quarta-feira, janeiro 19, 2011

Exercício Enófilo, O Epílogo

Encerrando a proposta, o jogo, a brincadeira, como queiram, lanço para o tabuleiro os nomes dos vinhos e as pontuações que granjearam. As notas de prova foram retiradas da Revista de Vinhos, sendo sacadas de três painéis de prova feitos com vinhos de regiões diferentes: Dão, Douro e Alentejo. Podem confirmar e verificar se a coisa bate certo, consultando as edições dos meses de Março de 2010, Novembro de 2010 e Dezembro de 2010.

O Vinho 1 que tinha a nota de prova: "Chocolate, fruta vermelha e preta, especiarias, minerais, tosta doce. Firme na boca, com garra, corpo robusto, taninos rugosos, boa acidez e final de muito bom comprimento", era referente a Herdade das Servas (Alentejo) Reserva 2006 e teve a classificação de 16,5 valores. PVP recomendado: 18€
O Vinho 2  que tinha a nota de prova: "Muito elegante, sofisticado, com fruta preta, minerais, tosta, tudo muito integrado. tenso e estruturado na boca, com taninos firmes, corpo sedoso, muito fresco e sedutor, final muito longo." era referente a Passadouro (Douro) Reserva 2008 e teve a classificação de 18 valores. PVP recomendado: 40€
O Vinho 3 que tinha a nota de prova "Destaca-se neste vinho a qualidade geral da fruta que apresenta, a enorme proporção entre as várias componentes, uma grande delicadeza da prova de boca que equilibra potência e subtilezas múltiplas. Um vinho para ir descobrindo e saborear lentamente." era referente a Munda (Dão) Touriga Nacional 2007 e teve a classificação de 17,5 valores. PVP recomendado: 20€
O Vinho 4 que tinha a nota de prova "Fruta preta, madeira evidente mas sem excessos, chocolate minerais, complexo. Encorpado e texturado, com boa frescura, final longo e morno." era referente a Quinta de Vila Maior (Douro) 2007 e teve a classificação de 16,5 valores. PVP recomendado: 29€
O Vinho 5 que tinha a nota de prova "Concentração muito forte de cor, com notas químicas no aroma austero, de fruto preto, madeira integrada. Tudo maduro e cheio. Bom volume de boca, fruta franca, taninos vivos, um tinto muito impositivo que precisa de tempo em garrafa." era referente a Pedra Cancela (Dão) Reserva 2008 e teve a classificação de 16 valores. PVP recomendado: 11,90€

Largando opinião pessoal, existe em quase todos os textos enorme, quase desmedida, concordância de termos e expressões (fruta preta, madeira, tosta, taninos...) o que indicia triste afunilamento nos estilos, nos sabores e nas sensações. Indo de Norte a Sul, podemos sentir o mesmo. Basta seguir a regra que, com menor ou maior dificuldade, temos um vinho dentro dos preceitos pretendidos. Poderia ter pegado noutros exemplos que a conclusão, julgo eu, não seria muito diferente. Para quem consultou as prova realizadas com vinhos do Douro e Alentejo, pela RV, repararam, só por acaso, na constante repetição das mesmas palavras,  dos mesmos adjectivos, das mesmas coisas? Tapando os rótulos, facilmente poderíamos trocar textos que não se notaria a jogada.
Efectivamente nota-se, sendo demasiado visível, que com os escritos despidos da classificação numérica  a similaridade de noções e conceitos ficam ainda mais acentuados. Eu não saberia o que escolher!  
A palavra é menorizada em relação ao número, completamente relegada para segundo plano. Um tique transversal a todos os que falam de vinhos, estejam do lado de cá ou do lado de lá. Solta-se para o ar meia dúzia de conjugações e temos uma nota de prova.  Escrevem-se umas balelas e coloca-se a classificação.   Se assim é, porque se escreve? Faça-se simplesmente um enunciar de números, que será certamente muito menos confuso. Deixemos a Matemática a funcionar livremente.
Recitar, por aí, que o dito tem taninos espigados, tosta doce ou fruta mais ou menos madura, comprimento médio, resssoa, na melhor das hipóteses, a inocuidade. Na pior, a pura banalidade ou a tédio. Com alguém disse, por aqui, com textos destes tanto pode acompanhar com 15 como 18. 
Olhando para o que dizem as palavras, e tentado, não ligar a factores subjectivos, dado que sou um ser influenciável, foi a nota de prova do Munda que prendeu o meu olhar. Segundo os ditos do autor, temos um vinho muito equilibrado, que aposta essencialmente na elegância. Querem mais?

Discutamos, então, mais um pouco!

11 comentários:

Sérgio Lopes disse...

Boa tarde. belo blogue.

Já o acrescentei aos meus links vinícolas.

Cumprimentos,

Sérgio Lopes

http://enofiloprincipiante.blogspot.com/

Anónimo disse...

Vais ficar a falar para a parede, lá isso vais!

Vinhos do Mundo disse...

Bom post este que colocaste. No meu ver, acho que as notas são muito pessoais mas não pode andar a fugir muito das opiniões dos outros criticos, é só saber avaliar um vinho. Mas que os produtores estão quase todos a seguir o mesmo caminho, e que os vinhos cada vez mais estão a ficar muito parecidos aos ditos do Novo Mundo, isso estão, e a meu ver, perdemos alguma credibilidade de região, de saber que aquele vinho é daquela região sem dúvida alguma. Mas isto é a minha opinião.

Antonio disse...

Exercicio interessante, da que pensar. E de facto dificil formar uma opinião definitiva sobre as diferentes questões que abordas. Talvez seja porque a perfeição não existe... (atenção não quero dizer que não devemos procura-la, ou procurar aproxima-la, apenas que com a idade cada vez mais aceito que a realidade esta aquem das expectativas, é a vida como dizem).
Acerca das notas, como alguem aqui disse são um indicador interessante e claro um indicador é de certa maneira uma sintese, simplifica, não reflete tudo. Ai o texto pode ajudar a entender melhor o vinho, mas provavelmente uma nota nunca sera o perfeito retrato do vinho porque para o perceber so provando e mesmo assim...
De resto resta-me felicitar-te pela qualidade dos teus posts, pelos vistos nem sempre entendidos.

Abraço

PS: Ia-te dizer para não ligares aos detractores, mas certamente que não precisas deste conselho. Poésia, enofilia, filosofia, nem todos gostam, mas pelo menos o teu blog tem conteudo e de qualidade. Acho que reflete maturidade e reflexão acima da média. Eu gosto de ler e mais que tudo o importante é tu teres prazer nisto e seres coerente contigo proprio.

Hugo Mendes disse...

Não sendo um opositor às notas quantitativas, na aprexiação de um vinho, acho que estas tem ainda uma lacuna, que é o não contenplarem o estádio do consumidor que as consulta! ou seja. tendemos a avaliar com base ao nosso máximo histórico, que é certamente diferente do do vizinho e muito, mas muito mais do que o critico.
no sentido estritamente prazeiroso da questão, pode muito bem um vinho de 14 valores para o critico, ser um vinho de 18 para o consumidor! ou não?

Pingus Vinicus disse...

Uma das questões que reparei, deu-me para isto, é que em muitos casos os descritivos são na maior parte das vezes muito semelhantes, não conseguindo encontrar palavras, em algumas situações, argumentos que justificassem as notas atribuídas.

A título pessoal, aconteceu-me por diversas vezes esse facto. Escrevia quase sempre o mesmo e depois oferecia ao vinho valores que não tinham qualquer correspondência com o que dizia. Havia qualquer coisa que não estava bem. O que me levava a dar 15 ou 15,5? Quanto vale 0,5? Ou mesmo 1 valor?

Não creio que a análise de um vinho seja o resultado de um processo de tabelas ou fórmulas, dado que estamos a falar de avaliação sensorial e ela é efectivamente diferente de individuo para individuo.

M.S. disse...

Belo Post!!!!

Sinceramente, penso que as notas quantitativas tender a ficar no estado de "Globalização" das palavras ( se é que me faço entender).
A apreciacção tende a ficar generalista, fazendo com que todas as regiões, todos os vinhos, todos os produtores utlizem o mesmo vocabulário.

Pingus Vinicus disse...

Naturalmente e infelizmente uma fatalidade.

João de Carvalho disse...

Frutado e intenso, apresenta ainda algumas notas florais. Um vinho simples, discreto, fresco e leve.

Esta nota foi retirada algures por aí... pergunto eu se o vinho é branco ou é tinto, pergunto também se é isto que se pretende quando se envia uma amostra a um dito critico, gostava de saber se isto que lemos acima é que é ser critico...

PS: Continuo sentado à espera que qualquer iluminado me indique novo palavreado para substituir os ditos indicadores das castas... porque não sei o que falha, será o vinho ou será quem o prova e escreve ?

Compete a quem prova ser competente, saber transmitir as emoções de um vinho é fundamental, uns conseguem isso melhor que outros. Agora, palavras soltas não me identificam um vinho, palavreado mundano não me diz se o vinho é isto ou aquilo, é ler e ficar na mesma... tal como leio a nota de prova que meti.

Pingus Vinicus disse...

Olha JPC, no meu caso, sou eu que falho, porque dou comigo, muitas vezes, a dizer tudo trocado. Na verdade, e sem qualquer sentimento de humildade bacoca da minha parte, não sei quais são os descritores de cada casta. :)

Mas já agora onde tiraste a nota de prova?

Abílio Neto disse...

Pingus,

Muito bem, muito pedagógico e reflexivo (não faz mal a ninguém, acho, pensar as coisas e até escrever sonhando e pensando!).

Venham mais.

Abr.,

An