quinta-feira, Março 15, 2007

Brancos, a Vingança?

Brancos, vinhos brancos. Provavelmente terá sido com o vinho branco que comecei a beber vinho. O branco, durante muitos anos, era o único vinho que bebia (e mal). O tinto transmitia-me a imagem da taberna, da tasca (até agora este conceito mudou. Agora existem aquelas que são finas), do homem rude, vadio, de pouca finura e cultura. Não gostava. Nem do cheiro. Agora, é à volta do tinto que mais falo. É com o tinto que mais viajo, que mais imagino. São os tintos que disputo, que me fazem gastar os (poucos) euros que tenho. A volta que a vida dá.
O branco, entretanto, tinha-se desgraçado. Perdera-se no meio da avalanche. Esquecido. Ninguém o procurava, ninguém o queria. Passou a ser considerado menor, sem valor. Teve quase a perder a menção, o título de vinho. No entanto, parece que a balança está a equilibrar os pratos. Sente-se, pelo menos eu sinto, que os brancos nacionais estão a ganhar (algum) terreno. Vão surgindo, aqui, além, um conjunto de vinhos de qualidade elevada. Alguns deles capazes de evoluir com muita dignidade, ganhando complexidade, enriquecendo ao longo dos anos. Ao escrever estas linhas, estou a lembrar-me do Castelo D'Alba Vinhas Velhas 2003, bebido muito recentemente. Ainda estava jovem (um vinho que custa 10€). Alguns são concebidos como se fossem vinhos tintos (esta afirmação é representativa do preconceito que ainda existe).

Herdade do Meio 2005, feito exlusivamente de antão vaz. A casta alentejana. Um pouco preso de movimentos. Muito tímido inicialmente. A madeira parecia querer tapar o resto dos seus compadres. Foi necessário abaná-lo, para que a madeira se convencesse que devia recolher, por momentos. A calda de ananás, pêssego soltaram-se das amarras e suavizaram o vinho. A tília, a cidreira iam libertando brisas doces. Um leve aniz, envolvia-se com os frutos secos que apareceram na recta final. Um conjunto que me pareceu consistente, com algum equilíbrio e com um bom nível de complexidade. Depois de uma experiência menos positiva com a colheita de 2004, reconciliei-me com este alentejano, que parece ter condições para evoluir bem. Aliás, merece ser guardado durante mais um pouco. Ainda está um pouco pesado (para mim). Nota Pessoal: 15,5


Indo mais para acima, até ao Douro (caramba, tenho andado muito nestas bandas). Um vinho que se está a colocar paulatinamente entre os melhores brancos. Pareceu-me diferente, um pouco mais elegante, menos agarrado à madeira. Mais complexo, mais fino. Atreveria-me a dizer que este Gouvyas Reserva 2004 está mais feminino que o 2003. Mineral, repleto de fruta fresca, onde impressões de casca de pêssego, pêra, erva mostravam-se de forma firme e assertiva. Toques amendoados, de timbre suave davam o remate. Tudo sem sobreposições, pausado, calmo e sem pressas. Numa actuação que dava tempo para pensar, respirar e saborear. Na boca, estalavam silenciosamente sabores minerais, vegetais, frutados. Despedia-se piscando o olho, delicadamente, espicaçando-nos. Nota Pessoal: 16,5
Epílogo


Dois exemplos de bons vinhos. Mostram e bem que é puramente preconceito considerar os brancos como filhos de um Deus menor.

6 comentários:

Chapim disse...

Caro pingus,
ainda bem que cada vez menos o branco é considerado secundário porque na minha opinião está lá bem ao lado do tinto.

Há de facto cada vez melhores exemplos de brancos nacionais em grande forma. Alguns mais longevos do que outros, mas muitos em grande forma.
E tem outra vantagem para desafortunados financeiramente como eu. Com 10-15 euros consegue-se brancos de grande nível talvez só comparados a tintos de 20 a 30.
E dão prazer de Verão, de Inverno e nas meias estações (ainda as há?)

Boas provas!!

J. Gómez Pallarès disse...

No hay vinos menores o mayores, creo yo. Como tú piensas, entiendo que sólo hay vinos buenos, regulares y malos. Y una vez asumido por todos (aunque no todos los beban porque se comercializan bastante mal) que existen grandes vinos tintos en Portugal (portos, ça va de soit!), hay que empezar a descubrir los secretos de los grandes blancos portugueses, que cada vez hay más. Muchas gracias por las informaciones, y prometo reciclarme en el tema!!!
Joan

AJS disse...

Curiosamente comigo começou ao contrário. Primeiro os tintos, porque o vinho era tinto, o resto nem sequer existia. Recordo-me, de quando estudante em Lisboa, correr as tascas do Bairro Alto (mesmo tascas, não aquelas coisas que hoje o bairro tem que servem uns tiros certeiros, a que chamam “chot”, que não possibilitam a beleza de se poder embebedar com classe, lenta e progressivamente), do Castelo e do Alto da Ajuda. Só havia tinto, e carrascão de preferência. Mais tarde, quando a bolsa permitiu, experimentei os tintos engarrafados. Essencialmente do Alentejo, mas também do Dão. Recentemente surgiu o branco. Ao inicio meio desconfiado. Vinho sem cor? Não, isto só como refresco! Mas com o tempo fui sendo positivamente surpreendido. Hoje tenho o mesmo contentamento ao provar um branco que um tinto. O importante como diz o J. gómez pallarès, é que seja bom. E cada vez há mais brancos com muita qualidade. O ultimo que provei foi um branco galego, da zona de Verin, Ourense, “As Sortes”, que belo vinho. Recomendo para os cépticos e vão ver que é muito superior à média dos tintos. O Douro, estou seguro, vai dentro de muito pouco tempo apresentar brancos de alta qualidade. O necessário é dar tempo a que as vinhas, mais altas e logo menos rentáveis até agora, porque não serviam para o vinho do porto, sejam reconvertidas. Boas provas. AJS

J. Gómez Pallarès disse...

As Sortes de J. Palacios, monovarietal de godello de la DO Valdeorras, es uno de los grandes vinos blancos españoles. Muy buena elección, aunque algo cara. Dentro de un par de años seguro que está mejor!
Saludos a todos,
Joan

Pedro Sousa P.T. disse...

E mais ainda, os brancos já começam a ficar equilibrados aos tintos quanto aos preços. Já não é só para aqueles que têm ar a mais na carteira, já se encontram bons brancos a um preço rasoavelmente alto.

Kroniketas disse...

Brancos bons vai havendo, mas poucos. O Saca-a-rolha deu o mote para o confronto entre esta opinião do Pingus e a minha. Vou escrever sobre isso no KV.