sábado, agosto 19, 2006

Breve passagem pela Beira Interior (Parte I)

Nos longos dias que passei na Beira, fiz breves passagens por alguns vinhos da Beira Interior. Nada de especial, nada de extraordinário. De qualquer modo, representam um pouco o esforço que esta região raiana está a fazer para apanhar o comboio da modernidade. A ver vamos se consegue. Pessoalmente gostava. Era sinónimo de maior diversidade para todos nós. O consumidor, como sempre, fica a ganhar.
Escolhi para este primeiro momento a Adega Cooperativa de Figueira de Castelo Rodrigo. Figueira de Castelo Rodrigo é daquelas terras repletas de história, cheia de lendas medievais, que existem por toda a Beira. O concelho é banhado pelo Rio Douro na zona de Barca d´Alva (que pertence à região demarcada duriense). Aliás, Barca D'Alva é/era uma terra que conheço/conhecia muito bem. Ponto de ligação entre os distritos de Bragança e Guarda.
No passado cheguei a fazer o percurso de comboio, ainda a vapor, desde a Barca até Lisboa (a minha família paterna é de Freixo de Espada a Cinta). Era uma viagem longuíssima, cheia de peripécias, de momentos inesperados e de uma beleza ímpar, quase única neste país. Passava-se pelo Pocinho, pelo Pinhão, pela Régua. Lembro-me de umas velhotas que vendiam umas púcaras de barro com água bem fresquinha. E os rebuçados da Régua? A tradicional passagem pela Ponte Dona Maria, no Porto, que tremia à passagem vagarosa dos comboios, fazia com que muitos dos passageiros mais supersticiosos se ajoelhassem e rezassem aos deuses. Tudo isto parecem retalhos de uma história distante, bem longínqua. Mas não! São cenas dos finais dos anos 70 e princípios dos anos 80. Era eu um garoto, um puto. Agora, o comboio já não passa em muitos sítios. Dizem os entendidos que são sinais dos tempos! É a modernidade a caminhar para todos os recantos do nosso país. Estranho!?
Voltemos ao que interessa, isto é aos vinhos. Voltemos então a Figueira para beber um copo.
COOP Figueira de Castelo Rodrigo Síria 2005
Cor extraordináriamente clara. Pouco faltava para ser como água. Explosão de aromas doces, com fruta em calda, refrescado por algumas lembranças de mentol e hortelã. Tangerina, laranja aumentavam o leque de aromas disponibilizados. Pareceu-me na recta final encontar algum mel, bem como um raminho de rosas lá no meio.
Para beber enquanto está na força da sua juventude e sempre numa temperatura baixa. O eventual aquecimento no copo poderá prejudicar o vinho, tornando algo enjoativo e cansativo.
Sem nos fazer abrir a boca de admiração, é um vinho bem feito. Fará sorrir muitos de nós.
Nota Pessoal: 14

COOP Figueira de Castelo Rodrigo Branco 2005
Feito a partir de um lote com síria e arinto. Num estilo algo parecido com o Síria. Muito sinceramente não consegui descortinar grandes diferenças. Mas acredito que sejam resultantes de algumas limitações pessoais. Pareceu-me talvez mais ácido, talvez um pouco mais mineral. Mas o lado doce, lá estava. A curiosidade acabou por serem os cristais que apareciam no fundo copo. Um vinho bom para a petisqueira. Tipo uns peixinhos do rio assados, temperados com um molho picante.
Nota Pessoal: 13,5

COOP Figueira de Castelo Rodrigo Touriga Nacional 2004
Aromas limpos, francos. Fruta vermelha, ou preta (para todos os gostos) bem viva. A existência de um lado silvestre e vegetal, fazia sentir um rasto de caruma e balsâmico que alegrava e refrescava o conjunto.
Na boca, os taninos eram vivaços. Provocavam uma discreta secura nas genvivas. Levemente mastigável. Frutado e limpo.
Por menos de 3,50€ foi para mim um feliz achado. É pena haverem assim tão poucos. Faria corar de vergonha alguns dos nomes mais sonantes que andam por aí.
Para beber enquanto jovem, para se desfrutar de toda a sua alegria e irreverência (no bom sentido é claro!).
Nota Pessoal: 14,5
Post Scriptum: Visitem a Igreja de Escalhão. A Vila de Escalhão é a sede de freguesia de Barca D'Alva. Possui alguns pontos de interesse.

7 comentários:

Luis Marques disse...

Uma apreciação interessante.
De qualquer modo não acredito muito na sobrevivência da Beira Interior como região vinicola.
A crise do sector bate à porta dos mais fracos, mais depressa.

Pedro Sousa (p.t) disse...

Já provei esta pinga, e para o preço que é, não está nada mal. Comprei pela primeira vez em Viseu, numa loja muito jeitosa de vinhos e charutos, mas ja vi à venda nos intermarchés, e carrefours

Pingus Vinicus disse...

Pedro, penso que sei qual é a loja em Viseu.

Mas é nos Intermarchés que se vêem mais estes vinhos. Ao preço a que são vendidas torna-as bem jeitosas.

Caro Luis Marques, pessoalmente também não acredito muito na sobrivência da Beira Interior, no que respeita aos vinhos, é claro.

João Cabral disse...

Vivendo eu na Beira Interior (BI), em Castelo Branco, permitam-me discordar da ideia da não sobrevivência da BI em termos vinícolas, só a COOP de Figueira Castelo Rodrigo produz 10 milhões de garrafas (vendas superiores a 3 milhões de euros em 2005, a COOP da Covilhã, 4 milhões de garrafas (vendas de 1,7 milhões de euros), estes dados poderão fazer corar de vergonha alguns dos produtores das regiões mais conhecidas e reconhecidas, pelo que penso que o futuro está assegurado (mas é apenas a minha opinião).
Um abraço P.V (R.) o teu blog está no bom caminho.

Pingus Vinicus disse...

Viva João. Percebo a tua ideia. Sabes que no fundo somos os dois da Beira Interior...ehehe! Só que no respeita aos vinhos eu sou mais Dão.

De facto as COOP que tu indicas produzem volumes muito interessantes, mas olha que não há muito tempo a COOP de Figueira esteve na corda bamba e o encerramento à vista. A COOP da Covilhã está ou esteve sem direcção. Mas também te digo que muitos dos problemas destas duas COOP são transversais a muitas outras do nosso país. Não serão serão casos únicos. O problema é que estão no interior e as consequências de possíveis encerramentos são muito maiores do que noutras "regiões mais famosas".

Espero que a sobrevivência da BI como região de (bons) vinhos seja uma realidade e não um sonho adiado. Os beirões merecem que nos outros lados de Portugal se bebam os seus vinhos.

Um abração, Rui Miguel

João Cabral disse...

Sabes bem que eu tambem sou Dão, no entanto temos que ser tambem um pouco bairristas e a Beira Interior onde vivo tambem é a minha terra.

Pingus Vinicus disse...

João, eu sei, eu sei.
Comigo passa-se o mesmo com os Vinhos das Terras do Sado, em especial com Pegões.