domingo, outubro 14, 2007

Passado, Presente, Futuro

Ao longo da refeição, e num inútil momento de reflexão pessoal, foram passando pela vista pequenos relâmpagos, sequências da (minha) vida, do meu passado. Soltos, sem qualquer conexão aparente entre eles. Tentei encadea-los com o presente, de modo a compreender o que faço. Ver se tudo era resultado de actos passados.
Tentei atalhar, depois, caminho para o futuro, para perceber (melhor) o que estaria ainda para desenrolar-se e tentar escolher o caminho. Deparei-me com varias encruzilhadas. As indefinições não permitiam estabelecer um contínuo temporal consistente. Não descortinei uma única imagem clara. Regressei ao presente e confrontei-me com o que estava dentro do copo.

Quinta das Estrémuas Touriga Nacional 2004. Um vinho espesso, grosso, extremamente torneado, roçando em certos momentos o exagero. Fiquei de olhos esbugalhados. Era impossível ficar indiferente. Um vinho do Dão?
Libertava-se do vidro com cheiros a cedro, a verniz, a tinta. A componente química marcava uma presença (muito) forte na fase inicial. Caminhou, posteriormente, para o novo mundo. O caramelo, a canela, a baunilha, marcaram (assertivamente) todo o comportamento aromático, deste anacrónico tinto do Dão. Licores de ginja, uva madura (lembrando, por momentos, a passa) contribuiram para o aspecto pujante do vinho. Por entremeio, surgiram sensações de terra revolvida e uma estranha impressão a rosas. Tudo numa intensidade que (quase) desentupia as narinas.
Os sabores, apesar de possuírem frescura balsâmica, eram vigorosos, cheios. Faltavam-lhe, no entanto, alguma delicadeza, alguma finesse.

Um estilo de vinho que poderá cansar um pouco (questiono-me se foi de propósito), em que será necessário ter algum cuidado com a temperatura de serviço. Não passou despercebido, mas senti que faltava ali qualquer coisa. Nota Pessoal: 15,5

Será que o Dão está comportar-se como a economia portuguesa e vai andar (sempre) em contra ciclo? Seria (muito) importante que fosse encontrado um saudável equilíbrio entre o passado, o presente e o futuro. Se assim não for, corre o risco de voltar à amargura do passado recente (o distante foi de glória). Poderá ser uma tarefa inglória, um pouco desmobilizadora, mas insistir na robustez, na força, poderá fazer voltar o "feitiço contra o feiticeiro" e tornar o vinho do Dão igual a tantos outros.

3 comentários:

Diogo BS disse...

O Pingas já se tornou uma visita incontornável de quem procura boas notas de prova de vinhos na net. As melhores felicidades e que os hiatos se verifiquem o menos possível! Um abraço

Nuno de Oliveira Garcia disse...

Reflexão bem oportuna, meu caro. Eu sou mais optimista (tenho menos ligação ao Dão) e acho que os melhores tintos vão conseguir conciliar a finesse com as notas mais brutas da touriga. É começam já a surgir alguns exemplos disso como os tourigas da Qta do Perdigão e das Qta das Marias.

Um grande abraço,

Nuno

Pingus Vinicus disse...

Caro diogo bs, só tenho que agradecer os seus comentários.
Um abraço