sexta-feira, janeiro 19, 2018

O Poder da Imagem

Existem imagens que escusam palavras a acompanhar. As palavras, essas, que são muitas vezes incapazes de descrever o que se vê e o que se sente, quando olhamos para determinada imagem. Tornam-se inócuas e desnecessárias. 


Por vezes, a intensidade da imagem é de tal ordem que consegue agarrar-nos, assim sem mais nem menos. Ficamos parados a olhar para ela. Estáticos e embebecidos, sentindo um conjunto de reacções ao longo do nosso corpo. Umas mais aqui, outras mais acolá. É o chamado poder da imagem que vale por mil palavras, como disse Confúcio.

quinta-feira, janeiro 18, 2018

Carrocel

E quando num acto irreflectido, sacas de uma garrafa, a bebes sozinho e te delicias com ela. É o quê? O anúncio diz que é impulse. 


Bebes o vinho, muitas vezes acompanhado por uma simples vianda, sem qualquer preocupação com a combinação ou maridagem como dizem os gourmets deste mundo.
Vais engolindo trago após trago, a ritmo cadenciado, caminhando para um estado de letargia, onde não existem confusões, amarras e nem comprometimentos sociais. Entras literalmente num carrocel de liberdade.


Quando caem as últimas gotas do vinho no copo, páras, observas e dizes para contigo: Que porra de vinho! 

segunda-feira, janeiro 15, 2018

Vinha de Santa Ana: A Insustentável Leveza do Ser

Ora bom dia! Naquele registo em que achamos que influenciamos alguma coisa e que os produtores passam a vender muito mais, por causa das nossas palavras, permitam-me aconselhar mais um vinho. 
Depois de uma ou duas provas fugazes, este fim de semana tive a possibilidade de me dedicar a este vinho com toda a tranquilidade. Com a minha tranquilidade, à minha maneira, com os meus modos. Com a minha forma de olhar para o vinho e acompanhado pela minha pessoa. É o que me importa, ao fim ao cabo.


O vinho é profundamente coerente com o historial do produtor. Não somos confrontados, em tempo algum, com qualquer desvio ao que estamos habituados e ao que é expectável.


Muito limpo, cristalino, com muitas sensações ou estímulos, como queiram, que nos reportam para climas frescos, húmidos, com muita pedra. Muito leve e sadio. Acima de tudo, repleto de equilíbrio e finura, o que nos diz que perderia num confronto directo contra aqueles vinhos mais intensos, gordos e kitados. Ou que seria preterido se fosse provado ou bebido em clima de prova cega, que tantos adoram. Depois, porque também é importante, ficou a sensação que o tempo vai contribuir para enriquecê-lo, amadurecê-lo, torná-lo mais adulto, como é tradição com este produtor. Temos vinho, por isto tudo e mais alguma coisa.

quinta-feira, janeiro 11, 2018

Declaração de Interesses ...

Adoro-te! Preciso de ti. Gosto da tua potência, do teu volume. Gosto da forma exagerada como te comportas. Percebe-se que não és delicada, que gostas e necessitas de intensidade. Não há meio termo para ti. Fofuras não são contigo. 


Quando estás quente, és profundamente lasciva, decadente e húmida. Adoro as tuas extremidades. Crocantes. Combinam lindamente com a suculência do teu interior. Quando estás mais fria, consegues manter, por muito tempo, todo aquele lado libidinoso e travesso que tens, desde a primeira hora. O tempo dá-te outra dimensão. Chamam-te de queijadinha, mas tu replicas Sou uma Queijada. Tens razão. E eu digo que és a melhor Queijada de Requeijão do Mundo

terça-feira, janeiro 09, 2018

Quinta dos Roques Reserva Branco: O Primeiro

Sem grandes delongas, porque o produtor escusa apresentação. Digamos que é a primeira colheita de um branco reserva da Quinta dos Roques. E para primeiro lançamento, a coisa não correu nada mal. Pareceu-me estar perante um vinho que prima, acima de tudo, pela harmonia, graciosidade, equilíbrio e parcimónia de aromas e sabores. 


É um daqueles vinhos simbióticos ou de espectro alargado que consegue convencer ou agradar a bastante malta, sem perder o seu cunho regional. A frescura está lá. Um vinho, portanto, profundamente coerente e em conformidade com o que já conhecemos deste produtor. Gostei muito da forma como se deixou beber à mesa. Sem esmagamentos, sem potências. Muito mais num registo cavaleiresco, gentleman. 


É vinho que merece, pareceu-me, ser mandado para a cave para enriquecer ainda mais, para harmonizar ainda mais, para limar esta ou aquela aresta que possa estar, ainda, mais aguda. Creio, e vale o que vale, que é capaz de se tornar, lá mais para a frente, em mais um vinho de referência na região do Dão. Bom, assim que puderem, comprem e bebam-no.

segunda-feira, janeiro 08, 2018

O Quê? Domaine Montanet-Thoden Bourgogne Vézelay 2014

Andei a remoer se havia de espetar aqui no meu pasquim, as tradicionais fotos de um vinho que quase ninguém conhece e que eu também desconhecia. É que questiono-me, vezes sem conta, sobre a vantagem de falar de vinhaça que a maior parte da malta não faz ideia do que é ou nem sabe onde encontrar. Se juntarmos a isto o (muito) limitado número de leitores e seguidores que acompanham o que expelimos, torna a coisa ainda mais, sei lá, inútil. Dilema do caraças. Bom, pelo menos dá a ideia que bebemos umas cenas diferentes e exclusivas.


Como dá para perceber, desconhecia o produtor. Não sou daqueles gajos que conhece a literatura toda na ponta da língua sobre quem é quem, onde fazem os seus vinhos, onde estão as vinhas, que fazem assim ou assado. E dificilmente o serei. Comprei, por isso, o vinho à sorte. Foi um tiro preciso, entre outras tantas opções disponíveis. 
O vinho surpreendeu-me muito. Sem gastar uma pipa de massa (foram 16€, se não me engano), bebi algo que me encheu as medidas. Surpreendeu-me pela sua pureza, pelo seu lado cristalino, pela simbiose entre a fruta, mais ou menos gorda, e a frescura. Acidez tão bem colocada. Tudo muito bem envolvido e arrumado. Sem ser um estrondo de vinho, arrisco a dizer que é um vinho com muita personalidade, com muito carácter e com capacidade para envelhecer com muita dignidade (e melhorar muito mais). Na verdade, até o achei ainda jovem e perro. Até pareço um critico a sério. Vou seguramente comprar mais vezes.


Este vinho, para os mais curiosos, enquadra-se num conjunto de outras escolhas que tenho feito e investido, nos últimos tempos. São escolhas que se enquadram numa onda, , mais natural, menos intervencionista, mais free. E posso dizer-vos que ando profundamente satisfeito. Agora, não me perguntem por nomes. A maior parte não os memorizei. 

domingo, janeiro 07, 2018

Ide à Tasquinha do Rio!

Sou daqueles gajos que tem, sempre, os sentimentos à flor da pele. Gosto, não gosto. Apaixono-me, desapaixono-me. Gosto de emoções, aprecio aquela tensão que a paixão me dá. O meio termo lixa-me os miolos. Detesto, fico lixado, com a porra das palavinhas mansas. Detesto malta que se melindra. Bazo logo e que cada um vá à sua vida. Mais à frente a malta volta-se a encontrar. Se der.
Consumo o que consumo sempre por causa de motivos sentimentais e pessoais. Deixo de consumir ou preferir também por razões sentimentais e pessoais. A vida, a dada altura, não deixa margem a fretes.
Conheço Setúbal desde sempre. Frequentei e frequento Setúbal, pelas mais diversas razões.  Houve tempos em que era frequentador assíduo das tascas, no sentido literal do termo, da terra da sarrdinha e do carrapau. Entretanto, afastei-me da cidade. Comecei a achá-la demasiado betanizada, incaracterística, massificada, com a sua frente ribeirinha degradada e abandonada. Este afastamento era quebrado, apenas, para ir aos viveiros de marisco, para comer o tradicional choco frito ou salmonetes. Aliás, não existem melhores salmonetes que os de Setúbal. É em Setúbal que temos de ir comer os salmonentes.

Setúbal está, no entanto, a mudar. Está mais viva, começa a mostrar sinais de rejuvenescimento. A restauração está, parece-me, a acompanhar esta mudança. Surgiram, também, bares de vinho, gastro bares ou pubs, boas garrafeiras. As opções começam a ser muitas. Contudo, raramente fugia do circuito mais tradicionalista do choco. Pancadas.
Descobri a Tasquinha do Rio, por intermédio de um compincha. Pedi-lhe conselhos sobre locais para petiscar, para picar isto e aquilo. Ele avançou com meia dúzia de propostas e perante uma pergunta directa, respondeu-me que gostava muito da Tasquinha do Rio. Ainda por cima, segundo ele, era espaço onde o vinho era bem tratado. Dispararam as sirenes. É aqui que vou. Está feito, está decidido. Se não gostar, se for uma treta, se for um fiasco, certamente o Valter iria ouvi-las.


Espaço pequeno e profundamente acolhedor. Saltou à vista, a minha, a simplicidade do ambiente, bem como aquela sensação de asseio. Pouco mais que meia dúzia de mesas aconchegadas, numa superfície pouco maior que a minha sala de estar. Apreciei a tranquilidade, a possibilidade, vejam lá, de poder falar com todas as pessoas que estavam em meu redor. Adultos e crianças. Só nós ocupámos, num ápice, metade dos lugares.


A comida assentava numa simplicidade de sabores, de aromas que me deixou estonteado. Tudo bem balanceado, equilibrado e bem temperado. Sentia-se que havia mão. Mão de cozinheira. Aquela mão de mãe que sabe transformar a coisa mais simples em algo com uma enorme complexidade. Ia caindo na mesa um pouco de tudo. Umas tiras de choco muito boas, bem fritas, secas e sem gordura, um pica-pau do caraças, umas gambas com alho perfeitas, umas costeletas de borrego que eram, simplesmente, divinais. Eram manteiga na boca. Porra, terão sido as melhores costeletas de borrego que comi nos últimos tempos. Pura pornografia.
Ainda trinquei um niquinho de pernil de porco assado no forno, não sei se era do lote da Venezuela, que me deixou de queixo caído. Desfazia-se com a colher. A pele, bem tostada, era hino ao pecado. Era uma ovação a tudo aquilo que faz mal, mas que sabe muito bem. E ainda houve tempo para uma bela costeleta de javali. Grelhada na perfeição. Um autêntico desfile de pequenos enormes prazeres. Ah! Esperem, ainda se limparam umas soberbas e bem temperadas codornizes. Foram a sobremesa.


E o vinho? Bem tratado. Podia-se olhar em redor e percebia-se que ali gostava-se de vinho. Não havendo uma lista infindável de referências, era possível descortinar algumas das mais conhecidas e badaladas. E, vejam lá, até havia vinho do Dão :) Reparei no MOB, no Villa Oliveira, no Pelada Mulher Nua, ... E naturalmente bebi vinho do Dão, mas também do Alentejo (o saudoso Altas Quintas). Os copos eram do melhor que há. Irrepreensíveis.
Bom, resumindo a coisa que isto hoje está longo, apraz dizer que fiquei muito apaixonado pelo lugar. Vou voltar. Irei lá, outra vez, para experimentar o outro lado. O lado dos tachos e das panelas. Dizem, segundo consta, que é assim algo inesquecível. E por favor, continuem assim. Não se abandalhem.

terça-feira, janeiro 02, 2018

Terras do Mendo: Le Petit Pellada

Não sei se, após os fogos de 2017, este produtor continuará a existir. Se se extinguir, desaparecer, atrevo-me a dizer que será uma perca considerável para a região do Dão. Sou um adepto confesso dos seus vinhos brancos. Diria que os seus vinhos brancos (acho que só existe Encruzado) são um autêntico tesouro, quase intacto, ou um segredo, muito pouco conhecido, por entre aqueles que gostam de mamar uns belos copos de vinho. Vendidos a um preço muito abaixo do seu valor real. Bastaria que tivesse outro rótulo, para custar mais meia dúzia de euros.



Este 2015, apesar de profundamente jovem, ainda muito irrequieto, ainda meio perro, mostra, sem qualquer margem para dúvidas, um enorme carácter, sobriedade e uma frescura acutilante. Cheio daquelas impressões que os sábios dizem ser minerais, vegetais e citrinas. Depois, exagerando ou não, pouco importa, este vinho, a espaços, dava a ideia que era, na verdade, um Pellada, um Saes ou um Primus, sei lá. Tipo uma marca branca de Álvaro Castro. É assumidamente um Le Petit Pellada que aconselho, a quem me segue, que comprem, provem e guardem, sem qualquer receio. Ele não vai morrer tão cedo.

segunda-feira, dezembro 18, 2017

O Pingus aconselha...

Este ano não irá sair a lista ou selecção mais aguardada por todos. A minha. Ainda pensei, como nos outros anos, juntar-me ao grupo de malta que selecciona, nesta altura, os seus melhores vinhos e os apresenta como um best of e os aconselha para as festividades da época. Desta vez, não me apetece. Não tenho vontade. Não quero. Circulam, por todo o lado, as mais diversas escolhas. E são muitas. Cada uma delas, a mais importante. 

A autoria da foto é deste gajo.
Aconselho, apenas, que bebam os vinhos que vos saibam bem, que gostem. E aqueles vinhos que vos souberem melhor, serão certamente os melhores vinhos. Depois, se for possível, tentem escolher as pessoas que se vão sentar ao vosso lado, durante este período. Tentem não fazer fretes. Façam os possíveis para se borrifarem para o que os outros acham ou deixam de achar e sejam (muito) felizes. Sejam, antes de tudo, livres. Livres no pensamento e obrem para a doutrina e para o que os outros pensam de vós (de nós). O resto deixem fluir, sem grandes dramas.

sexta-feira, dezembro 15, 2017

As Ovelhas Negras

Ser a ovelha negra e por vezes ranhosa (ou ronhosa) é não necessariamente mau ou pejorativo. Começo a acreditar que ser ovelha negra e ranhosa (ou ronhosa) é, na maior parte das vezes, sinónimo de estar farto da mediana, da norma, do que a multidão quer. Saturado do barulho, do balir das outras ovelhas. 

Profunda Elegância, suavidade, frescura, limpeza...
Começo a achar que a ovelha negra e por vezes ranhosa (ou ronhosa) só quer caminhar de forma diferente do rebanho. Ir por outros caminhos. Diferentes.

segunda-feira, dezembro 11, 2017

Gostei! Gostei Muito! Soube-me muito bem...

Gostei! Gostei Muito. Soube-me muito bem. Aguentou um peixe assado no forno. O peixe era de aviário. Foi o que se arranjou. Mesmo assim, foi caro. Disseram-me que, apesar de ser de aviário, era criado de forma diferente. Bom, na verdade, como muitas vezes peixe de gaiola.



Este estilo de vinho é incomensuravelmente superior ao dito clássico. Apraz dizer, portanto, que não sou um tipo com inclinações clássicas, no que respeita ao produtor. Aqui, neste caso, temos vinho a saber a vinho e não a um aglomerado de frutas tropicais. E era só, para hoje.

quarta-feira, dezembro 06, 2017

Pelluda da Pellada

Só para dizer que é vinho que sabe literalmente a vinho. Já viram a idiotice da coisa? Um gajo abrir uma garrafa, completamente descansado e despreocupado, e reparar que o que sai lá de dentro é um liquido que sabe mesmo a vinho. Que disparate. 



Fiquei lixado. Acreditem! Ser confrontado com um vinho. Um vinho! Assim, sem mais nem menos. É uma fraude, ter que beber um vinho. Que brincadeira de mau gosto. Vou reclamar por causa deste enorme imbróglio que me criaram.