segunda-feira, agosto 03, 2015

Pequei 70x7

Setenta vezes sete será, provavelmente, o algoritmo mais conhecido do mundo ocidental. Alude a uma eventual troca de palavras entre Pedro e Jesus, em que o primeiro pergunta ao segundo quantas vezes deverá perdoar alguém. O segundo, presumível mestre do primeiro, retorque que deverá absolver setenta vezes sete. Sabendo que o produto de setenta por sete é, apenas, quatrocentos e noventa, fica a ideia que um simples humano esgotaria o stock de perdões e/ou pecados de forma muito célere. Ambos possuem uma relação biunívoca. À época quatrocentos e noventa seria, talvez, um valor considerável. 

Adrian Brouwer, autor belga.
Eu pequei mais que setenta vezes sete. Pequei, porque não quis saber de copos, bebi amiúde vinho servido pelo jarro. Peguei em taças, levantei, por mais que uma vez, o jarro atestado com omnipresente vinho da casa e brindei incessantemente despido de quaisquer tretas ou porras finórias. Bebi repetidamente. Engoli ao balcão, acompanhado por um pires de uma coisa qualquer, desembuchei à mesa com valentes tragos de afamados vinhos indiferenciados, provavelmente vindos do pacote, de um velho e decadente barril ou da ultra-moderna e urbana box.

Adrian Brouwer, autor belga.
Actos de liberdade, quiçá provocatórios, de não querer saber o quer que seja. Que se lixe, pensei repetidamente, não quero saber, insisti. Desde que viesse fresco, bem gelado e adamado. Pequei mais que 70x7, mas não peço perdão por nenhum dos pecado. Voltarei, por certo, a pecar. 

domingo, agosto 02, 2015

Ares de Liberdade

Liberdade é dizer não, é deixar de andar atrás do circo, onde grande parte do que se diz e se pensa é inócuo, vazio, carregado de lugares comuns e inconsequentes. É marimbar para uma porrada de coisas que pouco ou nada importam. Liberdade é quebrar os grilhões do quer que seja


Liberdade é dizer, simplesmente, não quero saber, não interessa. Liberdade é caminhar sozinho, longe das filas, do barulho, profundamente despreocupado se um dia for esquecido. Liberdade é dizer não! Liberdade é dizer sim, apenas, quando apetecer. Liberdade é poder sonhar que vou conseguir. Um dia.

sexta-feira, julho 24, 2015

Beira Interior: Os Brancos

Tenho olhado com alguma atenção para os vinhos brancos da Beira Interior, principalmente para aqueles que provêm das cotas mais elevadas, mais frescas, bem como dos paralelos mais a Norte. Reparo mais para os brancos, porque os tintos parecem-me algo descaracterizados, ainda com pouco carácter, salvo excepções, e aparentemente pesados e alcoólicos, principalmente nas áreas mais quentes e nas margens mais alentejanas da região, apresentando poucas mais valias. A argumentação centra-se, é claro, no universo da percepção pessoal, como tal estará repleta de falhas, derivadas do desconhecimento de toda a realidade. 

Elegante, airoso, cristalino. Perfumado, fresco e tenso.
Regressando ao enfoque da coisa, apraz dizer que nos arrabaldes mais nortenhos e montanhosos da Beira Interior, sinto que existe uma enorme vibração na produção de vinhos brancos, podendo tornar-se, quiçá, the next big thing. Começam a surgir vinhos excitantes, finos e equilibrados. Profundamente frescos. Nota-se que existe coerência, alinhamento, percepção do que se quer e no que se deseja.

Será curioso observar a sua evolução.  Parece ter estrutura, volume, robustez capazes de segurar o vinho no futuro. O rótulo está muito bem conseguido.
Nota positiva para a CVR da Beira Interior que paulatinamente tem tentado, através de pequenas acções, simples, dar maior visibilidade à região. Resta, agora, os produtores, pelo menos alguns deles, não sei, tentarem olhar para os seus vinhos (tintos) e perceber qual é a mais valia que possuem, o que de novo poderão trazer ao consumidor. Fazer igual e descaracterizado, não é o melhor caminho. Vá lá, evitem os erros dos outros, não deleguem, intervenham no processo, pensem no querem oferecer. Ainda estão no princípio, mas não demorem, correm o risco de ficar esquecidos nas calendas e agarrados ao epíteto de eterna promessa.

sexta-feira, julho 17, 2015

Saudável estado de Leveza

Não há nada melhor do que sentirmo-nos leves e livres. Livres de pesos desmedidos e de objectivos tresloucados. Leve, voava-se para mais longe, consegue-se ir mais além, bastando abrir as asas e seguir para a frente. Estar leve, solto e livre, nem que seja no domínio do interior, permite olhar para uma porrada assuntos, problemas, dúvidas ou angústias de outra forma. De uma forma simples e/ou simplória, sem cinzentos pelo meio, em que pouco importa o que se faz, como se faz, se gostam ou desgostam.

Delicados, finos, airosos, saudavelmente simples e profundamente leves.

Sobra o mais importante: uma saudável e desejada sensação de alívio. O resto ou resquícios de um mundo que não interessa, ficam lá para atrás, cada vez mais longe. Sonha-se, apenas, com o que poderá surgir finalmente, de uma vez por todas, adiante. Liberdade.

quarta-feira, julho 15, 2015

Conciso

Respeitando o nome dado vinho, o significado do adjectivo, apraz dizer de forma concisa, sucinta e breve o seguinte: Sim, gostei do vinho! Gostei mesmo do vinho. Epá, gostei francamente.


Só mais uma achega: quando conseguir juntar novamente umas coroas, voltarei a comprar o vinho. Pronto, já está! Era mesmo só isto.

segunda-feira, julho 13, 2015

Bons Ares

Urge mudar de ares, respirar outros ares. Outras aragens. Está-se saturado e pouco tolerante ao que vejo e ouço. Principalmente com os eternos deslumbramentos deste ou daquele. Apetece estar, simplesmente, amuado, calado, sossegado, sem que alguém me venha questionar o quer que seja. Não apetece responder, falar, justificar. Dizer ou pronunciar um simples monossílabo. Estou rezingão. 

Elegante, fresco, profundamente feminino. Saudavelmente leve. Airoso. 

Demoram a vir outros ares, diferentes destes que rodeiam-me dia após dia. Tardo ir embora e dizer até ao meu regresso. Um regresso que demore o tempo suficiente para vir com a alma e o corpo carregado de ares bem mais saudáveis, de ares menos complicados, menos sufocantes. Simplesmente outros ares. Ares que sejam Bons Ares. 

terça-feira, julho 07, 2015

Auto da Inutilidade

Vim até aqui para ver se tinha deixado alguma coisa desarrumada, se estava algum papel fora do lugar. Estava tudo no mesmo sítio, da mesma maneira, sem que nada estivesse em posição indevida. Sentei-me, por demorados minutos neste lugar, a olhar para o mundo, para o que se passa em redor.

Um espumante que serviu para soltar a língua e a alma. Adequado ao momento.
Tudo na mesma, tudo igual, tudo como sempre. Nada de novo à minha frente, tal como aquele soldado alemão soterrado na imundice das trincheiras da grande guerra e que tinha como entretém, apenas, mirar os pássaros e desenhá-los.

Um espumante em perfeito estado de harmonia. Melhor ele, do que eu.
Sente-se e observa-se a profunda inutilidade de tanta coisa, de um avantajado aglomerado de nada, de nada que valha a pena. Resta, somente, abandonar este lugar de vigia, por agora, na esperança que haja esperança de um dia ser tudo diferente e que dos torrões de terra, quase estéril, nasça algo de novo. Até lá vagueia-se, num profundo estado de inutilidade.

sexta-feira, junho 26, 2015

Espumantes

Após uma célere passagem pelos tablóides, para ver quais eram as novidades do momento, deixo-vos aqui duas ou três considerações irrelevantes, mas que servirão para distrair um pouco, a mim, e entremear com outros escritos bem mais importantes. 

Perfeito blockbuster. Um todo terreno. Um vinho profundamente seco, vegetal e viciante. 
Gosto dos nossos espumantes, independentemente do que se faz lá fora. Gosto de beber os nossos espumantes, tenham bolha com diâmetro grande ou pequeno. Gosto, porque são multifacetados, porque têm apetência para refrescar, acompanhar comida, seja ela qual for, para ajudar a trautear qualquer coisa. Gosto porque parecem-me bons, correctos, personalizados e com uma matriz muito portuguesa. São nossos e pronto.

Nos últimos dias, julgo ter perdido a conta ao número de garrafas abertas deste vinho.  Sintomático.
Nada melhor que ter um espumante fresco, sempre preparado para domesticar estas ou aquelas angústias que vão teimando em insistir. É que depois de um ou outro trago, fica-se naturalmente mais aliviado.

sexta-feira, junho 19, 2015

Real Companhia Velha: O Branco das Carvalhas

Apetece-me dizer impropérios, vociferar sobre qualquer coisa, sem regras e sem cuidado no verbo. Elevar ao extremo, sem cuidado qualquer, a libertinagem. 


Quero libertar a língua e dizer que o que me apetece, sem rodeios. Se discordarem, não liguem, relevem para segundo plano. São palavras de alienado, de um tipo que julga segundo critérios obscuros e tendenciosos. Sem regra e sem método. Ou amo ou odeio. Não existe meio termo. O meio termo é, apenas, sinal de submissão, de quem não julga com paixão e se esconde numa discutível independência. 

Branco de 2012
Este vinho está bom. Este vinho é muito bom. Soube-me, porque caiu bem, pela vida que nunca hei-de ter. A complexidade de sabores e de cheiros era enorme. Uma intensa sucessão disto e daquilo. Com garra, com intensidade, com classe. Um vinho, que se lixe, quase perfeito. Esvaziada a garrafa, despida de qualquer réstia de vinho, instalou-se aquele fatal estado de ebriedade, que nos eleva a estádios de felicidade desmedida. 

terça-feira, junho 16, 2015

Pagar para fazer!

Devo dizer que divirto-me, um pouco, quando leio comentários elogiosos sobre alguém que faz alguma coisa. Naturalmente, é meritório para quem arregaça as mangas, vai à luta e leva avante um determinado projecto. Mas poucos o fazem com regularidade e sistematização. É de louvar, sim senhor. No entanto, a maior parte das vezes, são quase sempre fogachos matinais. Divirto-me, apenas, porque dá a ideia que são o último grito de alguma coisa, quando na verdade anda meio mundo a copiar outro meio mundo. 

Tão simples quanto isto: Meia dúzia de tipos procuraram no mercado as diversas colheitas Quinta do Roques Touriga Nacional para poderem provar. Vieram, portando, das mais diferentes proveniências. E ainda, por cima, convidaram o produtor. 
Fico, também, meio angustiado com tanto nervosismo e alarido como aquilo ou isto fosse a tal última novidade. Como se mais ninguém tivesse feito ou fosse fazer. Depois como tudo, o berreiro é potenciado ou não, consoante os interesses de determinado grupo, alinhamento ou postura. Uma questão, portanto, de clubite.

Quinta dos Roques Touriga Nacional 1995. Num estado fantástico. 
Elogio, perdoem-me o abuso, é quem paga para fazer. Pague para ter acesso, para perceber o que é e o que não é. Pague o que tenha que pagar, o que for preciso pagar para provar este ou aquele vinho. 

É um produtor incontornável na região do Dão. Os seus Tourigas estão num elevado patamar de qualidade. Naturalmente surgiram variações entre garrafas. Cada garrafa veio de uma proveniência diferente. Eram vinhos reais. Pessoalmente destaco as colheitas de 1995, 1996, 2002, 2005, 2008, 2010 e o promissor 20013.
Fala-se em enofília, em blogosfera, em apaixonados, em consumidores, em interessados pelo vinho, mas raramente se referem aqueles que, sem patrocínios, metem as mãos à obra e concretizam o que pensam, o que querem, pagando para ter. Fala-se de tudo e mais alguma coisa, mas poucos, muito poucos, sacam do guito que têm no bolso para viverem aquele momento, para terem aquela prova, o quer que seja. Isto sim, meus caros, devia ser mencionado, referido e elogiado. Puros actos de cidadania enófila. Mas tenho que concordar que é muito mais fácil receber caché, para participar ou fazer.

quarta-feira, junho 10, 2015

Saudades

Dizem que somos um povo que vive coberto de saudades de tudo e mais alguma coisa. Na verdade, sempre irritou este lado melancólico, estupidamente pachorrento, meio saloio, meio beato, alcoviteiro e caceteiro que se cola na pele e que insiste em caracterizar-nos. Basicamente uns desgraçados.


A saudade serve, apenas, para justificar falhas, incompetências e erros que se vão cometendo ao longo de uma vida, enraizando, desta forma, a incapacidade para dar a volta, tornear a questão, sacudir o problema. Vivendo de e com a saudade, fica-se confortavelmente sossegado, num banco de uma esquina, à espera que algo aconteça, repetindo vezes sem conta para quem está ao lado: antigamente é que era bom. E aponta-se aos outros as falhas e falta de coragem que tivemos. Desta forma, ficamos livres de qualquer responsabilidade.


Choraminguices de lado, há coisas que deixam efectivamente saudade. Saudades, por exemplo, de termos sido imortais, algures no tempo. E, por que não, já agora, saudades dos verdadeiros vinhos. Dos vinhos que eram inextinguíveis. Agora, tudo parece tão efémero e tão despersonalizado, tão desinteressante, tão enganadoramente perfeito. 

domingo, junho 07, 2015

A assertividade trauliteira

Quando a dúvida se instala cada vez mais, quando o cepticismo começa a ganhar raízes, devo dizer que admiro, cada vez mais, aqueles que ao coberto daquilo que julgam ser convicções bem fundamentadas, emitem opiniões com uma assertividade que faz estremecer o maior dos incautos. A sua assertividade é tão impetuosa, que crêem profundamente estar a desempenhar um papel messiânico, revelando que a luz certa não é aquela que vemos, mas é outra que não descortinamos, devido a uma profunda cegueira conjunta. 


Tenho que concordar, olhando para a história, que todos os movimentos filosóficos, religiosos foram em determinada altura, seitas com meia dúzia de gatos pingados aparentemente tresloucados da realidade, mas possuidores de uma visão sobre um futuro melhor. Por isso, é perfeitamente plausível que acreditem que um dia, determinadas minorias, se possam tornar em verdadeiras correntes de pensamento, capazes de influenciar centenas, milhares ou milhões. Mas para que o sejam de facto, é necessário que toquem no coração das pessoas pela graciosidade, pela paixão desbragada, se possível, e não por um conjunto de actos puramente trauliteiros e teimosos.