quinta-feira, Janeiro 18, 2007

Duradouro

Nada melhor para libertar, soltar a pressão dos nossos dias, do que fazer uma viagem, um passeio pelos sítios que mais gostamos. Sabe bem, reconforta e dá mais vigor para enfrentar o que vem aí, no dia seguinte. Desta vez, peguei nas minhas pernas, nas minhas mãos e fui até ao rio. O rio, aliás os rios sempre me marcaram. No passado foram o Douro, o Mondego. Agora é o Tejo que me encaminha, que me inspira. Foi ao longo dos rios que as civilizações antigas se instalaram, que evoluiram, que morreram.
O cheiro da brisa do rio, numa tarde de Verão é sensação difícil de esquecer. O (meu) refúgio ideal para malhar no calor, na canícula das terras quentes, das encostas lá de cima. Aquele bafo quente, quase que corta/cortava a respiração.
O banho que se tomava naquelas águas refrescava. Limpava aquele pó amarelo. Nas margens, as flores libertavam odores suaves, doces. Envolviam-nos e suavizava o cansaço. De vez em quando, alguém reparava que estavam por ali umas boas silvas carregadas de amoras, bem maduras. Trincavam-se. Que gulodice. O sumo escorria pela garganta, num final meio apimentado. Lá, no alto, os pombais, os palheiros, pareciam libertar o cheiro do xisto, da lousa, da laje.
Parava, olhava, observava toda aquela envolvência, todo aquele mundo. Sentia o leve sussurrar, o discreto murmurar de uma terra cheia de histórias, lendas e tradições. Era como se houvesse por ali, qualquer coisa que não era para eu entender. Mas é aqui que está o início! Pelo menos, parte do meu está lá, aqui.
Na volta, as amendoeiras, as figueiras alinhavam-se milimetricamente, como se tivessem sido colocadas por um matemático.
Já me esquecia do vinho. Um DuraDero, um DuraDouro, que é feito com a nossa Tinta Roriz, o Tempranillo do outro lado do rio. Da Quinta do Portal.
Nota Pessoal: 16,5

11 comentários:

Vinho da Casa disse...

Bravô!!!

Quase que é melhor escritor que enófilo!!

Excelente texto.

Um abraço.

AJS disse...

Caro Pingus. Este texto sobre os rios é digno de nota. Só não o classifico porque de Prof. de Ed. Física para Prof de Mat. ia sair, seguramente, a perder. Os rios são os meus oceanos. São persistentes, obstinados, batalham séculos contra imensas paredes de rocha, até que acabam por as vencer. Entram pelas fronteiras, sem pedir licença ou mostrar passaporte, mesma à má fila. Não andam séculos a ameaçar, sempre para a frente e para trás. Pobres mares. Já agora os Quinta do Portal, meus vizinhos muito próximos, têm aumentado a qualidade. Já agora sugiro um moscatel, com um aroma que é qualquer coisa. Um dia vamos provar. Um abraço. AJS

Anónimo disse...

De facto um belo texto que nos transporta na totalidade até ao local...

1 Abraço

Chapim disse...

E os pombais pingus....

Por isso, pelo Douro e por aquela terra toda tenho q arranjar o vinho que me fascina mais pelo nome: Qt da Leda - Vinha do Pombal 2004. Porque será???

Este fascínio deve-se ao nome. Espero que não me deixe ficar mal. Tenho quase a certeza que não.

Nuno de Oliveira Garcia disse...

Rui,

Esse "Duradero" não é aquele 50% roriz tuga + 50% tempranillo da Ribera?

N.

Pingus Vinicus disse...

De facto, este Duradero é um vinho de mesa feito com a Tinta Roriz, do Douro e com o Tempranillo do Duero
Um vinho muito interessante, com alguma austeridade. Gostei

Pingus Vinicus disse...

Caro AJS, não sei, mas uma das melhores memórias que tenho na minha infância eram aqueles banhos tomados no Douro, lá para os lados de Freixo de Espada a Cinta.
Não sei se costuma comer, mas ao fim da tarde o meu pai e os meus tios (que ainda fazem pesca desportiva) faziam umas brasas valentes para assar umas bogas, uns barbos. Levavam um molho do caneco.

Existem ´"coisas simples" que nunca se esquecem.

AJS disse...

Caro Pingus. Na Foz do Sabor chamamos a isso uma peixada, felizmente existe um tasco onde ainda é possivel comer isso e outra coisa muito saborosa, que são migas de peixe. Uma delicia cobertas com ervas de cheiro.AJS

Copo de 3 disse...

Essas ervas de cheiro não será Hortelã da Ribeira ?

Nuno de Oliveira Garcia disse...

Migas de peixe... deve ser fabuloso!

N.

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Caro Rui

Só espero que textos como estes estejam bem guardados e que um dia sejam reunidos num livro,em cujo lançamento estarei na 1ª fila.

PARABENS

Zé Tomaz