sexta-feira, abril 29, 2016

Since 24 de Abril de 2006

O que ando aqui a fazer? O que pretendo com isto? O que afinal pretendo? O que queria ou quis ao longo destes anos? Atrevo-me a dizer que quis tudo e ao mesmo tempo não quis nada. E num acto sincero de contrição, reparo que as alarvidades cometidas foram tantas que perdi a conta. Posso dizer, hoje, que tenho vergonha da maior parte delas. Revejo incessantemente o que disse e noto que o disparate e a boçalidade foram a norma. Julguei-me engraçado e ridiculamente conhecedor.
Dez anos depois e após tanta cabeçada na parede, faz-me impressão ouvir ainda dizer que tenho um blogue (agora é perfil de facebook) por mero prazer, porque quero apenas partilhar, sem qualquer interesse, porque gosto apenas, não querendo, vejam lá, nada em troca. Soa a quase sempre a intrujice. Nunca ouvi dizer, nem baixinho, que quero vencer, porque quero ser aquilo que quero ser. Qual é o mal querer a sombra de uma palmeira? 


Ao fim de dez anos, faz-me confusão não saber a opinião de quase ninguém, perceber que quase tudo chuta para o lado para não marcar golo. De propósito. Faz-me impressão, cada vez mais, a surdina, a falta de frontalidade e a merda dos jogos de interesse. A viscosidade que vai molhando o chão, ao contrário do que cheguei a pensar, é cada vez maior. 
Com o advento das messiânicas redes sociais, potenciou-se ainda mais a inocuidade e a frugalidade, bastando ser bonito ou estar acompanhado por gente bonita, ser presumivelmente porreiro, ser eventualmente fixe e não ter assumidamente convicções sobre nada. Convém também não esquecer que o direito de opinião não é para todos. É e continua a ser privilégio de poucos.
Apetece dizer, ao fim de dez anos, que muito pouco mudou. Apenas o envoltório tem um aspecto mais bonito.  

quinta-feira, abril 28, 2016

Why Social media doesn't sell wine

O titulo desta resenha não é meu. É um aproveitamento de um artigo  partilhado pelo João e que comecei a ler há poucas horas, e que irei escamotear pessoalmente com calma, ao longo do tempo e sempre que o tempo me permitir. Contudo, pareceu-me, pertinente partilhar, lançar a discussão sobre o assunto que não vai acontecer. 


Ainda assim ficam aqui algumas passagens: "Social media and wine were fun a half decade ago. Even bottle-wank accounts (shots of a single bottle and nothing else) were amusing to look at it. There was a good deal of interaction, even if it was ultimately meaningless digital farting in the end because after all, a little farting now and again feels wonderful. Retweets on Twitter were aplenty and likes on Facebook even more so. Then things started to change.
The first problem started when Twitter introduced the “like” to copy Facebook. This was the beginning of the end for Twitter as people “liked” things more than retweeted them and thus there was much less dissemination. And again, this goes back to the opening paragraph because the passive use of likes versus the assertive use of retweets took over and people’s account were much more just their own broadcasting as likes were done out of sight. If some yaphole was constantly pitching his own book and not putting out interesting retweets because he just “liked” everything instead, it suddenly got a lot less interesting and by “less interesting” I mean, “super shitty.”
There was also “social fatigue” that set in. If you look at the Twitter account of Catavino and see that they have 49,000 followers, you might assume that this is something impressive. The truth is, their followers have been dropping off steadily at a rate of 1,000 a year and their retweets and likes are paltry for the number of eyeballs that they in theory reach. Even if they reached 10 likes on a tweet, that would still only mean participation 0.0002% of their total followers."
Resumindo vivemos em plena ditadura da contagem dos gostos, das caras bonitas, das poses excêntricas. A importância de cada personagem virtual ou não, em muitos casos, não é definida pela qualidade de argumentação, do arrojo, do nível de intervenção, e muito menos pela capacidade para criar e construir qualquer coisa, mas sim pelo número de vezes que aparece aqui e acolá e a consequente ressonância através dos imprescindíveis likes que vai obtendo. Começa a parecer-me que estamos perante uma (i)realidade repleta frugalidades, na maior parte das vezes. E sim, também eu começo a ficar fatigado. Entretanto, bem ao estilo tugalês, vamos assobiar para o lado. Eu, agora, vou contar os meus likes.

terça-feira, abril 26, 2016

Flor das Maias Branco 2012 - Remake

É repetido? Já falei dele por mais que uma vez? Sim e não ficarei por aqui. Estou perante um dos vinhos brancos mais surpreendentes, para mim, que foi feito no Dão nos últimos tempos. Possuidor de uma estrutura férrea, com uma frescura pujante e a demonstrar uma capacidade de evolução bem acima da média. 


Após, sei lá, dois/três anos após a primeira vez que o bebi, apresenta-se mais maduro na idade, é certo, mas ainda carregado de tiques de mocidade, de irreverência. Com muito nervo e com muita vida. E prova após prova, continua a impressionar-me.


Registo apenas o facto de não compreender a razão por não ter sido colocado nos píncaros, por quem escreve e decide quem é o melhor ou não. Apraz dizer, por isso, em jeito de conformação: sobra mais :)

quarta-feira, abril 20, 2016

From LIDL with Love

Sou cliente do Lidl! Sim, frequento regularmente esta cadeia de supermercados. Não frequento com sentimento de voyeurismo, mas para comprar de facto. E compro muita coisa. E os vinhos estão no grupo dessas coisas que costumo comprar. Não são todos, é verdade, mas são alguns.


Este é um feliz exemplo do que adquiro regularmente, para beber de forma descontraída, sem sentir que estou a beber qualquer coisa inócua, sem qualquer rasgo de interesse, que é pouco mais que nada.
Não sei se é manipulado, batido, chocalhado, alterado, trabalhado, ou se leva madeira a sério ou outro derivado. O que importa é que o bebo com (muita) satisfação, durante a semana, seja ela qual for, cumprindo todos as normas que estabeleço: prazer pessoal.


Acrescento que é dos poucos casos em que um vinho com um preço inferior a 4€, nas grandes superfícies, merece algum destaque da minha parte.
E desculpem lá se vos decepcionei, mas nem sempre de ECI vive um homem.

terça-feira, abril 19, 2016

Primus

Há dias que não apetece dizer nada. Simplesmente nada. Talvez vociferar. Talvez. Apetece apenas beber sem grandes porras, porque o vinho, este, não precisa, nem quer, que se perca qualquer tempo com superficialidades banais. Do tipo verbo de encher.


Por isso, resumo este flash a algo profundamente simples: Um grande vinho do Dão, onde a delicadeza e a subtileza são dados do seu cartão de cidadão (ups!). Com uma profundidade e equilíbrio estonteantes.


Posto isto, apetece somente mandar o mundo para o raio que o carregue, desejando que o estado de ebriedade chegue o quanto antes. Ao menos e por momentos, afastamo-nos da intrujice que nos rodeia e que nos desgasta e agasta. No outro dia, logo se verá. 

quarta-feira, abril 13, 2016

Vergonhoso, Questionável, Enganador ou nada disto? (Parte II)

Para provar ao povo que os descontos são verdadeiros e não um embuste do tamanho de qualquer coisa que não sei dizer ou medir, a maior garrafeira do país, onde o Dão é Beirão, voltou a reposicionar alguns dos seus vinhos no valor real. Temos, então, a prova provada que a promoção é mesmo promoção e que vale a pena aproveitar as campanhas promocionais. Tanta promoção!


Apraz dizer o seguinte: coitados dos incautos que irão comprar no período de não vigência das tais promoções a quase cem por cento. Não o façam, por favor! Em breve, muito em breve, voltarão a ter promoções ou descontos que tornam este e outros vinhos quase grátis. Isto é, colocam-nos no patamar certo de custo. Tenham calma, pois poderão, daqui a pouco, comprar um vinho premium a preço de entrada de gama ou ainda menos.

quinta-feira, abril 07, 2016

E é isto...

É pena que não existam (e dificilmente existirão) em Portugal múltiplos projectos com enfoque na verdadeira critica e na análise real de qualquer coisa, de modo a fomentar, de facto e efectivamente, a competição e a livre escolha. Que proporcionassem o incremento de verdadeiras correntes de opinião e de pensamento, em que o contraditório fosse considerado como algo natural. Que ajudasse a montar ou desmontar as mais variadas teses.
A diversidade e o confronto de ideias são (ou deviam) ser condições essenciais para que uma sociedade evolua de forma saudável, solta de todo e qualquer constrangimento, onde não houvesse receio em pensar de forma diferente. De querer este ou aquele caminho. A escolha, quando acontece, leva-nos na maior parte das vezes ao isolamento, ao ostracismo, à troça colectiva.


A malta acaba por encolher-se a dada altura, amochando a cabeça junta à relva, encostados a um centro, sem nos desviarmos um só milímetro do carreiro do rebanho. Levantamo-la, apenas, para a fotografia. E assim continuamos amontoados, sem dizer coisa de jeito. Se espirrarmos um pouco mais alto, olham de lado para nós. Fomos mal educados.

quarta-feira, abril 06, 2016

Villa Oliveira: A Vinha do Províncio

Foi difícil, se não impossível, ficar indiferente. Há-que dizer mais uma vez, antes de continuar, que continuo a ficar surpreendido pela evolução que os vinhos brancos nacionais estão a sofrer, para melhor, nos últimos anos. Atrevo-me a dizer que podemos correr o risco de relegar para plano subalterno os congéneres vinhos tintos. Pessoalmente é que tenho feito nos últimos meses ou anos. 


Proveniente de uma vinha velha específica, com diferentes castas, sem predominância de umas sobre outras. Um autêntico field blend. Com uma vinificação semelhante aos vinhos tintos, proporcionando desta forma, perdoem-me a linguagem simplória, mais volume, mais estrutura, mais longevidade, mais complexidade. E menos exuberância. Muito menos empatia imediata.


É um vinho branco com um forte carácter sénior e masculino, possuidor de uma força de ferro, abastado de frescura, tensão e com um caudal que impressiona. Ganha com o tempo, eleva-se com a decantação, surpreende pela aptidão que possui em surpreender, de facto, desde o primeiro copo até à última gota. Um vinho branco feito como se fosse um tinto, mas que é felizmente um vinho branco. 

terça-feira, abril 05, 2016

Quinta das Bágeiras e Mário Sérgio

A leitura é minha. A interpretação é minha. A análise é minha. Errada, enviesada ou mal compreendida, a dedução das palavras de Mário Sérgio Nunes é da minha pura responsabilidade.


Durante uma breve visita à Quinta das Bágeiras, onde foi possível conhecer mais de perto as instalações onde são feitos os diversos vinhos deste produtor, o que retive, para além dos vinhos provados, foram as palavras ponderadas e equilibradas do guia turístico do momento: o próprio Mário Sérgio. Ao contrário do que seria de esperar, em tempo algum, pareceu-me, ouvir afirmações de desdém sobre outras visões, modos ou maneiras de fazer um vinho. Não ouvi, sou franco, dizer que a minha maneira é que está ou estava certa e os outros estão ou estarão errados.


O que importava, note-se este aspecto, é que os vinhos não apresentem defeitos crassos ou, em última análise, não se idolatrem, por exemplo, vinhos eventualmente naturais ou biológicos ou biodinâmicos, só porque são simplesmente isso (palavra que coloco em itálico). Principalmente quando estão, algumas vezes, carregados de imperfeições imperdoáveis (raciocínio meu). Como também não se devem diabolizar aqueles que seguem outro caminho. Até porque, todos os vinhos, em última análise, são manipulados, trabalhados, preparados com um objectivo e um propósito bem definido. Para mais tarde, fica outro conceito que anda aí na berra e que foi levemente tocado: vigneron. Categoria que parece agradar a muita gente.
E quando se esperava um rol de argumentações em defesa de um modo de estar como se fosse uma verdade única e indesmentível, é-se confrontado com uma postura completamente liberal e universal. Até porque, palavras minhas, o que muitas vezes parece não é e vice-versa.


Sobre os vinhos, que acompanharam de forma irrepreensível o almoço, será escusado tecer longos comentários, descrevê-los de forma exaustiva, replicando, por certo, a maior parte dos comentários que se fazem sobre eles. São conhecidos por grande parte dos que seguem estes meandros. São vinhos com carácter vincado, sendo por isso quase impossível ficar indiferente a eles. Todos em elevado nível. Em jeito de súmula, fica registado uma linha de pensamento, uma postura, uma forma de estar, que (quase) me fizeram gostar ainda mais dos vinhos de Mário Sérgio.

sexta-feira, abril 01, 2016

Quinta dos Carvalhais Reserva Especial

Digam o que disserem e o que apetecer, mas o carácter de um vinho é também avaliado pela falta de consenso que provoca, pelos amores e desamores que origina. É relevador, creio, de personalidade vincada. Gosta-se ou não se gosta. Não existe meio termo, não existem nins. É isto que aprecio e que ainda vai dando gozo aos muitos copos que vou bebendo. Umas vezes aprecio, outras vezes nem por isso.


De lado ficam os vinhos que sabem bem em todos os cantos, que todos gostam, que são bons no frio, no calor, no sul ou no Norte. Já não há muita paciência para estes últimos. Ou melhor não há muito a dizer sobre eles. São assim. Na verdade, não tenho labaça para andar com o copo na mão, tempo indefinido, em busca de uma coisa qualquer que não se sabe muito bem. Mas pronto, finge-se que se quer ser conhecedor.


Gostei deste vinho! Pouco importou se tinha um estilo especifico, se falhava aqui ou ali ou se precisava desta ou daquela comida para que tivesse mais sentido. Gostei e gostei muito. Gostei por causa de tantas coisas e ao mesmo tempo por causa de nada. Simplesmente não é, não foi, um vinho que provoque indiferença. Pelo contrário e ainda bem.

quinta-feira, março 31, 2016

Quanto custa fazer um vinho?

Não sendo uma pessoa particularmente impressionável, devo dizer que fico perplexo com o preço a que alguns vinhos são vendidos. Este estado de perplexidade é válido tanto para vinhos estupidamente caros, como para vinhos ridiculamente baratos.


Se nos mais caros é aparentemente (in)compreensível, julgo e acho eu, os motivos e as razões de determinado preço, nos mais baratos não consigo descortinar, por muito que tente, a relação entre os custos e os (eventuais) lucros. Se é (quase) impossível ficar indiferente perante um vinho que custa dezenas e centenas de euros, na melhor das hipóteses, o mesmo se passa com vinhos que custam meia dúzia de centavos. Sendo fenómenos profundamente opostos, ambos deixam-me a pensar.

terça-feira, março 15, 2016

Quinta de SanJoanne: Escolhido há 13 anos atrás

Há momentos em que não são precisas grandes deambulações, grandes coisas para dizer textualmente e perante testemunhas: Grande Vinho! Ou vinho da noite ou daquele momento ou daquela altura. Daquelas sensações que arrebatam, que nos levam a dizer para connosco esquece lá o resto. É este e pronto. Não valia a pena estar com meias medidas, com meias palavras ou com grandes justificações. É assim mesmo.



Registei e ainda registo o facto de ter estado perante um vinho branco com treze anos de idade, que apresentava uma força descomunal, um vigor indescritível, com uma forma inatingível, quiçá, pela maioria dos vinhos brancos portugueses. Afirmação tola, exagerada e despropositada? Pois que seja, pois que seja.