segunda-feira, dezembro 10, 2018

Sem Glória mas ...

Quando falamos de vinho, ou melhor quando mostramos rótulos ou garrafas alinhadas, esquecemos o essencial. Começo a sentir que tudo não passa de fogachos. Intensos no inicio, mas sem combustível para durar. Alinhamos as nossas pretensas amizades, pelo que nos podem oferecer em troca. Se tem muito valor ou não. Procuramos, sem excepção, impressionar o próximo. Acredito que, na maior parte das vezes, não tiramos prazer verdadeiro do chorrilho de garrafas que abrimos e do vinho que estragamos. Bebemos um trago e passamos logo para outra garrafa. Mas tem que ser algo que valha a pena.


Comprei no outro dia uma garrafa de um vinho que costumava beber amiúde, no passado. Bebia-o com prazer e enorme satisfação. Devo dizer-vos que senti vergonha interna ao estender o braço para alcançar a prateleira mais baixa do supermercado. Os vinhos que estão ao nível do chão situam-se, para a malta como nós, ao nível da zurrapa. São desprezíveis. 


Almoço de domingo. Comida de tacho, iniciada e preparada logo pela manhã. Bem cedo. Sem pressas e sem panelas de pressão. Feijão demolhado, couve lombarda, cenoura, barriga de porco, entrecosto, chouriços. Uma de carne e uma moira. A objectivo era recriar sabores e cheiros que se estão a esfumaçar perigosamente. As terras do sul e a distância estão a matar-me.


Enchi o prato, meti o vinho no copo. Timidamente meti as beiças, após a primeira garfada. Fiquei siderado. Como foi possível ter-me esquecido do que é fundamental? A diversão de estar à mesa e a beleza da simplicidade, do descomprometimento. O vinho, vejam lá, que parecia ter desconfiado das minhas desconfianças, alinhou com a vianda que tinha sido preparada. Singelo, de fácil interpretação, fazendo relembrar para que serve. Para parelhar com a comida e desembuchar. Apesar do momento não ter a glória ou glamour de outras ocasiões, que replicamos nas varandas do século XXI (redes sociais), possuía muito mais conteúdo e dimensão. 

quinta-feira, dezembro 06, 2018

Respeito pelo Nabo...

Nunca entendi a expressão não sejas nabo, planta crucífera, quando tem, para mim, uma enorme importância. Ainda para mais, o nabo é utilizado nas mais diversas combinações gastronómicas. Se é assim, colocar o nabo no patamar da idiotice ou de algo que é desprezível é inconcebível.


Adoro nabo. Gosto dele nas mais diversas formas. No Cozido à Portuguesa. Cozido que não tenha nabo, fica coxo. Não está completo. O nabo parelha bem com os enchidos, com o chispe, com a barriga de porco cozida. Com bacalhau. Com pescada ou outro peixe cozido. 
Uso o nabo quando estufo carne. Enriquece o molho e o caldo. Dá-lhe aquele toque terroso, tornando a coisa mais complexa. A lebre e o coelho ou o javali precisam de estar com o nabo. Muito. Gosto de nabo ralado, nas saladas.


É incompreensível se compare o nabo a alguém que não tem habilidade ou inteligência. O nabo, ou melhor o Nabo, merece o maior respeito, de todos nós. Por isso, se vos tratarem por Nabo, fiquem orgulhosos.

quarta-feira, dezembro 05, 2018

Infelizmente não há muito para dizer ...

Não é a primeira vez que me acontece algo semelhante. Quando acontece, não há nada a fazer. É assumir. Pronto.


É provavelmente o melhor encruzado, da era moderna, feito na Quinta da Falorca. Não contam para a equação os mais antigos. São outra estória, como por exemplo o dois mil e dez.


Este dois mil e dezassete está bem porreiro. Muito mesmo. Fresco, com volume e com intensidade. A dar sinais que vai certamente melhorar (ainda mais) no futuro. Tornar-se em algo mais profundo, adulto e sério. Ah! E a garrafita foi esvaziada em três tempos. Era só, por agora.

segunda-feira, dezembro 03, 2018

Uma pequena história ...

Vou contar-vos uma pequena história. Muitos de nós, os armados em especialistas de vão de escadas, já se esqueceram do que bebíamos no passado e que gostávamos bastante. Na verdade, escondemos esses tempos. Somos, agora, todos bebedores de vinhos frescos, elegantes, finos e tão complexos que só nós os entendemos. Depois atiramos pedras a quem não pensa assim, como nós. 


No sábado passado, dia da defenestração, pequei num vinho, apenas por uma razão. Metade do meu código genético é orgulhosamente do Douro Superior. E o nome do vinho apelava a esse registo. Creio até que as uvas ou as vinhas que dão origem ao vinho, são (ou eram) daquela parte do Douro. Mas adiante. E preço à parte, paguei por ele catorze euros e tal, as expectativas eram nenhumas. 


Posso dizer-vos, sem qualquer vergonha ou medo, que fiquei francamente surpreendido. Corpo, intensidade, equilibro, sabor, frescura e secura. E com uma boa dose de elegância. Tudo bem esgalhado e bem mexido. E para quem ainda se lembra, fez-me recordar ipsis verbis o saudoso Castelo D'Alba Vinhas Velhas 2003, quando era um vinho sério e às direitas. Feito (não sei se ainda o é) com uvas de vinhas muito velhas de Freixo de Espada à Cinta. Não sei se foi resultado de uma memória, cada vez mais caduca e degradada, mas este Terras do Grifo soube-me pela vida. E isto é que importa.