sexta-feira, fevereiro 15, 2019

Inequívocamente Druida

Assumir o que gostamos ou não gostamos, de forma descomprometida, é um estado que devemos viver na plenitude. E usufruir dele, sem qualquer constrangimento. O resto, como se costuma dizer, são amendoins. Nunca ninguém agradou a toda a gente. Desconfie-se de quem tenta agradar. 


Gosto profundamente deste vinho. Gosto desde a primeira hora. Desde o primeiro momento. Simpatizei com ele. Gosto do prazer que me proporciona. Sim, do prazer. É o prazer, o desfrute que me importa.


Este dois mil e doze, pareceu-me ainda longe do definhamento. Distante. Está fresco, está profundamente elegante. Está cheio de finura. Está, ainda, melhor agora do que quando era mais novo. 

terça-feira, fevereiro 12, 2019

Simplesmente Vinho

Aviso, desde já, que nunca fui, com pena, a qualquer Simplesmente Vinho. Já agora o que é o Simplesmente Vinho? De forma simples e grosseira, diria que este evento pretende ou pretendia ser um encontro alternativo, com produtores alinhados pelo mesmo diapasão. O da pouca intervenção, dos actos mininalistas na feitura do vinho. Com o objectivo de criarem vinhos sinceros. Quer dizer, então, que há vinhos aldrabões. É, segundo os criadores da coisa, um salão off, independente e alternativo. 


Com o desenrolar dos anos, vou reparando que vão surgindo produtores que são, digamos, meio inusitados. Que não estaria à espera que fossem aceites neste círculo restrito de produtores. Inusitados, porque não estaria à espera que pudessem cumprir os pressupostos deste salão off. Das duas uma. Ou há muito produtor que passou a fazer vinhos sinceros ou então o Simplesmente Vinho caminha perigosamente para se tornar num evento cada vez menos alternativo, cada vez menos independente e cada vez mais perto do mainstream. Fica a minha dúvida. 

segunda-feira, fevereiro 11, 2019

Trois Fernão Pires

Trois é um projecto que nasceu a partir de uma joint venture entre três enólogos. Basicamente e para encurtar a história, são três enólogos (Filipe Cardoso, José Nuno Caninhas e Luís Camacho Simões) que desenvolvem o seu trabalho na região de Setúbal, que se juntaram para criar algo que fosse, digamos, distinto para a região. E pela amostra, diria que o conseguiram. Trois dá, também, o nome a um tinto e a um moscatel roxo. Temos, então, três enólogos e três vinhos.


Epá malta, fiquei profundamente agradado, muito surpreendido com o este Trois Fernão Pires Curtimenta (custou-me trinta euros). Um vinho bastante sério, muito masculino, por vezes carrancudo e duro. Com tanino. Que, perdoem-me a soberba pessoal, parece ter sido feito para durar anos a fio. Para mostrar que a região, conhecida pelos seus vinhos de fácil empatia, consegue criar algo com muito carácter e singular. Está, portanto, nos antípodas do que conhecemos (conheço), na generalidade, em Setúbal. Como consumidor, permitam-me que diga que fiquei convencido. De forma inequívoca.

quinta-feira, fevereiro 07, 2019

Quinta da Vegia: Solo Franco

Nem todos conseguem atingir a plenitude da simplicidade. Muitas vezes confunde-se a simplicidade com o ser simplório. São conceitos completamente diferentes. A simplicidade pressupõe um elevado estado de equilíbrio, de candura, de singeleza. Ao contrário de simplório que nos leva para a tontaria, para a papalvice.



Este vinho apaixona-nos pela sua simplicidade. Pela alegria que deposita no copo. Faz-nos companhia, deixa-nos bem disposto. E isto, meus caros, é de enaltecer.

segunda-feira, fevereiro 04, 2019

As iscas

As iscas, como vulgarmente chamamos ao bifes de fígado de porco ou de vaca, são daquelas coisas que se gosta ou se odeia. Demorei a gostar delas. Demorei anos a apreciá-las. Nem nos tempos em que a minha mãe era a dona do tacho e da panela, fui um grande apreciador.
Resultado da progressão da idade, dou comigo a atribuir um valor enorme a umas boas iscas. Quase a bater os cinquenta anos, digo-vos que é uns dos meus pratos de antologia, do momento.



Apesar da sua aparente simplicidade, há muita coisa que pode decidir se preferimos desta ou daquela maneira. Mas uma coisa é certa. A isca não pode estar muito cozinhada. Tem que ficar bem rosada por dentro. Isto é inegociável. Sem a rosácea interna, torna-se em algo seco, desinteressante, meio aborrachado.
Precisam de alho. Muito e bem picado. Depois limão ou vinagre ou vinho branco ou tinto. Louro. E pouco mais. Talvez um pouco de pimenta branca. Prefiro, as iscas, para além do alho e louro, com umas gotas de vinagre balsâmico e vinho branco. Ficam pujantes e levemente adocicadas.



Têm, as iscas, que estar sempre aparelhadas com uma boa cebolada, indispensável para mim, batatas cozidas e umas belas couves, também cozidas. Mas daquelas que têm talos que se podem comer. O vinho? Sempre com um rosé daqueles mais potentes, com uma valente acidez. Com corpo.

domingo, fevereiro 03, 2019

Quinta dos Roques Encruzado

Falar deste vinho é repetir a mesma nota musical. A mesma ladainha. Este vinho branco é incontornável, para conhecermos melhor o Dão e este produtor. Foi, apraz dizer, dos pioneiros na região a apostar no engarrafamento estreme da casta encruzado. Além do mais, é um verdadeiro porta-estandarte da região.



Ao longo das colheitas, a presença da madeira tem vindo a diminuir, alinhando pelas tendências actuais. Tem, por isso, cada vez mais frescura, mais limpidez. Mantém o carácter e a personalidade que sempre possuiu. Depois, ganha, e bastante, com o tempo. O tempo, se tivermos tempo, só vai ajudar a catapultá-lo para outras dimensões. Se não tiver tempo, beba-o já.

sexta-feira, fevereiro 01, 2019

Uma boa notícia! (Epílogo)

Vou dar-vos uma boa notícia, porque meus caros amigos e desamigos, nem tudo, o que vem de mim, é mau. Depois de pensado, ponderado e analisado, tomei a decisão de cortar as correntes que ligavam o Pingas no Copo ao facebook, por um longo período. Será, digamos, um retiro espiritual. Um período de nojo.
Na realidade, para muitos de vós, deixará de existir. É a versão actual do provérbio: longe da vista, longe do coração. É, também, a minha contribuição para a despoluição do meio.


Agora olhamos, apenas, para a foto da coisa e seguimos em frente. Se gostarmos do gajo ou da coisa, ainda metemos like. Além do mais, apesar de ter experimentado, nunca fui um tipo com muito jeito para andar a partilhar em mil e um grupos facebookianos as asneiradas que ia dizendo. Dá ares de spam.
O Pingas no Copo irá continuar a sua viagem. Na dimensão em que nasceu. São 13 anos. Irei juntar-me ao meu estimado amigo Enófilo Militante, a quem devo muito no mundo dos vinhos, que solitariamente resistiu às tentações das partilhas facebookianas. Aos interessados, basta ir ao google e escrever: Pingas no Copo. Depois logo se verá.

terça-feira, janeiro 29, 2019

Devia ter tido Juízo (Parte II)

Colocado numa posição distante, afastada do olho do furacão, percebo que me meti em confusões a mais. Confusões que só deram me chatices (apesar de muita satisfação) e azia.
Pegando na expressão, já tenho idade para ter juízo, constato que só perdi mais cabelos, dos poucos que já tinha. Tudo ficou igual, nada se alterou. A vida continuou imutável, com os mesmos vícios, esquemas e comportamentos.


Dizer o que se pensa, independentemente se temos muita, pouco ou nenhuma razão, acarreta um preço enorme. Chateamo-nos, irritamo-nos, desgastamo-nos. A esta distância, não opinaria sobre (quase) nada. Pensava que era ainda jovem, quando já não o era. Devia era ter tido, mas era, juízo.

segunda-feira, janeiro 28, 2019

Devia ter Juízo (Parte I)

Começo a ter idade para ter juízo. Para pensar e perceber que não se deve andar atrás de ninguém, só para ter um grupo, uma equipa ou comunidade. Fazer como os outros fazem, só para dizer que se é igual ou que se comunga das mesmas ideias. Pura estupidez. Um tipo fica despido de personalidade.


Nunca peguei neste vinho por preconceito. Por não ser daqueles que fica bem mostrar. Não tem glamour facebookiano. Pura estupidez. É um vinho branco do caraças. Um vinho branco que me deu um enorme prazer, por tudo e mais alguma coisa. Fresco, limpo, cheiro de nervo, intenso. Guloso, escorreito. Surpreendente.


Além do mais, já me tinha esquecido que sempre gostei dos vinhos de João Brito e Cunha. Posto isto, reitero o que disse lá em cima. Já devia ter juízo e não andar atrás, sempre, do último grito, da última novidade, da coisa mais exclusiva, esotérica e feita da maneira mais estranha possível.

quinta-feira, janeiro 24, 2019

Chamem as coisas pelos nomes...

Chamem as coisas pelos nomes verdadeiros. Por favor. Usem outros nomes, arranjem outras denominações. O ridículo está a tomar níveis insustentáveis. 
Não há alheiras de tofu! Não há alheiras de peru. Não há alheiras de courgette. Não há farinheiras ou farinheiros de milho, nem de maçã. Dêem-lhe outro nome.  
Não há chouriços de tofu, nem de feijão ou grão. Se não há chouriços, também não há chouriças. Outra coisa, não há morcelas de beterraba e por conseguinte não há serrabulho de beterraba. E nem cabidela. Não há. É simples. Vá, ainda tolero uma feijoada feita só com vegetais


Também me custa ver salsichas de aveia ou de tofu. Tofu, o omnipresente. Ah! Já me esquecia. Também existe a soja. Tofu e Soja. E nem me lembrei do Seitan. Um trio cheio de sabor, complexidade e profundidade, que serve para tudo. Chouriços, alheiras, morcelas, salsichas, hambúrgueres, lasanhas, pão e quejandos.  A lista de bastardizações do nosso receituário é extensíssima. Malta da vida saudável, equilibrada, recta e correcta, moderem lá a vossa imaginação, por favor. 

segunda-feira, janeiro 21, 2019

MOB: Vinha SENNA

Há muito tempo que não bebia um vinho feito pelo trio duriense MOB, na região do Dão. Não bebia, porque apesar de irrepreensivelmente bem feitos, parecia-me que lhes faltava qualquer coisa. Deixaram-me de tocar no coração. Manias minhas. Depois, a voracidade das novidades, das modas ajudaram ao afastamento. Um pouco como nas relações entre as pessoas. Tudo muito volátil e intenso, mas de curta duração. 


Com este Vinha SENNA, devo dizer-vos que a coisa mudou de figura. Fiquei profundamente agradado com este branco da Serra da Estrela. Muitíssimo fino e focado, com carácter vincado, cristalino e identitário da região. Muito coerente. Complexo nos cheiros e nos sabores. 


Rematando a coisa de hoje, não quero encher isto com mais palavras de nada, digo-vos, sem qualquer se, que foi uma das melhores surpresas de dois mil e dezoito.

quarta-feira, janeiro 16, 2019

Ponte das Canas por Mouchão

Bebi-o ontem. Ou melhor bebi uns tragos, enquanto fazia o jantar, jantava e após. Coisas de pequena dimensão e volume. Raramente bebo vinho tinto, quando estou sozinho. Quando o faço, confesso, o eventual prazer está amputado de companhia. Não faz sentido estar rodeado de nada, a beber um copo de vinho tinto. Chateio-me, aborreço-me, bocejo. Canso-me.


Há muito que não bebia um vinho alentejano, há muito que não bebia um vinho da Adega do Mouchão.


E nos momentos que estive com ele, e apesar de castrado de companhia, desfrutei da sua força, do poder da sua fruta, da profundidade do seu corpo. Curti a sua férrea juventude. Satisfeito, rolhei novamente a garrafa. Hoje, à noite, voltarei a ele, para mais uns tragos, para mais uns momentos.