terça-feira, Janeiro 22, 2008

Três Pintas, Três colheitas (Parte II)

Não perderei muito tempo na introdução. Ela foi feita, em traços gerais, nesta altura. Depois os meus rascunhos estavam mais ou menos alinhavados já algum tempo. A dificuldade esteve em descrever os vinhos de forma correcta, em caracterizá-los de forma consistente e coerente, tentando que vocês conseguissem perceber o que nariz e a boca iam descobrindo.
São três colheitas de um tinto que anda debaixo do meu olho, desde a primeira colheita (2001). Tenho bem presente a correria que fiz para caçar uns quantos frascos deste vinho desenhado por Sandra Tavares da Silva e Jorge Serôdio Borges. Tirando a colheita de 2002, que pareceu-me um pouco inferior - talvez influência do ano, a desilusão nunca se abateu sobre a mesa. Os valentes euros que custam estes vinhos tem que ser bem justificados.

Descasquemos Pintas de 2001. Confrontei-me literalmente com um individuo que mostrou o que é apresentar-se com maneiras. A potência e o vigor da juventude estão bem controlados. Amadureceu o suficiente para que os cheiros largados sugerissem um vinho profundo e misterioso. Fresco, com a fruta (mesmo doce) a surgir sadia, viçosa, sumarenta. No vidro reflectia uma visão matinal, repleta de pequenas flores orvalhadas, envolvidas sob uma ténue camada de neblina. Madeira de aspecto exótico e especiaria eram largadas por todos os lados, por todos os cantos do copo.
Na boca demonstrou um comportamento cheio de precisão, de equilíbrio. Filigrana pura. Os sabores ofereceram-me sensações difíceis de descrever. Bebam-na até à última gota. Ao virar da esquina quem sabe se a garrafa não se partirá? Nota Pessoal: 18
Em 2003, o Pintas pareceu-me mais directo, bem mais quente. Os aromas, os cheiros, aqui, andaram de volta de impressões mais doces, mais ardentes, mais redondas. Mais anglo-saxónicas. A baunilha, o caramelo eram reforçados pelo chocolate com leite, pela canela. O registo adensava-se com odores a charuto, a tabaco, a folhas secas. Um ardor alcoólico vagueava por entre as paredes do copo criando algum incómodo ao nariz e à boca. Começo a acreditar no que tenho ouvido por aí. Os vinhos deste ano são picantes. Impressionam (ninguém fica indiferente), mas falham um pouco na finura, na classe. Nota Pessoal: 16
Com a colheita 2004, regressa a frescura, retorna o equilíbrio, a alta joalharia. A balança apresenta os dois pratos alinhados (força e finura). Aparentemente são abandonados (ou domados) alguns excessos revelados na colheita anterior. Apesar de ter apresentado uma face muito sensual, com uma voluptuosidade quase chocante, parecia que tentava combinar aspectos da colheita de 2001 com a colheita de 2003. Dois extremos obrigados a partilhar o mesmo vasilhame. O mentol envolvia-se com os frutos, com a madeira. Os meus sentidos eram levados a entrar num ambiente enigmático, onde chocolate preto e apara de lápis iam surgindo sorrateiramente. O paladar era concentrado, cheio. Balanceava entre o lascivo e o sóbrio. Uma vez para um lado, outra vez para o outro. Aposto muito nele. Nota pessoal: 17,5


Fica a ideia que vale a pena continuarmos a guardar Pintas e Três Bagos Grande Escolha (de 2001). Tintos que, aparentemente, não sofreram amarguras ao longo de 6 anos. Passaram incólumes pelos vários desafios. É certo que este espaço temporal não é suficientemente alargado para tirar mais conclusões, mas deram indicações (falo por mim) que irão continuar a evoluir.

Post Scriptum: As fotos da vinha foram retiradas do site Wineanorak.

8 comentários:

Pratas disse...

Belas provas :)

Pedro Guimaraes disse...

Caro Pingus

Digo-te com conhecimento de causa que o 2002 e espectacular....tem mais acidez que todas as outras colheitas (com execepcao ao 2005 que nunca provei), achei-o mais fino, mais equilibrado e, com grande promessa de futuro. A colheita de 2002 tambem foi colheita e quem trabalhou na vinha e seleccionou rigorosamente conseguiu produzir belos vinhos muitos deles com equilibrios e acidez que nem sempre vemos no Douro. O Vale Meao e outro exemplo...acho o 2002 melhor e mais equilibrado que por exemplo o 2003.
Fiquei com curiosidade de provar o Pintas 2001 que so conheci na juventude. Ja nao deve ser facil encontra-lo....

Abraco
Pedro Guimaraes

Pingus Vinicus disse...

"Digo-te com conhecimento de causa que o 2002 e espectacular....tem mais acidez que todas as outras colheitas (com excepcao ao 2005 que nunca provei), achei-o mais fino, mais equilibrado e, com grande promessa de futuro."

Pedro acredito que sim.
Aliás, não tenho qualquer problema em dizê-lo, o 2002 foi o Pintas que provei menos vezes, influenciado ou não pelo ano. Depois, outra curiosidade é verificar que nas regulares provas cegas em que participo, o 2002 muito raramente surgiu - será, mais uma vez o ano a falar? No entanto, a imagem que tenho dele (que já é distante), não é de facto a mesma que tu tens. Fiquei curioso.

Sobre o 2001, pessoalmente está um grande vinho. Não me importaria de ter uma caixa dele. O 2004 e o 2005 estão também em grande nível. Aposto muito neles.

Um abração

Pedro Sousa P.T. disse...

O Pintas foi o rei da festa no I encontro de enoblogistas, lembram-se? Faz agora 1 ano.O amigo AJS tratou de o levar.
Abraços.

Nuno de Oliveira Garcia disse...

Essa Pintas era de casco, não era?

2001 foi uma grande colheita - olhem o Poeira, o Esporão Garrafeira, o Cortes de Cima Reserva, Quinta do Monte Oiro, etc...

Anónimo disse...

Grande prova que nos foi proporcionada por um Gentleman...

Gostei mais do 2001 e do 2004.

Pouco posso acrescentar à descrição do Pingas.

A única diferênça é que parece que sou mais pela "sensualidade" e "voluptuosidade", do que pela "Filigrana pura"...

Gostos...
2001---17 valores
2004---18 "

Abraço, Fisiopraxis

viticologo disse...

Saudos desde a Galiza. Deu-me muita envexa a tua grande prova dos Pintas. Eu tinha sacado recentemente a cata do 2005 que me dera as seguintes sensaçoes:

Nariz de gran complexidade e vitalidade cos aromas dos froitos vermellos e negros maduros, as ervas aromáticas, o mato balsámico e o fondo mineral característico do Douro, entre todos eles como un envoltorio os aromas da madeira.
Na boca mostrase goloso, saboroso, intenso mas sen abandonar nunca o passo elengante.
Longuísimo final coas notas da fruita vermelha, o regaliz e o chocolate a durar no tempo.

Pingus Vinicus disse...

Caro viticologo, um abraço cordial para ti.

Olhando para os novos vinhos do Douro, o Pintas é provavelmente aquele que revela mais consistência(para mim).

Um abraço cordial.