preciso de sentir que o que mastigo está de acordo com o que está em redor. Principalmente se esse redor tiver a ver comigo.  E a esta mesa faltou-lhe esse redor. Estava desenquadrada.

quarta-feira, junho 13, 2018

Quinta de Camarate: O Rosé

As vantagens de escrever num computador é que permite poupar papel. É o lado ecológico da tecnologia. Se fosse de forma mais convencional, já tinha dado cabo de uma porrada de folhas, tal foram as tentativas frustradas para dar inicio à coisa de hoje. Não está fácil, como tal que se faça da maneira mais simples. Directo ao assunto.


Comprei o vinho na Casa da Baía, em Setúbal. Trata-se de um centro de promoção turística da região, situado num edifício do século XVIII, onde podemos adquirir produtos identificativos da região de Setúbal. Queijos, doçaria, vinhos. Espaço que aconselho vivamente visitar. Para beber um copo, para tomar café, para estar um pouco. 


E sem demorar mais tempo, tenho que vos dizer que me soube bastante bem o vinho que ilustra a publicação do dia. Apesar de possuir uma cor mais carregada que o habitual, que tende actualmente para o salmonado, mostrou ser um rosé de perfil seco, com razoável profundidade. Gostei do seu equilíbrio, da sua persistência, da forma como a fruta nos é oferecida. Sem exageros. Um vinho, pareceu-me, que alinha essencialmente pela elegância. Para além de estar bem porreiro, bebeu-se sem qualquer esforço. E prontos, basicamente era isto.

segunda-feira, junho 11, 2018

La Bruja de Rozas

Há uma porrada de tempo que não bebia os vinhos do Comando G. Um comando formando por Daniel Jimenez-Landi e Fernando Garcia. O G reporta-se a Garnacha. Os vinhos que saem das mãos desta dupla são desafiantes e meio loucos. Vindos de vinhas situadas a mil metros de altitude, na Serra de Gredos. É daqueles que nos abrem a cabeça e as pupilas gustativas, para outras cenas mais alternativas. Vinhos indicados, portanto, para quem quer sair do conforto do mesmo de sempre. 

Desculpem as nódoas na toalha, bem como a fraca apresentação da vianda.
Este Bruja é um mero entrada de gama do Comando, mas ainda assim mostra ser um vinho completo e provocador. Não sendo um simplório qualquer. Mostra-nos, também, que os catorze graus de álcool não interferem e não destroem o prazer. 
Um vinho bastante fresco, cheio de impressões vegetais. Repleto de fruta sumarenta, limpo de madeira e pouco concentrado na cor. Seco e refrescante na boca. Bebeu-se com profundo agradado e enorme satisfação, de tal forma que a garrafa se esvaiu num ápice. 

sábado, junho 09, 2018

E um Anthony Bourdain português?

Ainda na ressaca provocada pelo desaparecimento inusitado, ou não, de Anthony Bourdain, esta mona desembocou em meia dúzia reflexões. Simples e sem grandes articulados argumentativos, como é apanágio. 
Temos, por aqui em Portugal, algum aspirante a Anthony Bourdain que seja capaz de criar e manter uma verdadeira legião de fãs? De fãs devotos, em dimensão razoável? Com capacidade para fazer escola, criar uma industria com o seu nome. Capaz de rasgar com os ditames mais conservadores da nossa crítica gastronómica e de vinhos. Será que este desejo secreto é coisa que nunca irá acontecer, neste país que se comporta continuadamente de forma insossa e pequena, em que só vinga o gajo sem piada, certinho, formal e sem qualquer laivo de opinião? 

A verdadeira foto.
A gritante falta de humor, de provocação torna-se, na maioria dos casos, cansativo, monótono e desmotivante. Faz lembrar os sermões da professora do Charlie Brown. Lembram-se deles? Caramba, meus senhores, façam lá um esforço para acrescentar algo mais desafiante, mais picante, mais temperado e mais divertido. Não é preciso muito.

sexta-feira, junho 08, 2018

Salvé Anthony Bourdain!

Não sou gajo para idolatrar. Nunca tive ídolos. Minto. A minha mãe é o meu único ídolo. Não sou seguidor de ninguém. Quando morre alguém, mais ou menos famoso, passo ao lado do momento. Registo, apenas, o facto. 
Com Anthony Bourdain era diferente. A coisa aqui pia de maneira diferente. Gostava muito do gajo. Gostava dos programas dele. Ainda hoje vi um em que estava a comer e a beber vinho, enfiado numa adega, algures na Croácia. Mais uma vez, fiquei com dores de inveja. Delirava com as enormes orgias de comida e bebida, em que aparentemente se envolvia. Pura decadência. Desvairos alimentares e alcoólicos levados ao máximo. Digamos que ele era a versão moderna do clássico La Grand Bouffe


Anthony Bourdain, permitam-me, é o grande guru, o profeta, de todos aqueles que gostam de borgas, de farras desmedidas. Daquelas valentes pândegas, livres de irritantes etiquetas e salamaleques presunçosos, que tiram o apetite a um simples mortal. 
Merece que se construa um altar, pois todos aqueles que gostam de comer e beber de forma ávida, como  eu, merecem um lugar de culto. Um lugar onde comer e beber sejam os únicos dogmas. Em memória dele, que se viva, como se o mundo acabasse amanhã. Daqui, deste lado, saúdo-te. Salvé Bourdain! 

quarta-feira, junho 06, 2018

Voltei a 96

Como dizia o outro ainda sou do tempo em que combinar bacalhau com um belo tinto do Dão, maturado pela idade e amaciado pelo tempo, era dogma. De facto, durante anos e anos, respeitei a lei. Com o tempo, comecei a preferir acompanhar o fiel amigo com vinho branco, largando definitivamente o tinto.


  
Sem saber ao que ia, fui novamente convidado a emparelhar um tinto com o dito peixe, apresentado numa das formas mais clássicas. Assado nas brasas, com batata, bem regado com azeite e alho. E afianço-vos que todos os elementos jogaram na perfeição.


O bacalhau, o azeite, o alho e o vinho sincronizaram-se de forma exemplar. Gordura da comida e frescura do vinho. O tinto estava num perfeito estado de equilíbrio, profundamente refrescante. Por cada garfada, sucedia-se um valente trago. E tudo batia certo. Demasiado certo. Se há alturas em que não queremos recordar e nem regressar ao passado, há outras em que o fazemos com um sorriso nos lábios.

terça-feira, junho 05, 2018

O Pargo

E o pargo, meus amigos? E o pargo? Mulato ou legítimo? O primeiro mais modesto no preço e de acesso mais fácil. O segundo menos modesto, aparentemente mais requintado e nobre.



Tenho optado, nos últimos tempos, por peixes menos nobres, no que isto quererá dizer. Dentão, rascasso, cantaril, salongo, cavala. Vendidos a preços muito mais cordatos que os galácticos sargos, gorazes, chernes, garoupas, salmonetes (adoro), pregados ou linguados do mar. Até o popular peixe-espada branco começa a aproximar-se dos lugares cimeiros, no que respeita ao preço. No outro dia, reparei que estava a catorze euros o quilo.
Aprecio cada vez mais o pargo mulato, em detrimento daquele que é legítimo. Mais suculento, menos seco e menos neutro que o seu irmão vermelho. Depois a minha miudagem não enrola este peixe na boca. Não fazem aquelas bolas de proteína, que mastigam tempos a fio. Logo, os meus nervos agradecem.



Preferencialmente assado no forno, acolitado com poucos ingredientes. Bastante alho, duas a três ervas aromáticas. As que tiver no frigorífico ou no quintal. Tudo enfiado na barriga e nas guelras. Sal, azeite e muito vinho branco ou espumante. Aliás, uso cada vez mais o espumante, como substituto de vinho branco. Mas seja qual for a opção, despejo quase sempre meia garrafa. O Pêra Manca já teve essa honra.
Depois é assar durante o tempo necessário, apenas para cozer, sem deixar secar. É que não aprecio peixe muito cozinhado, seja nas brasas ou no forno. Basicamente, é controlar o tempo para que o sangue desapareça da carcaça e já está.

segunda-feira, junho 04, 2018

PioCesare Chardonnay

Comprei sem ter qualquer referência. Sem saber o que se dizia sobre o vinho. Sobre os tintos, posso dizer-vos que sou um adepto do produtor. Gosto muito deles. Só tenho pena que um simples tintinho, presumo de entrada, se amande para os vinte e tal euros. Mas prontos, sou gajo que gosta de coisas caras, mas que tem carteira de teso. 


Epá malta, gostei da porra do vinho (sendo que, estaremos perante um eventual gama de entrada). Um chardonnay muitíssimo fresco, cheio de nervo, carregado de tensão. Durinho. Com fortes sugestões vegetais. Longe daqueles registos madurões, pesados, moles e chochos. Numa linha presumivelmente mineral. 


Depois pareceu-me que o malandro vai, ainda, melhorar com o tempo. Vai ficar ainda melhor. Resumindo, dei por muito bem empregue os vinte e tal euros pela botelha. Com vinho. Sem vinho, acredito que seja mais bem acessível.