Quando era puto ao passar pelas montras, via uma mão cheia de brinquedos que julgava impossíveis de existir. Olhava, olhava, babava-me, com o nariz encostado ao vidro. Eu queria aquilo.
Outras vezes, em casa de presumíveis amigos, ficava maniatado quando espreitava ruborizado as pistas de comboios, as pistas de carros, as pequenas cidades montadas. Olhava, olhava. Não sabia brincar com aquilo.
Outras vezes, em casa de presumíveis amigos, ficava maniatado quando espreitava ruborizado as pistas de comboios, as pistas de carros, as pequenas cidades montadas. Olhava, olhava. Não sabia brincar com aquilo.

Regressava a casa e contava o que tinha visto. As palavras saíam da boca cobertas de ficção. No meio das histórias, iam surgindo encapotados vários pedidos. Os sobrolhos dos meus pais indicavam a impossibilidade de aquisição. Regressava à cama, suspirando pelo que tinha visto. Uma loucura.
Transpostos muitos anos, reparo que os brinquedos cobiçados estão transformados em vinhos desejados. Detenho-me, durante largos minutos, a mirar as prateleiras repletas de garrafas luxuosamente rotuladas. Fazem-se contas à vida, contam-se os tostões. Porra, será que passados mais de 30 anos, confronto-me, novamente, com a impossibilidade.

Volto a entrar em casa de amigos, volto a encarar coisas conhecidas (como se fossem os brinquedos da montra ou de um catálogo luxuoso). Tinha, apenas, uma vaga ideia da sua existência. Também, agora, fico recluso, incapaz de provar e beber com a liberdade necessária. As mãos tremem, o suor corre pelas ventas, com medo de não gostar, de não saber interpretar o que está dentro do copo. Olho, acanhado, para o lado e reparo que os outros actuam de forma, estranhamente, natural, sem aparentes sinais de nervosismo. É obra.

No meio de toda aquela luxúria, senti que ninguém arriscava comentários assertivos. Qualquer palavra solta vinha camuflada de cautela e desculpas. Pairava na atmosfera uma forte incapacidade para questionar os vinhos. Seriam, de facto, inquestionáveis?
Para evitar esquecimentos, da minha parte, prendi os vinhos nas fotos. Para meter pirraça, ficam disponíveis aqui. Não deixam de ser brinquedos expostos numa montra.
Notas de prova? Nem um traço foi escrito pela minha manápula.
Comentários
E não digas que quem ri por último ri melhor que meteste o Mouchão.
E não podes dizer que no meio é que está a virtude que a conta é par :)
Não escreveste porque não gostaste?
Provaste de todos ou por outro lado bebeste e não te importaste com o resto?
Rui quando percebi que a noite era para desfrutar com toda a calma do mundo coloquei rapidamente e de lado o meu caderninho de apontamentos. Muito rapidamente deixámos de provar para passar a beber.
Os vinhos foram surgindo aos pares
Abraço
Brinquedo Bom, Vinho Bom?
ou
Em vez de comprar um carro telecomandado devia ter comprado um pião? Se calhar divertia-me mais.
De certeza que foi puro deleite esta prova.
PS: Só queria saber a forma do Pera Manca 97