domingo, janeiro 28, 2007

Niepoort vs JPR na Comenda

Atravessamos um momento de paragem. Os desencontros da vida, as agendas pessoais impossibilitaram que o Núcleo Duro (Jorge Sousa, Paula Costa, João Quintela, Francisco Barão da Cunha, Oliveira Azevedo e naturalmente a minha pessoa) se juntasse à volta da mesa e do copo. O dia 23 de Janeiro foi a data escolhida para que a assembleia magna se reunisse. Era importante reflectir sobre novos projectos. Há muito que andávamos em discussões mais ou menos apaixonadas sobre o que deveria ser o novo ciclo de provas. Ideias para ali, ideias para aqui, ficou estabelecido que iríamos realizar a 2ª Volta pelas regiões demarcadas deste recanto europeu. Sendo que o primeiro round decorrerá no próximo dia 28 de Fevereiro.
Como este Núcleo é constituído por enófilos a roçar o fanático, não perdemos a oportunidade para fazer uma prova cega, uma espécie de reentré.
Local escolhido foi o restaurante A Comenda no Centro Cultural de Belém. Os vinhos da noite foram, nada mais, nada menos que Redoma 1999, Redoma 2001 e Redoma 2004, por parte da casa duriense Niepoort e Marquês de Borba Reserva 1997, Marquês de Borba Reserva 1999 e Marquês de Borba Reserva 2003, do produtor alentejano João Portugal Ramos. Dois produtores bem enraizados no nosso universo, com créditos mais que firmados e que dispensam qualquer apresentação da minha parte. Portanto, adiante no desenlace que estamos a perder tempo.
Falemos em pormenor sobre os vinhos em briga. Primeira nota; um dos participantes ficou desclassificado no warm up. O Redoma 1999 estava impossivel de ser avaliado e bebido. Rolha, panos húmidos, bafio era o que oferecia. Lamentável o acontecimento, pois ficamos desfalcados.
Os outros Redomas, 2001 e 2004, estiveram durante toda a noite com comportamentos diferentes, na forma e no conteúdo. Diria mesmo que nada tinham em comum. Não era só a idade, a data da colheita. O estilo, o perfil eram díspares. Enquanto o primeiro (2001) mantinha aquela linha a que estávamos habituados a ver e a sentir. Sugestões silvestres, em que o mineral e o balsâmico marcavam também presença. Uns furos abaixo do esperado. Nota Pessoal: 16,5. No segundo (2004) a performance era completamente diferente. Um vinho desenhado para agradar numa prova cega, principalmente ao Robert Parker. Num estilo mais doce, cheio de caramelo, repleto de chocolate com leite e baunilha. Cativa, mas acaba por cansar dado o discurso monocórdico. Decididamente não gostei desta viragem, apesar de lhe reconhecer qualidade (e muita). Parecia dizer-nos que o passado é mesmo para passar à história. Desculpem-me o plenonasmo. Nota Pessoal: 16.
Os Marqueses de Borba revelaram ter uma forma de estar muito mais homogénea, com níveis de complexidade bastante interessantes. Elegância, equilíbrio eram as matrizes destes vinhos alentejanos. Autêntica realeza. O Reserva 2003, num estilo floral, fresco e fino. Nota Pessoal: 16,5. O Reserva 1999, que dizem ser o patinho feio, conseguiu aliar a pujança com a elegância de forma quase irrepreensível. Bem porporcionado. Sem desvios. Nota Pessoal: 17,5.
O destaque para mim, sem qualquer margem para dúvidas, foi o Marquês de Borba Reserva 1997. Apresentou-se com muita saúde, cheio de vida, vibrante, não dando qualquer indicação dos anos. Um belo exemplo de como devem evoluir os grandes vinhos e este foi o grande vinho da noite (para mim). Nota Pessoal: 18

Resta-me partilhar com todos vós a ementa oferecida pelo restaurante. Sortido de pães, azeite e diversos mousses. Carpaccio de novilho com lascas de parmesão, que estava excelente. Bacalhau à lagareiro. No ponto. Para a sobremesa, um misto de frutas exóticas, crepes e queijo. Tudo em bom nível e sem falhas.
Terminamos com um Casa de Santa Eufémia 20 anos, que estava fenomenal e encerrou com chave de ouro o jantar. Nota Pessoal: 17

7 comentários:

Copo de 3 disse...

Bela prova caro amigo... estou contente porque mais uma vez os vinhos do Alentejo mostraram enorme qualidade e capacidade de aguentarem a passada do tempo... para quem diz o contrário anda a ler muita coisa ao contrário mas pronto... aqui temos mais uma demonstração, e em segundo lugar fico satisfeito pelo resultado, obviamente que atendendo a idade do MBR 1997 muitos vinhos do Douro tão badalados já mostraram que não tem pernas para lá chegar... ou seja quase 10 anos de vida útil.

Paulo Pacheco disse...

Belissima prova.
no fim o casa de santa eufémia humm.
Já provaste o "White Special Reserve" deles?
imperdivel.

Outra questão, para equilibrar aqui o DOURO/Alentejo não deveria ter sido um batuta?

Pingus Vinicus disse...

Oi Paulo, poder podia, só que o Batuta custa uma pipa de massa.
Os Redomas e os MBR andam a ser vendidos a preços sensívelmente parecidos. O que também pode ser um indicador de boa relação preço/qualidade.

Sobre o White Special Reserve não nunca o provei.

AJS disse...

Caro Pingus
As provas quando realizadas em comparação têm destas coisas. No entanto não se pode tomar a árvore pela floresta. Não tenho dúvidas que o Marquês de Borba é um bom vinho, mas daí a tirar as conclusões que o nosso amigo Copo de 3 tira, vai uma grande distância. Os vinhos da Niepport, para quem tem estado atento ao seu lançamento, apresentam características particulares, que se pode gostar ou não. 1º Julgo que a qualidade é indiscutível. 2º As diversas marcas, mesmo o Batuta, não apresentam as mesmas características de um ano para os outros, o que é uma escolha do enólogo, discutível naturalmente. 3º Com esta segunda característica é natural que uns envelheçam com nobreza e outros morram antes do tempo. Já agora estamos a falar de vinhos que na mesma loja comprei por 40,97€ o Mar. de Borba de 99, 42,45 o 00. O Redoma 29,50€ de 02 e 03. Boas provas AJS

Pingus Vinicus disse...

AJS, é verdade o que escreve. Também não gosto de fazer comparações absolutas entre vinhos. Os Redomas para mim têm qualidade indiscutível. Mas notei-lhe uma grande mudança no estilo com o 2004.

Sobre os preços e eles são díspares entre lojas. Por exemplo, paguei o mesmo pelos Redomas e pelos MBR, sempre situados no patamares 28/29€.

Os preços são variáveis muito complexas e que variam muito de local para local.

Copo de 3 disse...

Primeiro que tudo não coloquei nem nunca vou colocar a qualidade dos vinhos em prova, são produtos de dois dos principais nomes da enologia em Portugal.

Segundo, apenas relatei o que me foi dado a conhecer pela prova, de facto as notas falam por si, valem o que valem mas neste caso não vou deixar de dizer que os vinhos MBR se portaram bem melhor e tendo em conta a idade dos mesmos (ainda me lembro que muita gente diz que o vinho do Alentejo não sabe envelhecer, o MBR 97 que o diga)

Sobre este mesmo envelhecimento vou gostar de ver alguns dos vinhos do Douro se chegam a 10 anos de vida útil em garrafa, o Meão 99 anda muito tremido pelo que parece... vamos aguardar pelos restantes.

Sim os Niepoort variam de colheita para colheita, mas e o outros ? Será que os outros não mudam ? Curiosamente os MBR são lançados apenas em anos de excelente qualidade, e apenas conto 97, 99, 2000 e 2003, quantos Redomas temos ?

Kroniketas disse...

Paraseando o nosso amigo "copo de 3", só faltou mesmo dizer que "o Alentejo mostra a sua raça"! :-)