domingo, Março 08, 2009

Gouvyas (Douro) Vinhas Velhas 2005

Estar dependente da imaginação, de um homem vulgar, para falar sobre qualquer e determinado assunto é angustiante. O prazer transforma-se, inesperadamente, em sofrimento. Os sinais de loucura surgem vindos de todos os lados. Os olhos giram em redor à procura de assunto.
Quando isto acontece, faz-se um passeio. Na volta um copo de vinho pode recolocar a tola a funcionar. É desmedido o prazer que existe quando a conversa se desenrola (apenas) entre mim e o vinho. O tempo pára e existe a possibilidade de desfiar a prosa. Em cada gole há sempre um abalo, uma comoção. Muitas vezes, perco o debate por falta de argumentos. As derrotas têm sido humilhantes.
O tinto surgiu a boiar no copo de forma calma. Via-se que não estava com disposição para comportar-se de forma extravagante. Percebia-se que não tinha paciência para botar discurso fácil e trivial. Vi que a disputa iria ser grande e, provavelmente, no final muita coisa ficaria por esclarecer. Tinha que arregaçar as mangas. Malditos vinhos que teimam em confundir o homem.
Saiu, lá de dentro, com cheiros frescos, quase frios. Irremediavelmente apareceram pela vista as imagens da pedra a escorrer, aquelas lajes abrigadas do sol que demoram a secar. Fiz uma pausa, reconsiderei a abordagem e deixei-o ao largo. Reparei que precisávamos de tempo.
Regressado do intervalo, notei que, também ele, estava mudado. As sensações estavam, agora, mais alegres. As cores começaram a diversificar-se. As notas florais enfiaram-se no nariz. A fruta vinha macia, bem limpa, e sem maturações estúpidas. O tempero da madeira não era exagerado. Tudo bem envolvido. Ainda houve tempo para pressentir uma ligeira especiaria. Bendita mão que fez este vinho.
Através do sabor demonstrou, mais uma vez, a sua coerência. Apostou na harmonia em prejuízo da agressividade ou da força. Conseguiu, e bem, conciliar leveza com concentração. Ao fim ao cabo, deu para ver que era um vinho esmerado. Nota Pessoal: 17,5

Post Scriptum:
Já percebi: As Notas Pessoais, provavelmente, estão inflacionadas (ou deflacionadas) em cinco décimas. Chamemos a esse fenómeno o factor Pingus.

6 comentários:

AJS disse...

Este Gouvyas está mesmo fantastico. Não me importa nada que as notas estejam inflacionadas se no momento em que provarmos o vinho este nos de imenso gojo. Estive dois dias na essencia do vinho e só vi o Nuno e o Frexou. Pena porque esteve mais uma vez um fenomeno apesar do excesso de gente. AJS

Pingus Vinicus disse...

É verdade, devemos reflectir no nosso referencial pessoal a emoção, o gozo (como dizes) que tivemos ao beber determinado vinho. Assim não for, que interesse tem isto?

AJS mais um ano passou e mais uma vez não fui à Essência.

prtbarata disse...

Belo vinho!!!

Pedro Rafael Barata (Blog Os Vinhos) disse...

Agora com a identidade correcta... :) volto a repetir...

Belo vinho!

Abraço Rui.

Nuno de Oliveira Garcia disse...

Meu caro amigo,

Noto, de facto, que as tuas notas têm vindo a subir... será da avaliação dos professores?

NOG

Pingus Vinicus disse...

Caro amigo, é apenas uma situação conjuntural. Nada mais, nada menos.

Um abraço