terça-feira, Abril 25, 2006

2000, 2001, 2003 revistos...

No passado dia 7 de Fevereiro de 2006, decorreu uma prova, mais uma, no Restaurante à Volta de Vinho, em S. Bento. O tema de inspiração para a prova era, desta vez, mais alargado, possibilitando aos provadores um maior leque nas suas escolhas. A única condição era que as pingas deviam ser originárias das colheitas 2000, 2001 e 2003, que supostamente são ou foram os melhores anos, até ao momento. Tudo o resto era livre. Estiveram presentes nesta prova, Francisco Barão da Cunha, Oliveira Azevedo, Paula Costa, João Quintela, Jorge Sousa e Rui Miguel.
O serviço dos vinhos decorreu como o habitual, nas provas cegas. Vinhos decantados por outrém, decantadores numerados, temperatura de serviço correcta, isto é entre os 16º/18º. Copos apropriados e tudo mais o resto...

As lides começaram com a degustação de um IceWine Cosecha Presidente, Casa Alvarado, da Costa Rica. Este vinho foi disponibilizado pelo Oliveira Azevedo, que numa das suas viagens adquiriu este exemplar. Deu para animar a conversa e mostrar ao presentes que o vinho não tem fronteiras, principalmente se olharmos para as condições metereológicas de um país como a Costa Rica. Mostrou aromas típicos deste tipo de vinhos, boca docinha mas com boa acidez. Correcta, mas nada de transcendente. Foi um bom companheiro para os dois dedos de conversa que houve nesse momento.
Terminado a prova didáctica de um IceWine das Caraíbas virámos para os tintos que aguardavam nos decantadores. Os comentários aos vinhos têm por base o que os presentes disseram, se bem que existe uma componente pessoal no tratamento dos registos. Sendo, portanto, da minha responsabilidade. Relativamente aos vinhos, que estiveram em prova, ficaram com o seguinte escalonamento:

1º Lugar: Chryseia 2003, 14,5%. Douro.
Impacto inicial de café, chocolate e baunilhas. Num perfil aromático algo sensual. Fruta preta aliada a compotas. Impressões de algumas especiarias. Na boca entrava gordo, com taninos presentes, mas muito suaves. A acidez andava no fio da navalha, proporcionando uma frescura algo ténue. Não perderia nada se estivésse mais alta. Final médio, deixando uma memória a fruta e chocolate. Um vinho que se mostrou já muito afinado, apelativo e muito guloso, mas algo monocórdico, sem grandes evoluções do ponto de vista aromático e gustativo.
Nota do Grupo: 17
Nota Pessoal: 16


2º Lugar: Kolheita 2001, 14,5%. Douro.
Um vinho um pouco à semelhança do Chryseia, mas com algumas nuances que lhe davam um carácter diferente. Impacto inicial de cerejas. O surgimento de alguns couros aliados a uma componente balsâmica e mineral que enriqueciam o conjunto. Bom envolvimento e profundade. Com o aumento da temperatura e tempo de abertura surgiram notas de café. Preenchia a boca, não deixando nada tapado. Taninos finos, bem envolvidos pelo corpo. Acidez estava colocada um pouco mais alta que no Chryseia o que lhe conferia mais vivacidade. Envolvente e com final de boa memória. Este vinho teve uma boa evolução, os anos de garrafa, deram-lhe mais equilibrio. As minhas foram bebidas antes do tempo...
Nota do Grupo:16,33
Nota Pessoal: 16,5

3º Lugar: Quinta dos Roques Garrafeira 2000, 13,5%. Dão.
Um vinho que fugiu ao perfil dos dois primeiros. Mais fresco, menos chocolate e menos fruta madura. Por aqui, deambulavam aromas silvestres, terra húmida, bagas. Existia nele um perfumado distinto que cativava as narinas. Na boca estava alinhado com a componente aromática. Taninos inicialmente vivos que conferiam alguma secura às gengivas. Fresco e elegante, se bem que foi morrendo ou desaparecendo ao longo do jantar. Houve até quem dissesse que ainda estava em construção. Foi um dos vinhos mais controversos da noite. Uma boa evolução...e acima de tudo diferente!
Nota do Grupo:15,75
Nota Pessoal: 16

4º Lugar: Quinta da Pellada Tinta Roriz Estágio Prolongado 2000, 13%. Dão.
Impacto inicial muito perfurmado, mas algo enjoativo e directo. Impressões de Alfazema, flor de larangeira e fruta vermelha. Necessitou de um compasso de espera para ver o que ainda daria. Surgiram então algumas pitadas de folhas secas, lembrando saquinhos de chá de tília. Pouco mais ofereceu. Na boca existia correspondência com os aromas sentidos pelas narinas. Presença de uma acidez viva, que permitia uma frescura interessante. Os taninos ainda davam sinal de vida, mas estavam um pouco soltos na boca. Alguma magreza no corpo. Final curto e com pouca memória. Um vinho que desiludiu um pouco. Alguns dos presentes já o tinham provado várias vezes e com melhores resultados!
Nota do Grupo:15,42
Nota Pessoal: 15

5º Lugar: Utopia 2003, 14%. Beiras.
Um vinho que se mostrou discreto, com aromas inicais algo estranhos, muito incaracteristicos e de pouca empatia. O que se descortina, apesar de tudo, era o seu elevado peso vegetal. Algumas evoluções para a caruma e casca de pinheiro. Na boca, tal como no nariz, começou algo estranho, agressivo, com a acidez elevada. Rugoso na boca. Ganhou um pouco com os secretos de porco preto e com o queijo. Mas para o nome devia valer muito mais. Mostrou uma prestação muito baixa. Para beber daqui a muitos anos...Afinal de contas veio da Baiirada!
Nota do Grupo:14,25
Nota Pessoal: 14,5

6º Lugar: Brunheda Reserva 2001, 13%. Douro.
Finalmente o último! Um vinho que tresandava a sobrematuração. Sem vivacidade, super enjoativo, nada complexo e sem ponta de graça. Mesmo colocando o copo longe do nariz, sentiam-se bastante bem as incomodativas notas de figos e ameixas, bem como sujestões de licor ou aniz! Muito enjoativo. Na boca o seu comportamento era fiel ao que nos tinha dito o nariz. Para quê tanto exagero? Será que o produtor estava a pensar num vinho do Porto?
Nota do Grupo:13,16
Nota Pessoal: 13

Na vertente da faca e do garfo, começamos com um requeijão que se mostrou correcto, mas sem deslumbrar, pessoalmente já comi muito melhor. Seguiu-se uns cogumelos frescos assados nos forno. Temperados com um fio de azeite e sal e aromatizados com um pouco de coentros. Uma proposta interessante que, na minha opinião, ganharia muito se no final levasse um pouco de flor de sal, em vez do sal normal. Como prato principal comemos uns secretos de porco preto, acompanhados por umas batatinhas fritas, cortadas em rodelas e uns grelos salteados. Tudo muito saboroso, sem confusão de sabores e aromas. Para não perder a pedalada, provámos, aliás comemos literalmente um queijo da Gardunha, de meia cura, que só estava fenomenal! Pessoalmente, há muito que não trincava um queijo tão bom, com tão elevada qualidade. Finalmente e já com as barriguinhas bem compostas, um pão de ló para servir de acompanhamento a um Moscatel, que nos foi servido em prova cega. O pão de ló estava bem feito, agora o Moscatel nem tanto! Quando o rótulo saltou cá para fora, a desilusão ainda foi maior! Abriram-se as bocas de todos os presentes. De todos, excepto de quem o trouxe...que já sabia o que levava! Tratava-se de uma novidade da Casa Ermelinda Freitas e da responsabilidade enológica de Jaime Quendera, o Moscatel Superior Dona Ermelinda 2000. Carregado na cor. De aromas e sabores simples, pendor algo enjoativo e com pouca frescura. Segundo o que diz o contra-rótulo, esteve durante cinco anos em cascos de carvalho francês. Uma última palavra para o preço estupidamente alto a que vai ser vendido. Existem no mercado propostas muito mais interessantes que este “Moscatel Superior”.

2 comentários:

Anónimo disse...

Estimado bloger as suas considerações sobre o Brunheda Reserva fazem-me pensar que afinal o vinho sera um grande vinho, senão vejamos, as notas de fruta madura, as sugestões licorosas, são aromas fortes e próprios de um bom vinho. Se isso é enjoativo então quais as características dos grandes vinhos?

Pingus Vinicus disse...

Caro amigo, não sei se um dia irá ler a minha resposta. Mas devo-lhe dizer que pessoalmente não sou adepto da fruta doce. Provavelmente será défice meu. Depois nomear este ou aquele como "grande vinho" está coberto de subjectividade.

Resumindo o Brunheda nunca foi um vinho que gostasse efectivamente (repare que uso o termo: gostar)