quarta-feira, julho 19, 2006

Encerrando para Férias

Não é todos os dias que nos sentamos à mesa e regamos o nosso repasto com alguns dos melhores vinhos do país, idealizados, concebidos por um dos produtores que eu mais aprecio. Em jeito de encerramento do ano lectivo, eu e alguns colegas meus, juntámos-nos para um valente jantar. Beber um bom vinho, fumar um bom charuto e depois regressar a casa com a sensação de dever cumprido, ou não! Tal como um velho guerreiro. Outras batalhas irão surgir. Mas adiante que vos quero falar de dois vinhos que bebi nessa noite. Dois vinhos tintos que são produzidos por Dirk Niepoort. Mostram carácter, personalidade e um objectivo bem definido. A vontade para conceber melhor, com diferença, com consistência. Que fiquem registados na memória de cada um de nós. Na minha, na vossa.
Não me quero perder com grandes considerações, porque todas as palavras que possa encontrar, bem como os adjectivos que possa mencionar acabariam por se tornarem em lugares comuns, a roçar a bajulação, o rídiculo. Falemos dos vinhos.

Redoma 2000
A sua apresentação mostrou que estavamos perante um líquido personalizado. Construído para aguentar alguns anos. Revelou capacidades olfactivas e gustativas de grande qualidade.
Um conjunto de aromas muito frescos, com notas balsâmicas bastante agradáveis, misturadas com toques de terra, de musgo, fetos e frutos silvestres ainda no mato, sem se sentir aquele toque enjoativo que caracteriza muitos tintos do Douro. Tabacos, charutos. Qualquer coisa deste género.
A boca era viva, também muito fresca, sentindo-se mentolados, o lado silvestre e a fruta. Taninos presentes, mas cobertos pelo corpo, a dizerem-me que ainda vai durar. Denso, mas ser bruto. Bom final, deixando um rasto saboroso e de boa memória. Este Redoma surpreende-me cada vez mais. Cada vez que me cai no copo (e já lá vão algumas vezes), noto que tem vindo sempre a aumentar os níveis de complexidade, abandonando alguma da sua rústicidade inicial. Parecia que combinava quase na perfeição a elegância, a complexidade com a robustez. É obra. Pareceu-me estar a entrar numa saudável fase de acalmia, mais fácil de domar.
Nota Pessoal: 17,5

Redoma 2001
Inicialmente não consegui entender muito bem o que saltava do copo. Percebi que necessitava de alguma (muita) concentração para decifrar o vinho. Abstrai-me, por alguns momentos, das típicas conversas que os meus colegas costumam ter. Assuntos de trabalho...
Tive que acordá-lo lentamente. Começou a bocejar, a espreguiçar-se. Lá dentro, saltaram directamente aromas de fruta muito fresca, bem vermelha (acho eu). Como se não bastasse, apareceram toques de inspiração silvestres, que enobreciam este conjunto. Fez-me viajar, mais uma vez, para as margens do Douro. Para a esteva, o xisto, para a terra revolvida, todo aquele perfume que percorre as encostas. De difícil definição. São registos muito pessoais.
A madeira, libertava aromas de grão de café e chocolate preto. Tudo bem misturado, colocado ao milimetro, sem desvios.
Na boca, era denso, com taninos bem vincados, robustos. Um ataque interessante. Enchia por completo toda a minha boca. Sentia-se chocolate amargo, café e fruta. Muito fresco, por causa de uma acidez colocada de forma correcta. Um final longo, deixando na boca um rasto muito agradável. Está mais arisco, mais irrequieto que o seu irmão de 2000, mas mesmo assim, um belo vinho que merece ser bebido. Não acham?
Nota Pessoal: 17,5
Um comentário final. Vinhos destes, por muito que se diga, fica ainda muito mais por dizer. Uma coisa é certa, estão aí para durar, para nos fazer ainda mais felizes.
Post Scriptum. Dou a mesma nota aos dois vinhos, porque eles foram provados num jantar de colegas, num ambiente muito descontraído. Apesar de terem tido comportamentos um pouco diferentes. Achei por bem atribuir-lhe a mesma classificação. Evito, desta forma, problemas familiares.
Uma palavra para a noite e para o significado que ela teve. Começo a reparar que tenho colegas que estão a apaixonar-se pelo mundo dos vinhos e tudo o que o rodeia. Já não estou tão sozinho. É muito duro ser considerado um excêntrico, um maníaco, um louco que só bebe em determinados copos, que tem a mania das temperaturas e nunca bebe o vinho da casa. Apesar de ser apaixonado por uma valente Pinga, ela tem que ser boa.
Posto isto, vou de férias. Primeiro irei até à costa alentejana, depois passarei pela terra. A velha terra. É lá que está a minha essência. Espero ansiosamente que os incêndios não destruam o pouco que existe. Até lá, deixo-vos a chave da minha casa, do meu blog. Tomem conta dele.

4 comentários:

Karen disse...

Boas férias para vocês!

Nuno de Oliveira Garcia disse...

Vim agora da costa alentejana. Nas comidas recomendo O Migas (Sines), O Refúgio do Mirante (Santiago do Cacém) e O Marques (Porto Covo). Quanto aos vinhos... sabes tanto quanto eu!

Pingus Vinicus disse...

Nuno, estou em Mil Fontes. Passei por um Cyber Café para ler as notícias e olhar para o que se passa na net. Dos que referes só não conheço o Refúgio do Mirante em Santiago.

Agora vou para os banhos

Copo de 3 disse...

VICIADO... nem na praia lol

Boas provas e que sejam frescas.