domingo, janeiro 18, 2009

Quinta do Cerrado (Dão) Touriga Nacional 2001

Considerações iniciais
O rótulo estava tapado. A garrafa estava metida no meio de outras com o mesmo ano. A responsabilidade da selecção dos vinhos foi de outro louco. Todos foram decantados e servidos através de mão estranha. A vizinhança era de peso, com mais fama. Com o rótulo à vista desarmada acredito, piamente, que o resultado poderia ter sido outro. Adiante!

Calmo na forma e no conteúdo.
Fruta cristalizada. Saltaram aos olhos o cheiro da fruta levemente quente por cima do bolo rei. Um doce aconchegante. Ultrapassada a entrada, deslumbravam-se no horizonte soalhos encerados, reluzentes. Ceras e vernizes.
Caminhando por entre o vinho, foram surgindo ao ritmo de cada cheiradela frutos secos, aninhados por entre folhas secas. Umas serviriam para chá, outras nem por isso. Pequenos pontos avermelhados começaram a espreitar. Eram as ginjas embebidas em licor.
Evoluiu, evoluiu para outras coisas. Começou, a dada altura, a ficar mais primaveril, mais campreste. Flores rasteiras, muita alfazema, inúmeras hortênsias (coloquei-as no caderno, depois de ter visto o rótulo). Adoro esta popular e quase inócua flor. Por meio, com vontade de passar despercebida, avistei, provavelmente toldado pela loucura enófila, uma laranjeira em flor.
Passados largos minutos, já o ponteiro tinha traçado um razoável percurso, foi servido um pouco de chocolate com leite e uns rebuçados de caramelo. Era o epílogo.
O paladar apresentou frescor, vivacidade. Todos os sabores eram oferecidos na dose certa, bem misturados. Ninguém tinha preponderância. Secos e finos. Para mim, havia ali uma curiosa nota mineral que parecia quer marcar diferença. Macio. Despedia-se (quase) pela calada, tentando embalar o inquieto espírito. Nota Pessoal: 17

Se não estou em erro, não custava mais de 15€. Portou-se de forma muito digna perante vinhos que custam quatro ou cinco vezes mais. Foi uma bofetada bem forte na cara.

Post Scriptum: Até a madeira (de carvalho) é nacional.

2 comentários:

Nuno de Oliveira Garcia disse...

É curioso: vários vinhos de 2001... cheira a prova horizontal do núcleo duro...

Ainda mais curisos: tenha uma garrafa dessas perdidas lá em casa. E eu com medo que pudesse não estar totalmente em condições.

NOG

Pingus Vinicus disse...

Nuno posso dizer-te que até fiquei admirado com algumas considerações de amigos (que conheces bem) que gostam de estilos mais cheios e robustos. Foi eventualmente a surpresa da prova.

Um abraço