segunda-feira, Janeiro 15, 2007

I Encontro de EnoBloguistas (Epílogo)

Bom, lá terei que encerrar o nosso I Encontro. Já agora, e antes que comece a divagar, o que me acontece muitas vezes, será que o Robert Parker soube do acontecimento e andava por lá, sem nós sabermos?
Outros registos, outras descrições irão surgir sobre o que se passou na noite de sexta-feira, 12 de Janeiro de 2007. Serão diferentes visões. Todas elas complementares. Todas elas correctas. Mostrarão os diferentes olhares que temos sobre o vinho. É a critica do consumidor a funcionar em toda a plenitude.
A inauguração das hostilidades, das provocações decorreu durante o momento que estava destinado à prova. Serviu para quebrar o gelo, aquecer as conversas e libertar-nos do formalismo inicial. Depois do primeiro trago, tirámos os casacos, arregaçamos as mangas das camisas e a festa começou.
Tudo estava organizado (e bem). Mesas, copos, cuspideiras e bolachinhas. Mas a malta não quis saber daquilo e trocou as voltas ao anfitrião. Pegou no copo e lançou-se na prova dos líquidos, sempre em redor de uma única mesa. Os vinhos iam sendo apresentados por aqueles que os trouxeram. Nada de provas cegas, silêncio, apontamentos ou médias finais. Acabou por se tornar numa interessante e pequena montra do que se faz por esse país fora. Alguns dos néctares presentes tiveram o privilégio de nos oferecer lições curiosas. Exagerando da minha parte, parecia que estavamos num pequeno EVS.
Aqui ficam os meus registos sobre algumas das pingas degustadas. A sua apresentação não tem qualquer indicação valorativa. Outras ficaram por provar. Não consegui ir a todas. Peço desculpa pelo facto, mas a viagem de volta para casa era grande e a policia espreitava, mesmo ali ao lado.
  • Um Messias Garrafeira 1983. Um bairrada da outra escola, de outros tempos, com outros sabores. Quem, nestes dias, tem paciência para provar este tipo de vinhos? Muito poucos. Deixei um copo esquecido, durante um bom bocado, e a evolução foi interessante. Será curioso sentir o pulso a muitos vinhos que andam por aí daqui a 20 anos. Não me vou esquecer.
  • O Quinta do Moledo Verdelho 2004, foi para mim uma estreia. Nunca tinha provado qualquer tipo de vinho de mesa, proveniente da Madeira. Gostei do nariz. Mas na boca, acelarava e desaparecia num ápice. Elixir de Baco, obrigadão.
  • Casa da Passarela Touriga Nacional 2005. Longe daquilo que esperamos de um Dão. A moda assim obriga. Ninguém quer ficar com as adegas cheias. Exuberante, pomposo, espampanante. Muito novo. Fiquei com a pulga atrás da orelha. Será coisa para durar ou simplesmente criado para beber enquanto está jovem? Um bom exemplo para definir: vinho de prova.
  • Vô Bento Reserva 2004. Um castelão típico, espelhou muito bem a tradição de todo aquele imenso areal que circunda Pegões, Fernando Pó e Águas de Moura.
  • Sirga 2004. Várias vezes olhei para este vinho, pegava na garrafa, mas acabava sempre por escolher outra coisa. Com tantos nomes do Douro que andam por aí, fico cansado e confuso. Viro-me para outras terras. Será que nesta região só os topos têm interesse? Elegante, com sensualidade e acima de tudo muito afinadinho. É uma boa opção. Do mesmo autor do Poeira. O que andei a perder.
  • Pintas 2005 (amostra de casco). Dispensa apresentações. Corpo com estrutura. Tudo misturado com muita gulodice. Um bombonzinho. Apesar de estar cru e ter arestas por limar, deu indicações de que a qualidade, a consistência vai continuar. Pintas Character 2005 (também em amostra). Uma novidade. Vegetal, fresco e mineral. Elegante. Vai apresentar-se ao público com um preço bem menos doloroso. Aqui para nós: gostei francamente.
  • Sanguinhal 2001. Um estremenho feito com Aragonez e Cabernet Sauvignon. Nunca tinha bebido um vinho que cheirasse, deste modo, a pimentos. Houve quem perguntasse: "Onde estão as sardinhas?" Eram pimentos e dos verdes. Muito didáctico. Provavelmente terei andado a inventar, no passado, quando dizia que sentia, cheirava pimentos. Caramba, nunca tinha visto algo assim.
  • Barrancos 2005 e Paços de Selmes 2003 mostraram o que é ser alentejano. Num fio condutor semelhante. Com o carácter das terras quentes do sul. Aqui notou-se a pressão, a tendência dos gostos pessoais que todos nós temos, a inclinação pelas diferentes regiões e estilos. Curiosos e autênticas novidades para mim.
  • Arinto CampoLargo 2005. Um belo branco. Robusto, pujante. Necessita de algum tempinho para acalmar, organizar e mostrar-se. O copo onde foi servido pode ter prejudicado a sua prestação. "Um branco pensado como um tinto."
  • Hexagon 2000. Um excelente sadino. Elegante, boa amplitude aromática e gustativa. Cavalheiresco. Boa complexidade.

Os licorosos também estiveram presentes. Warre's LBV 1995, um LBV que é um vintage. Há muito que se tornou na minha escolha. Niepoort Colheita 1991, pareceu um pouco incaracteristico. O adiantado da hora, também não me ajudou. Finalmente um palavra para o Madeira Boal 10 anos. Companheiro da recta final, nos meus últimos momentos, da despedida. Os vinhos da Madeira continuam a surpreender-me.

O resto? Bom o resto foi conversa e mais conversa. Iguais entre iguais. Sem pretensões, sem nada escondido.
Quanto ao assunto da mesa e do garfo. As iscas de pato sobre folhado com molho de vinagre balsâmico, estavam saborosas. Ideais para acompanhar um Kracher Cuvée Beerenauslese 2003 (estou correcto?). Um colheita tardia oferta do anfitrião. Os lombinhos de linguado com molho de amendoas e chantereles, revelaram-se uma proposta suave, equilibrada, com tudo no lugar. Gostei. As presas de porco, tiveram uma exibição mais tristonha. Mas nenhuma ficou no meu prato. Na sobremesa, a tarte tatin com gelado de canela estava bem conseguida. Cumpriu o papel de encerrar as festividades, com chave de ouro.
No fim aparece o Aníbal, o Coutinho. Um abração para ti. Foi um prazer conhecer-te e vê lá se para a próxima vens mais cedo.
Só me resta terminar, este texto, com uma famosa expressão usada pelo jornalista Carlos Pinto Coelho: "E assim ACONTECE."
Obrigado a todos Vós. Pingus

18 comentários:

elixirdebaco disse...

Com uma descrição assim, quem não queria estar presente... ainda bem que correu tudo como estava planeado (e bem planeado!). Felizmente as minhas botelhas chegaram e contribuiram com algo diferente, era esse um dos objectivos.
Falta saber onde e quando será o próximo?
Quem se adianta?
um abraço

Rui Sousa

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Caro Rui

O teu Casa da Passarela fez as minhas delicias. Não tenho a menor duvida de que brevemente irá fazer parte da carta de vinhos da YH, e é uma boa opção para vender a copo.

Quanto ao encontro,tenho pena de não me ter podido juntar a vcs no jantar, mas gostei imenso de os ter conhecido pessoalmente, e sabem que têm aqui uma casa às vossas ordens.


Um abc a todos

Zé Tomaz

P.S. Continua a escrever assim, pois és um exemplo de bem escrever a nossa lingua mãe.

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Outo fenómeno estranho, foi o facto de eu ter gostado MUITO mais do Pintas Caracheter 2005 do que o Pintas 2005. Achei o Pintas 2005 ainda um pouco rude. Será normal esta minha "anormalidade"

Aquele Warres LBV 1995... era de estalo

ZT

Chapim disse...

Eu achei o Character mais pronto que o verdadeiro Pintas! Mas o volume e intensidade do Pintas parece-me que vão dar mais um sr grande vinho!!

O LBV mais parecia um Vintage.

Boas provas

AJS disse...

Um grande momento de convívio e de possibilidade de provar vinhos desconhecidos. Quando me decidi descer até à capital, para este encontro, confesso que mais do que uma vez me interroguei se não me ia arrepender. A distância. O desconhecido, ou desconhecidos. Os homens da informática devem ser todos uns chatos, sempre agarrados ao computador. Felizmente decide bem, e, mais uma vez, constatei que o país está cada vez mais pequeno. Por outro lado o pessoal dos computadores também tem gosto em conversar. Ainda bem. Divido os vinhos do encontro em três categorias: Os que me agradaram; Messias Bairrada Garrafeira 1983. O início muito forte, com um cheiro a café quase insuportável, que com o avançar do tempo se foi polindo e mostrando como um vinho velho tem a capacidade de guardar tantos aromas distintos, desde as madeiras exóticas, até às especiarias. O Vô Bento Reserva 2004. Uma estrutura a que não estou habituado e que mostra para além de um nariz cheio de fruta vermelha já alguma escapadela para frutos secos, ainda que leitosos. Na boca guloso com algum fim de registo. A única dúvida está em saber se terá pernas para uma boa evolução com o andar dos anos. O Barrancos 2005. Um alentejano com grande equilíbrio e a fugir à uniformidade dos vinhos do Alentejo, com personalidade própria no nariz, sem aquele adocicado característico, muito floral e vegetal. Na boca robusto que se pode mastigar. O que me desagradou: Casa de Santar. Que desilusão. Fininho, fininho, fininho. Até dá pena. O que me espantou. Kracher Beerenauslese Cuveé 2003, que coisa difícil de dizer e mais ainda de escrever. Que grande surpresa para este branco colheita tardia. Tudo no sitio. A doçura muito bem misturada com a acidez. Perfeito para o fígado de pato. Parabéns Zé Tomaz. O Sanguinhal 2001. A cor retinta e principalmente o aroma a pimentos, e que pimentos. Nunca imaginei que pudesse haver um vinho com um aroma tão intenso. Na boca finava-se, mas após aquele nariz não era possível retirar-lhe mais nada. Dos vinhos que levei, naturalmente, abstenho-me de comentar, apenas que, pelo que tenho lido, foram do agrado geral, o que muito me encanta. Ainda houve pelo meio um “Chryseia”, mas isso são contas de outro rosário. Os outros foram-me de alguma forma indiferentes. Fico a aguardar mais encontros e aberto a organizar uma visita ao Douro. Um grande abraço a todos e boas prova. AJS

Pedro Sousa P.T. disse...

Acho que estávamos todos à espera ansiosamente pelas tuas notas, caro Pingus. Belo Comentário, muito sóbrio, pessoal, e honesto.
Quanto a mim, cheguei à conclusão, que realmente sou um "tenrrinho" nestas coisas de termos técnicos de degustação do vinho. Gostei muito da confraternização, principalmente, com o pessoal do Krónicas, pois ficaram ao nosso lado na mesa. Vencedores, se é que os houve, para mim, e como já constatei, foi o Pintas 2oo5, que o AJS nos deu o previlégio de provar. O Hexagon também brilhou, se calhar mais do que alguns, porque já estávamos com a barriguinha preenchida, e este pormenor tem a sua importancia, a meu ver. Também gostei muito do Azamor sv 2004, que chegou atrasado, mas a tempo de mostrar o que vale. Os pratos estavam muito bem confeccionados principalmente o linguado. Parabéns pelo empenhamento de todos. Hája saúde, e muito vinho para todos...e do bom!!!

Pingus Vinicus disse...

O "Chryseia" (e a malta acha que percebe disto), mais uma passagem pelos saudosos Jogos sem Fronteiras deram origem a excelentes momentos de riso e boa disposição.

Pedro Sousa P.T. disse...

...temos que tirar também o chapeu ao Casa da Passarela. Grande tinto incorpado. Um vinhão como eu gosto. Abraço

Anónimo disse...

Nunca é demais de salutar a organização deste tipo de eventos!
Parabéns muitos especiais para o Rui e para o Zé Tomaz.

O estilo casual e descontraído resultou muito bem, facilitando uma aproximação mais natural e despretensiosa, que se formou a partir de um elo comum; O gosto que todos comungámos (e de que maneira) pelo vinho!

Quanta aos vinhos provados, não posso tecer grandes comentários uma vez que uma valente gripe me roubou o nariz e me puxou todos os vinhos para zonas de amargos e de herbáceos...Felizmente que a equipa do vinho a copo tinha companheiros em grande forma! :)

Mesmo a jogar lesionado nos aromas, adorei o jantar com histórias hilariantes! Só espero não vir a saber no futuro como é que o Benfica ganhou a final da taça dos Campeões de 1962!

Abraço,
Nuno

Vinho da Casa disse...

Chryseias? Pintas? Hexagon?
Sim senhor!
Parabéns pelo sucesso do I Encontro de Eno-bloguistas!

Abraço

Kroniketas disse...

Ora, com uns tiraços do Águas, do Coluna, do Eusébio e do Cavém...

Repito a pergunta que ficou no ar a propósito do Sirga, para que não passe despercebida: "Será que nesta região só os topos têm interesse?". É um assunto a voltar qualquer dia.

Pingus Vinicus disse...

Kroniketas disse: "Repito a pergunta que ficou no ar a propósito do Sirga, para que não passe despercebida: "Será que nesta região só os topos têm interesse?". É um assunto a voltar qualquer dia."

É de facto um assunto muito interessante, que não merece ser esquecido.
Abração

AJS disse...

É uma boa questão. O Sirga é efectivamente um vinho muito bom, como ficou expresso pelas opiniões gerais. Penso que foi uma grande surpresa para a maioria dos presentes e fico contente por terem apreciado o vinho que levei. O Douro tem uma característica importante que não deve ser esquecida. É essencialmente uma região de vinhos generosos, fortificados. Durante séculos apenas se fez “vinho do porto”. O vinho de mesa era feito pelas uvas excedentes, sem a mesma qualidade das utilizadas no porto. Com estas condicionantes não era possível apurar técnicas para a elaboração de um vinho de mesa com qualidade. A excepção era o Barca Velha (lá estamos nós outra vez com o BV às costas, porque será?), o outro vinho era mais uma espécie de água-pé para dar aos trabalhadores rurais. Os primeiros a fazer vinho de mesa foram as adegas cooperativas, com a finalidade de escoar os excedentes e sem grandes preocupações de qualidade. Nos últimos dez anos, fruto dos chamados Douro Boys, jovens enólogos, na sua maioria formados pela licenciatura em enologia da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, (peço desculpa pela publicidade ao meu patrão) a aposta na elaboração de vinhos de mesa explodiu. Por isso estamos perante um fenómeno recente e que produz na sua maioria “topos” porque lhes é permitido fazer experiências de qualidade, uma vez que têm o vinho do porto que lhes garante a receita financeira. Podem escolher as melhores uvas para fazer os melhores vinhos, porque são na sua maioria produções muito limitadas, 5 a 8 mil garrafas, os chamados vinhos de garagem. AJS.

Chapim disse...

Caros, respondendo à pergunta do Kroniketas:
Apesar de não achar que seja no Douro que estão as melhores RQP não acho q só os topo tenham interesse. De facto são eles q são badalados mas isso é a ordem natural das coisas.
Lembro-me de alguns tintos e brancos a preços simpáticos com muita qualidade e a preços bem simpáticos (Vallado, Crasto,Maritávora, Castelo d`Alba Reserva Branco,etc - tudo abaixo dos 10 euros).
Depois acho q há um patamar entre os 10 e 20 euros onde residem as propostas mais interessantes. Aqui nos tintos existem vinhos excelentes e apaixonantes sem ter preço de topo como são exemplos o Vértice, Pssadouro, Evel Grande Escolha, Vertente, etc.
Nos brancos neste patamar estão 90 % dos grandes brancos do Douro (na minha opinião) só o Gouvyas Vinhas Velhas, Redoma Reserva, Maritávora Reserva e Guru não cabem neste segmento. Assim temos Redoma, Tiara, Carm Reserva, Morgadio da Calçada, Dona Berta Rabigato, Castelo d`Alba VV, Vértice que fazem as minhas delícias.

E depois vêm os sonhos para mim. Esses só chego muito de vez em quando e mesmo assim não acho q só os topos valham a pena visto que os provo de longe a longe..

Boas provas e desculpem a extensão do comentário.
Chapim

Anónimo disse...

Rui,

"A festa foi bonita" e uma vez mais agradeco o convite. Foi um prazer "comungar" com outros enofilos (incluindo o "elixirdebaco") e apresento ainda os devidos agradecimentos ao anfitriao Jose Tomaz, que soube criar as condicoes para uma bela confraternizacao.

1 abc dos Alpes

Nuno Goncalves (Goncas)

PS: Estou a escrever de um teclado configurado para ingles.

Pingus Vinicus disse...

Nuno, espero que essas férias brancas estejam a correr bem.
Já agora estás onde? Itália ou Suiça.

Um abração e obrigado por teres aceite o meu convite.

Anónimo disse...

Uma vez mais aqui ficam os meus mais sinceros Parabéns ao Organizador!

Anónimo disse...

Viva Rui,

(Estava) em Setriere, Itália.
Já estou de volta.

1 abc,

NGo