quinta-feira, novembro 22, 2018

O Guisado

O guisado é, para mim, das concepções culinárias que mais me apaixona. É daquelas que mais sabores apresenta e oferece. Aparentemente pode dar a ideia de que é qualquer coisa feita sem preceito ou regra, ao estilo tudo lá para dentro do tacho e esperar. Mas não é. Tudo o que se vai enfiando para o tacho tem que ter lógica. Os refogados, os caldos. As especiarias e as ervas aromáticas. A sequência dos ingredientes. Com carne, com peixe ou só com legumes. Gosto que os molhos fiquem espessos, pastosos. Quando ficam aguados, cheira-me a mão pouco cuidadosa e nada apaixonada. Irrito-me quando vejo alguém a usar a panela de pressão para guisar ou estufar. 


Gosto de cruzar sabores num guisado ou estufado. Ir desde os sabores mais terrosos, mais campestres até aos marítimos. A paleta de possibilidades é vasta. E gosto ainda mais no dia seguinte. A feijoada, o rancho são sintomáticos. Atingem uma complexidade de sabores imparável. 


E acima de tudo, os guisados ou estufados confortam-nos o corpo e a alma naqueles dias em que tudo correu mal. Amaciam aquela dor irritante que teima em não desaparecer.

quarta-feira, novembro 21, 2018

Santar Reserva

Não vos trago qualquer novidade. O que vos mostro tem muito pouco de social, de glamour. Trago-vos uma mão cheia de quase nada. 


Uma vez ou outra, lá surge pelas minhas ventas um vinho de outros tempos. Tempos em que a ingenuidade marcava, ainda, o ritmo da minha vida. Gostava muito deste vinho. Apesar de ser de um ano menor, segundo os especialistas, os entendidos, os estudiosos, era um vinho muito equilibrado, muito fino, profundamente clássico. Na altura que o comprei, pela primeira vez, sabia muito mais de vinho do que sei agora. Agora apenas procuro prazer, gozo e divertimento. E, como na altura, tive prazer. Novamente.

quinta-feira, novembro 15, 2018

Não me façam vinhos destes!

Mesmo que um gajo queira, não consegue dizer muito sobre este vinho. E as razões são muito simples. Desde o momento em que se abriu a porra da garrafa, mais a velocidade com que se bebeu o vinho, que era de tal ordem, não foi possível qualquer pausa, para reflexões mais ponderadas. É que, meus queridos amigos e desamigos, não havia tempo. 



O drama aumenta se tivermos ao pé outro gajo, que também não perde tempo em verter para o seu copo, o vinho. Fica-se com a sensação que estamos(estávamos) em competição, não declarada, em que o objectivo é(era), simplesmente, beber mais que o outro gajo, que está(va) ali à nossa frente. Por isso, não me façam vinhos destes. É que um gajo não pára de os beber. Principalmente se o(s) gajo(s) e o(s) vinho(s) forem gulosos.

quarta-feira, novembro 07, 2018

Fui às compras e aproveitei ...

Tal caçador fortuito, esperei que o vinho deixasse de ser vendido ao preço verdadeiro (ironia). Quando caiu a promoção dos setenta por cento, aproveitei e comprei. Comprei ao coberto de dois pressupostos muito simples: a possibilidade de ser profundamente surpreendido ou destinar o vinho para outras funções. Deste modo, as perdas não seriam significativas. Eram riscos calculados.
Não tecerei considerações sobre estes vinhos Premium, Signature, Vinhas Velhas exclusivos das cadeias de supermercados. Já muito se disse. Apenas queria saber se era possível obter algum prazer, alguma satisfação com um vinho destes e se voltaria a comprar. A minha escolha recaiu sobre este vinho branco, engarrafado pelo Monte da Ravasqueira. E sem tiques de elitismo presunçoso, direi que as minhas conclusões foram muito simples.


Não tenho qualquer pejo, em dizer que este vinho não vale os dezoito euros que custa (sem promoção). É um ultraje. Não vale, porque se olharmos para a parafernália de vinhos que existem no mercado e que custam entre quinze e vinte euros, logo perceberíamos que estamos perante um grande engodo. Basta pegarmos, por exemplo, no Esporão Reserva. Não dei, portanto, relevância às variáveis relacionadas com o estilo. Há estilos que não aprecio, mas que reconheço muita qualidade, cuidado e quejandos. Não é o caso. O vinho em causa está longe de tudo isto.


E com promoção? Vale os cinco e tal euros? Também não. Não vale, porque é possível encontrar, mesmo nas grandes cadeias de supermercados, vinhos, neste patamar de preço, muito mais interessantes, mais equilibrados, com mais estatura e que, por conseguinte, proporcionam mais prazer. A variável estilo foi, também, desprezada. Prefiro de longe, o Monte Velho que é mais barato. Ou um Evel. Ou um Pegões Colheita Seleccionada, em última análise. Existem inúmeras opções e que bebemos em ocasiões informais ou em ajuntamentos sociais, com (algum) agrado.
O vinho pareceu-me profundamente doce, cheio de sensações a madeira, com uma acidez que parecia ter sido metida lá, pouco natural. Pareceu-me qualquer coisa assim para o estranho, feita aos empurrões. Após uns tragos ponderados e reflexivos, optei por refrescar umas coxas de frango de aviário que estavam no forno. Guardei o resto que estava na garrafa, para outras situações de emergência.
Sei que é difícil vestir roupa que não é nossa, mas tentando colocar-me no lugar de um consumidor mais normalizado, após provar este vinho, diria que nunca mais voltaria a comprá-lo. Optaria, sem qualquer margem para dúvida, pelos clássicos.

sábado, novembro 03, 2018

Gozo Explícito

Há coisas que não valem a pena explicar. Nem estar com grandes teses argumentativas. Que cada um faça o que quiser, com quem quiser, na posição que achar melhor. Vicissitudes da vida.



Sempre achei muita graça a este vinho. Acho-o bem porreiro, bem balanceado e equilibrado. Com um bom nível de frescura e nervo. Em tempos, dizia que estes vinhos eram simbióticos, transversais, mas sem perderem identidade. Rótulo bem curtido. Basicamente, é um vinho que me dá muito gozo. Assim, de uma forma explícita.