sábado, abril 23, 2011

Quinta de Nespereira, o Dão Serrano!

Retornei às minhas visitas por quintas do Dão. Visitas íntimas e privadas, de reflexão, de interpretação do que se passa por entre os diversos quintais deste enclave beirão. Conversa após conversa, e mesmo embebido de alegria, de orgulho, sinto que não há maneira destas gentes organizarem-se em volta de um projecto comum. Matam-se entre eles, destroem-se mutuamente, fazem alianças internas com o objectivo de eliminar os seus mais próximos. Sinto pena, tristeza, desânimo. Estive, já, mais excitado. A região vai definhar, infelizmente e fatalmente, até à sua extinção e mesmo no meio do apocalipse continuarão, muitos, a lutar entre si e sem perceberem, estupidamente, que o outro povo não quer saber deles, mesmo que achem que têm o melhor vinho do mundo. Triste, e anunciado, fim.

Voltemos, no entanto, ao fulcro. Após diversas tentativas, penetro por entre as fronteiras da Quinta de Nespereira.

No passado, um amontoado de pedras, fragas, muros velhos e mato. Sem importância. Agora, no presente, temos uma Quinta bem amanhada, airosa, bonita, vinha limpa, vistas largas e amparadas pela enorme Serra. Gouveia, essa, continua sempre presente e vigilante.

O nevoeiro, a borrasca, as nuvens, o cinzento, acompanharam as palavras que se soltavam, entre mim e Marco Carvalho, o homem que dá a cara por este canto serrano. A linguagem libertada, entre nós, era simples, sem remoques e acessível. Do sítio. Eram, apenas, dois homens que amam a terra, que desejam muito e vêem pouco a ser feito.

O corpo pedia, entretanto, por aconchego. Numa sala, ampla, com luz, bebericou-se o que se fazia em casa. Primeiro um branco, Quinta de Nespereira Vineaticu 2009, produto de uma curiosa combinação entre encruzado e verdelho. Com um toque de madeira. Vinho fino, elegante, perfumado por ares típicos daquelas bandas. Ainda assim, falou-se do branco da colheita anterior. Mais austero, mais aguerrido, mais seco, mais personalizado.

Mudámos para o Sarmentu, tinto de entrada. Sem passagem pela madeira. Limpo, fruta correcta, com bom amparo vegetal. Uma opção válida para a restauração. Pareceu-me mais adulto, e mais fresco, que em anos anteriores.

Subimos na complexidade. Quinta de Nespereira Vineaticu 2008, com estirpe vegetal, com muita tensão, com garra. Termina-se, encerra-se com o Quinta de Nespereira Vineaticu 2009 abastado de touriga nacional, muito promissor, a dar-nos pistas que será um tinto  sério, cheio de músculo, que merece ser bebido pela gente, de fora, amantes de produtos de nicho.

Fechou-se a conversa da mesma forma como começou. Simples. Dois homens, dois guerreiros que resistem pela sua tribo. Entretanto, fica o repto para provar, beberem, os vinhos que nascem nesta Quinta, visitarem Gouveia e encherem a pança com as viandas que se fazem por estes lados. E já não é pouco.

5 comentários:

Emilio disse...

Tentarei de nunca esquecer-no. O Dâo é o paraíso!

Pingus Vinicus disse...

Emilio, é um paraíso, mas esquecido, infelizmente!

Peter disse...

Rui, não posso partilhar o seu pessimismo - temos que lutar !!!!
Abraço Peter

Pingus Vinicus disse...

Peter, esperaria, nesta altura, maior dinâmica, maior coesão, mais força de vontade e objectivos bem definidos, mas não estou a ver nada disso. Espero estar errado, desejo.

Um abraço

Emilio disse...

Rui, dende tâo longo talvez eu nâo tinha uma visâo real, mas tú es o primeiro á dizer que paresce como se a "Champions" dos vinhos só fosse jogada pelo Douro e pelo Alentejo... Apessar disso tú e muitos otros "enoblogueiros" estâo á fazer uma lavor séria de reconohecimento do Dâo, e tanta gente nâo é possível estar errada!