sexta-feira, abril 13, 2018

Peixe em Lisboa: Até um dia!

Tenho ido, quando posso, ao Peixe em Lisboa. Era mais uma oportunidade para comer algumas coisas assim mais para o diferente. Gostava muito, curtia mesmo, quando era no Pátio da Galé. No Pavilhão Carlos Lopes não tenho gostado tanto. Senti, na pele, enormes mudanças no ambiente. Não consigo concretizar melhor. É algo se situa no domínio do íntimo. Posso, por isso, estar a ser injusto.
Voltei lá. Senti que não pertencia àquele lugar. Senti-me deslocado. O evento é demasiado elegante e social para mim. Não consegui desfrutar da ocasião, como no passado. Senti-me mal vestido, mal amanhado. Com uma indumentária pouco adequada ao lugar. 
Está colocado, pareceu-me, num patamar económico-social que não é o meu. Não é uma crítica ao evento. Não quero sequer fazer qualquer dissertação sobre assuntos que não percebo puto. Não vale a pena, por isso, virem para cima de mim. Sou daqueles gajos que apenas quer desfrutar, sentir-se confortável. Mas senti-me perdido.


Não quero falar do que comi, porque se está no universo das opções. As minhas. Podia ter escolhido outra coisa. Mas foi o que foi. Mas caramba, uma coisa são doses pequenas, de degustação, outra coisa são os hologramas. E pareceu-me ver muitos. 
Relativamente ao vinho, epá, fiquei com a ideia que para se beber algo mais decente e interessante é preciso subir muito na escala do preço. Acabei por beber um branco leve da Estremadura (dois euros) que foi mais barato que uma garrafa de água. Por isso, quando as relações acabam, costuma-se dizer: foi bom enquanto durou. Até um dia!

quinta-feira, abril 12, 2018

O Queijo e o Vinho

Nos tempos em que achava ser fino beber vinho, principalmente o tinto, a prática era emparelhar o queijo com o tinto. E para não fugir à moda, ao que se fazia na altura, também comia queijo e bebia vinho tinto. Digamos que era mais uma estratégia para me imiscuir no meio, ser aceite e fingir que percebia do assunto. Se calhar, até elogiei a combinação ou publiquei fotos, naquele lugar onde vamos, todos, bisbilhotar. Digamos que não foram momentos sentidos.

Olhem, experimentem o vinho. Não conhecia. Gostei. Estava bem balanceado, era fresco e untuoso. E acima de tudo, deu prazer, que é o que (me) importa. Voltaria a comprar.
Assumo, agora, que nunca gostei (muito) de beber vinho tinto e comer queijo. Mas fazia-o. Seja qual for o queijo ou o vinho, não gostava. A boca, a minha, ficava toda meia lixada. Dir-me-ão que há certos vinhos tintos que combinam com certos queijos. É possível, mas nunca fiquei convencido, nunca consegui obter verdadeira satisfação. Nunca.


Decididamente, para mim, a aliança perfeita é com vinho branco, com ou sem estágio em madeira ou com mais ou menos idade. Desta forma, sinto paz na boca, o corpo reage de forma mais pacífica. Tudo parece encaixar muito melhor. A frescura do vinho abraça a gordura do queijo e do enchido, já agora, de uma forma quase irrepreensível. Um espumante, pela experiência que vou tendo, também não fica nada mal. Mas por favor, nunca mais me dêem queijo com vinho tinto. É preferível comê-lo uma cerveja, tipo mini.

terça-feira, abril 10, 2018

Nota de Prova Cega

Proponho-vos um simples exercício. Geralmente quando vemos notas de prova, surgem (quase sempre) acompanhadas pela fotografia do rótulo e é este, creio eu, que nos influencia verdadeiramente. Concordando ou discordando, é o rótulo do vinho que acaba por ser a variável com maior relevância. A par da classificação. Muitas vezes, nem damos a devida atenção ao que se escreve, ao que se diz sobre o vinho em si. Fixamos, depois, se no final levou dezoito ou dezanove. E pimba, é este ou aquele que vamos comprar. Bom, na verdade e nos tempos que correm, um dezoito já não chega.
E se as notas de prova fossem despedidas de rótulos? Teríamos a mesma reacção? Provavelmente não. Os inputs seriam muito menores.


Mas voltemos à proposta que chamo de Nota de Prova Cega. Pedia-vos que lessem as seguintes passagens. São notas de prova que retirei, sem qualquer alteração, de uma revista da especialidade. Estão despidas de rótulos, dos nomes dos vinhos e das respectivas classificações:

1) Nariz algo fechado, notas de tosta e fruta madura, cheio, poderoso na substância que tem ainda guardada. Encorpado na boca, mas sem pesar, ambiente mineral e com um estilo polido e profundo. Conjunto muito sério que vai crescer bastante com o tempo. In VGE - Janeiro de 2018

2) Intenso na cor, fruta madura de grande qualidade, notas de tosta, todo ele cheio, amanteigado. Muito bem na boca, com volume, grande estrutura e de final muito prolongado. Bastante sofisticado. In VGE - Dezembro de 2017

3) Muita azeitona e eucalipto na primeira impressão, balsâmico e químico, concentrado no aroma. Denso e bastante cheio na boca, compacto, muito sólido, a mostrar grande estrutura e classe mas a precisar de muito tempo em garrafa para relevar. Um vinho de futuro. In VGE - Março de 2018

As perguntas, essas, são do mais simples que pode haver: Comprariam os vinhos? Estão alinhados com as vossas tendências? Despertam curiosidade? De que região será cada um deles? São brancos ou tintos? Qual seria a classificação que dariam aos vinhos (0 a 20)?

terça-feira, abril 03, 2018

Tenho pena...

Tenho muita pena que não seja fácil. É com pena que não vejo estes vinhos na capital do império. É com pesar que a malta anónima, como nós, não consiga beber estes vinhos, com a facilidade que seria desejada.
São vinhos que não prendem as atenções dos mais famosos, sejam eles quais forem. Mas não dão fama e nem glória. Os padrinhos dos eventos e das amostras encaminham os gajos que têm opinião, mesmo que seja mal verbalizada, para outras coisas. A força do marketing, das empresas de comunicação e publicidade empurram a malta, e a malta gosta, para vinhos e produtores de passarelle (que também os bebo).


Estes vinhos, existirão outros tantos assim, têm uma enorme dignidade. Estão muito bem feitos, dão muito prazer, têm personalidade e são diferenciados. São muito escorreitos, frescos e secos, com um registo muito particular. Têm bem impresso o cunho do Dão. E para tesos, como nós, são vendidos a muito bom preço (este branco custa menos de cinco euros, nas áreas comerciais da região).


Como disse uma vez, se fossem vinhos de uma COOP mais badalada, mais paparicada, mais burguesa, mais bonitinha, tivesse gente mais urbana à sua frente, eventualmente a realidade seria bem diferente. É que mais vale cair em graça do que ser engraçado.

segunda-feira, abril 02, 2018

Não é para ler...

Por vezes, gostaria que fossem mais, sou tratado como um príncipe. A espaços, tenho a fortuna de me aconchegarem a alma e o corpo com verdadeira comida. Com aquela comida que nos faz relembrar de onde viemos, quem somos e do que somos feitos. São momentos íntimos, de profunda introspecção. Não têm anda a ver com aquelas cenas bem decoradas, vagas de sentimentos, cheias de nada, onde os gajos mais bonitos, afilhados de uns poucos, se entretém a registar e a mostrar ao povo, que os vê de boca aberta. Nada a ver.


Sentar numa prosaica mesa, onde no meio está um tacho atascado com comida com uma feiura que nos apaixona, mais uns bocados de pão num cesto de vime, forrado por uma renda, e uma garrafa de vinho, leva-nos para lugares e estados que existiram, em tempos. É a glorificação da inocência. 


A um ritmo lento, vamos enchendo o corpo, vamos sarando as feridas que teimam a abrir, de tempos a tempos. Fica-se reconfortado. Espreita-se, volta na volta, lá para fora. Se chover e fizer frio, melhor ainda. Ficamos seguros que estamos no nosso lugar.


Naquele lugar que nos protege e afasta daquela sujidade que nos conspurca, que nos agonia. Levantamos-nos da mesa, apenas, quando o tal tacho estiver rapado e a tal garrafa estiver sem pingo. E com pança cheia. São, simplesmente, coisas para se viverem e não para ler. Não dão glória e nem fama. 

quinta-feira, março 22, 2018

Casa da Passarella: O Enólogo Encruzado

Às vezes, até fico admirado comigo. Ainda por cima, um gajo que não quer saber, na maior parte das vezes, do que os outros pensam ou acham sobre aquilo que escrevo ou publico, se gostam ou não, se ficam incomodados ou não. Ou se preferem outros. Epá, dei comigo, de forma (in)consciente a ter mais parcimónia, mais cuidado, a esconder muita coisa. Cum carago, não pode ser. 


Há algum tempo que não bebia um vinho da Casa da Passarella. Não há um motivo em particular, pois é público e sabido que acompanho com especial atenção, desde a sua refundação, tudo o que vai saindo de lá. É escusado, portanto, alongar-me mais nesta matéria.


Sabe-se, para quem anda em cima de todas as novidades, que a colheita de 2016 já está no mercado e segundo o que se vai lendo, por aí, está austero, contido e elegante. Tudo aponta para ser o melhor O Enólogo Encruzado. Mas também que tenho que vos dizer que o 2015 está, neste momento, um mimo. Com tudo integrado, bem afinado e elegante. Com a madeira harmonizada, muito equilibrado e, acima de tudo, sadio. Nada taciturno. Digo-vos que o bebi, sem favor, com enorme satisfação e prazer. Daqueles, permitam-me ainda, que se bebem assim num clic. Por isso, mais houvesse, no momento.

terça-feira, março 20, 2018

Um Imperativo: Quinta de Sanjoanne Terroir Mineral

Meus caros, se há vinhos que deviam existir no supermercado, este é um deles. Não por serem vulgares, longe disso, mas porque devíamos ter direito a eles, ali à mão de semear. Digamos que devia ser  um imperativo, um direito de todo o cidadão que goste de beber uns bons copos. 


Deviam existir, para termos acesso a eles, a qualquer altura do dia, da semana, do mês. Não termos acesso a este vinho, de forma ilimitada, devia ser uma luta da sociedade copofónica. Que se faça uma petição.


É escandaloso o preço a que este vinho verde, sem gás e sem açúcar, é vendido (mas por favor, não o aumentem) nos locais onde se encontra. Ronda, mais coisa menos coisa, os 5€. Um vinho com um equilíbrio assinalável, com uma sensação de frescura, de limpidez que nos deixa impressionado. Muito fino e elegante, em que as notas cítricas e minerais insurgem-se de forma veemente. É tanto por tão pouco, como alguém já disse.

sexta-feira, março 16, 2018

Cortes de Cima: Chaminé

Falemos de coisas terrenas, daquelas que estão ao alcance do povão. Dediquemo-nos um pouco aos vinhos que a malta anónima compra, para ir bebendo no seu prosaico dia-a-dia. Malta que querer beber um copo, ao final do dia, na sua mesa, numa simples bucha, com ou sem amigos. Sem ligar puto às novas tendências. Têm prazer e, olhem, andam felizes.


Apesar de o fazer, questiono-me regularmente sobre o interesse que tem, dizer ao mundo que bebi, às vezes são apenas umas gotas, uma porra que é toda XPTO e que apenas um punhado de gajos conhece ou saliva, só de olhar para os rótulos. Actos de exibicionismo, de auto-satisfação.  É um facto que um post feito com aquele vinho mais exclusivo, quase holográfico, dá direito a muita curiosidade, a muita visita e a uma boa sacada de likes. Quem não gosta de mostrar que a sua é maior que a do outro? Coisas da vida.


Sem qualquer pudor, sem qualquer medo de ser relegado para categorias mais irrelevantes, afirmo-o aqui publicamente que curti este vinho branco. Surpreendeu-me. Fez-me dizer em voz alta, perante os que estavam ao pé de mim, que estava a gostar. Gostei do impacto da fruta, curti a frescura na boca. Não estava, de todo, à espera. Diverti-me com a sua alegria, com a forma quase bipolar como se comportava, ali algures entre um alentejano maduro do interior e um alentejano viçoso e mais leve da costa.  Malandreco de um raio.

segunda-feira, março 12, 2018

A Liberdade

Provavelmente expectável. Comprovadamente influenciado. Decididamente parcial. O António Madeira não precisa de qualquer apoio meu. Muito menos de empurrões. Fez-se à vida, à sua maneira, e desde de 2011, ano da primeira colheita, que vai cimentando o seu nome, bem como a qualidade dos seus vinhos, com a enorme ajuda do jovem Luís Lopes.


Sem grandes rodeios, sem mais delongas, sem mais prelúdios, atrevo-me a dizer que terá sido o melhor vinho branco que bebi, até ao momento, neste ano de 2018. Fiquei impressionado, não vou ter qualquer cuidado nas minhas palavras, a liberdade assim o me permite, pela sua grande profundidade e complexidade.
A limpidez da fruta, a curiosa untuosidade e cremosidade que possuia, a dimensão da frescura e a forma como foi evoluindo, ao longo de dois dias e mais qualquer coisa, mostrava-me que tinha ali um vinho bem pensado, bem construído e estruturado. Feito com tempo e muita paciência, julgo eu, terá sofrido, imagino, o mínimo de intervenção.


O resultado, no que me diz respeito, é o de um vinho que me encheu as medidas, que me deixou estarrecido e seduzido, que conseguiu apresentar, no actual estado, um nível de potência e elegância, que só se atinge lá em cima, no topo da pirâmide. Viciante.

quarta-feira, março 07, 2018

Quinta do Corujão

É sempre com enorme satisfação que reencontro os vinhos da velha Quinta do Corujão. Vinhos que representam um momento, uma altura da vida de um gajo. Tempos em que percorri tudo que era canto e recanto na região do Dão. Principalmente ao longo da rota do Mondego. Foram épocas cheias de descobertas e redescobertas, em que tudo me parecia bem mais genuíno.


É sempre com enorme regozijo que vejo que estes vinhos ainda mexem, ainda vibram. Vibram de frescura e de vida. Estão ainda cheios daquele carácter mais clássico, que nos desconcertam pela sua (falsa) simplicidade.


Comportam-se à mesa como todos os vinhos se deviam comportar. Não estão ali para empatar, para chatear um tipo. Pelo contrário. Estão ali para acompanhar a comida e a tagarelice. 

segunda-feira, março 05, 2018

Quando vou ao Supermercado

Este é um daqueles vinhos que compro, com muita regularidade, quando vou ao supermercado. Sabe sempre bem, fica sempre bem numa mesa, à refeição. E que, não esquecer, consegue ser transversal. A malta gosta e ninguém se chateia. 


Sem ser banal, muito longe disso, consegue-se com este vinho uma boa dose prazer, sem matar a cabeça em demasia. Tem frescura, tem nervo, tem volume. Tanto serve para os que se armam em connoisseur, como para aqueles que não querem cá saber dos temas que se discutem nos bastidores do vinho. 


Pode-se tornar, no entanto, muito perigoso. Um tipo, se tiver com a companhia certa, é capaz de abrir umas quantas, enquanto houver comida e conversa para desenvolver. Os problemas vêm depois, isto é: as dores de cabeça. 

sábado, março 03, 2018

O Pedro Garcias anda perto!

Terá sido o melhor artigo de Pedro Garcias, nos últimos tempos. Ele aproxima-se, cada vez mais, da realidade. Do que se passa nos meandros do vinho. Espero, anseio, que vá mais longe. Devia, aliás, ter ido mais longe.
Só não vê, quem não quer. A critica de vinhos em Portugal não existe ou é, assim, uma coisinha muito ligeira. Existem, acima de tudo, divulgadores de eventos, de marcas, de prémios e fazedores de notas de provas. Sempre sem qualquer rasgo opinativo. Já nem considero aqueles que se entretém a divulgar, quase exclusivamente, as press realeses. 
Fala-se, mas não se critica, não se dá opinião. É compreensível. Podem-se perder amostras, jantares, almoços, passeios ou eventuais patrocínios. Pode-se deixar de ser convidado para ser jurado, num determinado painel de prova. Já viram o que era não meter uma foto com o seu nome no facebook, a assinalar a sua presença em mais uma prova? Podem-se perder fins-de-semana, com tudo pago. É muito mais fácil, andarmos de elogios em elogios, desde que pingue vinho e refeições. 
É com muita tristeza, assumo publicamente, que vejo os meus pares bloggers a vergarem-se e a submeterem-se a uma lógica, que chegaram a criticar nos bastidores. É com tristeza que vejo que se acomodaram e se sentem bem. Percebo. Vai pingando, sempre, qualquer coisa. 


É com muita pena, que não vi, ainda, nenhum produtor dizer que são eles que pagam esta treta toda: revistas, eventos, provas, refeições e visitas dos fazedores de opinião. Estarão agarrados pela bolsinha? Não é o consumidor, certamente, que paga isto tudo. O consumidor, essa entidade estranha, nem sabe do que se passa. Compra o vinho signature que há no Continente ou noutro lado qualquer. 
Mas o vinho e o seu mundo não são uma excepção. Somos confrontados, todos os dias, com estas vicissitudes, noutras áreas. Discordar é encarado como sinal de mau carácter, como sinal de pouca formação pessoal. É a vida, como se costuma dizer.
Pedro, também te digo, o que interessa é andar na crista da onda. Esquece o resto, que só dá dores de cabeça. Venham as palmadas nas costas, que são o que importa. É que o mundo português é pequeno e toda a gente se conhece. Sejamos, por isso, felizes.

Post Scriptum: Ainda ninguém me disse, como se sustenta uma revista de vinhos. Pela publicidade? Pelo número de exemplares vendidos? Pelos eventos que se promovem? Por tudo junto?