segunda-feira, julho 03, 2006

Uma tarefa difícil

O que irei escrever, descrever ou partilhar com todos vós, representa certamente um dos maiores desafios, desde que me tornei num apaixonado pelo vinho. Tenho feito várias tentativas para colocar no papel, ou melhor no computador (tenho que ir na onda do choque tecnológico), um pequeno texto que consiga espelhar na perfeição tudo o que senti na noite de 27 de Junho de 2006. Mas a demanda não tem sido fácil. Escrevia, apagava. Voltava a escrever, voltava a apagar. Enfim, muita insegurança, muito receio.
Perceberão nas minhas palavras as diversas hesitações que tive, na interpretação de três magníficas peças enófilas. Quadros quase perfeitos. Constatei o nível de ignorância que ainda tenho. Ando a brincar com assuntos sérios, levado por uma embriaguez que, em muitos momentos, me faz cegar, não deixando ver o essencial.
Falemos dos vinhos que bebi, mais uma vez com o Pedro, o Fernando e o Jorge. Continuámos em Alcochete (a terra que me adoptou). Escolhemos desta vez o restaurante Arrastão, que é conhecido pelo seu extraordinário bacalhau e peixe fresquíssimo, bem como pela simplicidade das carnes grelhadas, sempre no ponto ideal. Fomos muito bem recebidos. Disponibilizaram-nos uma sala reservada, climatizada, longe dos cheiros que saltavam dos grelhadores. Os vinhos foram decantados e servidos rigorosamente à temperatura correcta.
Peter Lehaman Stonewell Shyraz 1995. Com 13,5% de graduação alcoólica.
Já tinha tido contacto com este vinho australiano, se não estou em erro, através as colheitas de 1996 e 1998. Bebi o meu primeiro Peter na pequena cidade de Martigny, na Suíça. A empatia foi imediata. A vontade de voltar a bebê-lo era, portanto, enorme. Nada melhor que fazê-lo junto de alguns amigos.
Todo o seu comportamento foi repleto de sensualidade e provocação. Aromas iniciais muito docinhos, mas sem entrar em exageros. Sugestões que me faziam lembrar caixa de rebuçados. Alguma madeira envernizada. A presença de um lado mineral e balsâmico proporcionava frescura e aumentava a complexidade. A fruta, essa era preta, que vinha no cesto juntamente com uma "garrafa de anis". Caril? Cravinho? Pimenta? Que me perdoem, pois não consegui descortinar concretamente qual delas estava a aquecer o ambiente. Estaria a minha lucidez toldada por causa de tanta beleza? Deu-me a entender que tudo era permitido, que a imaginação não devia ter limites. Tostados, caramelo e baunilha de enorme qualidade.
Na boca, tal como no nariz, sensual e provocatório. Longo, envolvente e super guloso. Mas sempre num registo equilibrado e aprumado. Foi o meu eleito, foi aquele que percebi melhor (julguei eu. Pobre alma!). Muito diferente. Não consigo encontrar no nosso portefólio nacional um vinho que tenha o mesmo registo que este australiano. Nota Pessoal: 18,5
Quinta do Monte D'Oiro Homenagem António Carqueijeiro Syrah 1999, com 13% de graduação alcoólica.
Uma homenagem concebida por José Bento dos Santos. Um vinho badalado e desejado. Ganhou um famoso duelo ibérico.
Um vinho mais contido, mas não menos interessante. Cavalheiro, discreto, personalizado. Este vinho foi o que mais luta me deu. Aquele que mais questões me colocou. Aquele que me fez questionar sobre muita coisa. Muito perfumado, silvestre e floral. Presença de nuances de flor de laranjeira, juntamente com alguma casca da mesma fruta (que me perdoem estes atrevimentos). Notei algo parecido a figos, ou frutos secos envolvidos em açúcar em pó.
Fruta era banhada por um caldo mineral refrescante. Alto nível de compexidade. Tudo desenhado a régua e esquadro, sem exageros, sem evidências. Os diversos aromas apareciam de forma ordeira, sem sobreposições. Madeira de grande qualidade.
Na boca, muito elegante, de perfil fresco, silvestre e muito mineral. A necessitar de muita atenção e muito cuidado, por parte do provador. Subtileza e sensibilidade imperam neste vinho. Foi uma tarefa árdua e provavelmente a minha classificação reflecte esse facto, pois ele meteu-me respeito. Nota Pessoal: 18
Barca Velha 1999. Com 13,5% de graduação alcoólica.
Um símbolo português. É o vinho. É o tal. Mesmo aqueles que não dominam as ciências enófilas, conhecem o nome, sabem quem ele é.
Uma apresentação bem mais portuguesa (para mim, não é nenhuma indelicadeza classificá-lo desta forma). Num registo identificável (mais um abuso da minha parte). O seu berço era perceptível. Quente, robusto, sólido, mais masculino, mas também elegante.
Inicialmente pareceu-me ter encontrado tiques que sugeriam aquele cheiro dos típicos lagares de granito. Fruta vermelha, fresca e densa, com esteva e terra húmida. Sentia-se o xisto, o restolho, a terra, os aromas de mato que tanto caracterizam aquela parte do distrito da Guarda onde é feito este tinto. Levaram-me rapidamente para a beira transmontana, onde o calor é torrido no Verão e o frio é duro no Inverno. Havia por ali alguma rusticidade, um carácter muito bem vincado.
Na boca mais robusto que os seus companheiros da noite. Com muita personalidade. Muita juventude. Mastigável. Um Douro! Sim senhor. Jovem. Vai evoluir brilhantemente e vou guardar uma, pois 1999 é a data do meu casamento. Nota Pessoal: 17,5


Epílogo
Preciso de aprender muito, muito mesmo. Ter feito o que fiz é capaz de ter sido um pecado, uma agressão para quem idealizou estes vinhos. São líquidos que não estão ao alcance de um simples mortal (esqueçamos a questão monetária). Possuem registos de difícil interpretação. Em última análise, foram feitos para serem assim mesmo. A simples contemplação bastaria. Para quê complicar ainda mais?
Confrontei-me com as minhas limitações, com a minha incapacidade para entender o que tinha ali à minha frente. Simplesmente três grandes vinhos. Por esta razão, peço perdão pelas palavras que usei, pelos termos mais ou menos infelizes que escolhi para falar sobre tudo que senti.
Post Scriptum. Caros amigos, por motivos de saúde da minha companheira, da minha mulher, irei abandonar a actualização do meu blog. Servirá também para reflectir um pouco sobre tudo o que me rodeia, nesta vida. Espero voltar brevemente...

14 comentários:

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Caro Rui Miguel

Mais uma descrição excelente. Compreendo perfeitamente os teus receios, mas está perfeito. Apenas não posso emitir opinião sobre o Peter Lehaman pois nunca o provei. Concordo totalmente com as notas dos outros 2.

"por motivos de saúde da minha companheira, da minha mulher, irei abandonar a actualização do meu blog. "

Caro Rui
Lamento esta noticia e desejo um rápido restablecimento.

Um abraço

Zé Tomaz

Miguel disse...

Rui é com pena que recebo esta notícia. Desejo as rápidas melhoras da tua companheira.

Nuno de Oliveira Garcia disse...

Votos muito sincereos de melhoras para a sua mulher.

N.

(Saca)

Copo de 3 disse...

Epa só agora é que vi... mas aqui ficam os desejos de rápidas melhoras para a tua senhora.

frexou disse...

Desejo um rápido retorno do estado de saúde da tua esposa.

As melhoras.

Grande abraço,
Paulo Silva

Anónimo disse...

Rui,

Um desejo sentido de rápidas melhoras da tua mulher..e força que melhores dias e novas alegrias virão.

1 grande abc

Nuno Gonçalves

Pingus Vinicus disse...

Caros amigos, obrigado pelas vossas palavras. Espero que elas contribuam para as melhoras.

Até lá continuem a falar de vinho e a beber vinho, que é o mais importante.

Um abraço, Rui

joaoRedrose disse...

Hello Pingus,

gostei das tuas notas de prova. Acho que não é preciso ter "medo" de escrever sobre seja que vinho for, mas também concordo que o vinho exige respeito.

força y saludos
joão

Karen disse...

Melhoras para sua esposa.

Anónimo disse...

Carissimos, qual a vossa opinião, na generalidade sobre os Barca Velhas?

ricardo disse...

"por motivos de saúde da minha companheira, da minha mulher, irei abandonar a actualização do meu blog. "

Um grande abraço e as melhoras.

RR
vinhoacopo

Luís Miguel Costa disse...

Lamento a notícia e desejo sinceros votos de rápidas melhoras..

eduardo lima disse...

Amigo Rui

Agradeço a visita e, aqui do outro lado do Atlântico, integro a corrente positiva pelo pronto restabelecimento de sua esposa. Quanto ao jantar citado foi, certamente, um dos melhores e maiores dos que não participei.
Impressionante a nota do Barca Velha. Por aqui ainda tem grande fama.

jms disse...

Gostei muito do registo com as notas de prova foram feitas.
Só hoje as li e assim espero que a evolução da saúde da sua mulher esteja a correr pelo melhor. Um abraço.