domingo, Março 30, 2008

Jester Shiraz Vintage 2004

Parecia que tinha entrado num laboratório químico. Era pujante o odor a carvão, a alcatrão. Fortes. A sensação preta (a cor do rótulo também ajudou) manteve-se durante muito tempo. Talvez em demasia. Saltou muita azeitona preta. Parecia ter sido embebida em tinta da China. Era preciso muito peito e coragem para enfiar o nariz lá dentro. Mesmo com o copo ao longe sentiam-se os cheiros químicos. Que raios, só extracção? Dava a ideia que tudo tinha sido levado ao exagero.
Foram precisos largos minutos para que mais alguma coisa diferente surgisse no horizonte. Especiaria, chocolate preto bem amargo, umas quantas amoras, começaram a dar sinais. Sempre numa toada forte e longe de ser delicada. Terminou com tosta, com tabaco, com muito fumo.
Acreditem que estive (sempre) à espera que largasse algo mais suave, um pouco mais doce. Nada. Sempre preto, sempre potente, sempre extraído.
Os sabores, para não destoarem, eram pretos, queimados, químicos e amargos. Tive que o colocar de lado e escolher outro para acompanhar o resto do jantar. Não dava. Aquilo assustava qualquer um. Regressei a ele mais tarde. Apesar de mais manso, mais equilibrado, não largou o estilo.
Um tinto australiano (que vem selado com aquelas rolhas de rosca) que tinha comprado algum tempo. Custou-me sensivelmente 15€ num hipermercado.
Fala-se por todos os lados que os vinhos do Novo Mundo se podem beber sozinhos, sem necessitar de comida por perto. Tive azar com este. Nota Pessoal: 14

Post Scriptum: A nota atribuída, por mim, reflecte apenas o meu (quase) total desconhecimento sobre vinhos daquele lado do mundo. O que conheço é muito trivial e com poucos pontos de referência. De qualquer modo, estava à espera de um vinho diferente.

6 comentários:

Copo de 3 disse...

E dá para barrar no pão ? :)

Zé Carlos disse...

De facto, em regra, o problema da crítica nacional é o seu. O desconhecimento do melhor que se faz no mundo. Por estas e por outras, é que o vinho nacional de REAL QUALIDADE representa no mercado global menos do que 0,1%. O resto que vai lá para fora em quantidades que se veja é lixo; rosés, verdes baratos, tawnies de 2 €, etc. Este vinho que provou (e mal) é um excelente exemplo de um Shiraz australiano, de terroir, artesanal e de pequena produção ao arredio de outros oriundos do mesmo país, com milhões de garrafas produzidas mas sem terroir e sem personalidade. 90 pontos Robert Parker e 17,5 da revista de vinhos.
Sugiro que se cultive. Ninguém pode saber se Lisboa é uma bela ou não, se não conhecer Paris, Barcelona, Milão, Roma, Londres, Haia, etc, etc. No vinho é a mesma coisa.

Pingus Vinicus disse...

Obrigado pelos seus conselhos. Vou tentar cultivar-me.
Fiquei a saber que é um belo shiraz.

Zé Tuga disse...

Estou bem desgraçado, com o que ganho nunca conhecerei Paris, Barcelona, Milão, Roma, Haia.
Quando tenho umas coroas vou até Tróia.

Anónimo disse...

Sou pobre.

Outro Tuga disse...

Adoro ler as palavras dos endinheirados.