quinta-feira, julho 12, 2018

Se um tipo experimenta ...

Verdade seja dita, se uma pessoa tem a sorte de tomar conhecimento com qualquer coisa(sita) que seja assim para o mais diferente, corre um sério risco de não querer voltar ao que já conhecia.


Ficamos sem motivação para regressar à normalidade. Nem queremos saber dela. Olhamos para o que temos e achamos que tudo é banal e com pouco interesse. 


E na maior parte das vezes, nem é preciso muito para perceber(mos) que o mundo é, de facto, muito maior e mais interessante do que pensávamos. Mais valia ter(mos) ficado quieto(s). Ao menos anda(va)-se feliz no meio dos nossos hábitos rotineiros e chochos, como se nada mais houvesse. É que já sabemos o que temos, com o que contamos e não ficamos desassossegados. 

sexta-feira, julho 06, 2018

Quem nunca?

Num mundo dominado pelas redes sociais, uma das práticas mais correntes, de todos nós, é mostrarmos o melhor, o mais requintado, o mais caro, o mais exclusivo. O mais difícil e o mais bonito. Transmitimos a ideia que a realidade, de todos nós, é esta e não outra bem mais prosaica, bem menos vistosa, bem mais monótona. Bem mais mundana. A vida real, essa, não a mostramos. Fica escondida. Mostramos apenas alegorias, projecções daquilo que gostaríamos de ter.




Quem nunca fez uma vianda, a partir de qualquer coisa que estava no frigorífico? Quem nunca pegou numa gamela e enfiou lá para dentro meia dúzia de coisas indiferenciadas e as transformou em algo, feio à vista, mas com enorme sabor?




Quem nunca foi ao supermercado e ao hipermercado e pegou nisto e aquilo para fazer uma tachada de comida para a família ou para os amigos, e a colocou em cima da mesa, para a satisfação de todos? Dir-me-ão que nunca. Só eu.

quarta-feira, julho 04, 2018

Isto está ...

Continuando a silly season, fazendo um esforço para não chatear muito a malta, porque a malta é serena e quer ser feliz, o que apraz dizer é, por conseguinte, muito pouco. 


Por isso, meus queridos seguidores, atentos e desatentos, tenho que partilhar com vocês que este vinho, quase por estrear, está do caraças. Tem tudo e mais alguma coisa e por todas estas razões, digo-vos que é para comprar sem qualquer constrangimento, porque isto está bem porreta, como dizem os nossos amigos brasileiros. 

quarta-feira, junho 27, 2018

Era só isto

Bem ao jeito da época que estamos a atravessar, vulgo silly season. A malta, na maior parte das vezes, esquece que um dos principais fundamentos de beber vinho é ter prazer, é curtir, é alegrar a alma e o espírito. É levitar. E que muitas das vezes é o momento é que dita a regra. Chateia-me, deveras, ter que gostar ou dizer bem de uma bodega qualquer só porque A, B ou C ou todos juntos dizem que é assim. 


Gostei e gostei. Soube-me (muito) bem. Acompanhado por umas cenas indiferenciadas, colocadas na mesa de forma aleatória e sem qualquer preocupação combinatória, fui aviando a garrafa, até descobrir que a tinha esvaziado. 


Quis lá saber se ele, o vinho, era assim ou assado. Se tinha corpo, estrutura, muitos cheiros ou sabores. A idade anda a tolher-me os sentidos e a paciência. Era só isto.

segunda-feira, junho 25, 2018

As conservas

Epá ando doido pelas conservas. Gasto cada vez mais dinheiro neste tipo de alimento, roçando, em muitas ocasiões, o exagero e o extravagante. Não há semana que não experimente uma marca nova.


A qualidade das conservas em Portugal está a atingir um nível muito elevado, preços inclusivé, acabando por tornar este tipo de comida, que antes era sinónimo de refeição fácil e barata, em algo cada vez mais exclusivo. Na verdade, alguns preços situam-se já no demencial. Basta andar pela capital do Império, chamada de Lisboa, para vermos no que se transformou o negócio da conserva.


Sempre fui um comedor de conservas, mesmo no tempo em que elas não passavam de algo trivial, com pouca variedade. Nesse tempo, tínhamos que saltar até Espanha para ter acesso a coisas mais para o diferente. Por aqui pouco mais havia do que atum e sardinha.


Actualmente a realidade é completamente diferente, com a existência de múltiplas marcas. A diversidade é grande, tanto ao nível das matérias primas utilizadas, como na forma como nos são apresentadas, sendo, por isso, possível construir uma refeição de fio a pavio, usando apenas latas ou frascos. Juntemos umas valentes saladas, mais umas ervas aromáticas, e pão para ensopar na molhaça e, acreditem, ficaremos com a pança bem composta. E eu, meus queridos amiguinhos, sou gajo para limpar, sem qualquer constrangimento, meia dúzia de latinhas. Só para acalmar a gula, que no meu caso é muita.

quinta-feira, junho 21, 2018

A Mesa

Tive a sorte, no outro dia, de conseguir reproduzir em cima de uma mesa algo que é cada vez mais raro. Para mim. Não sendo a melhor cópia, foi o que foi possível no momento. 
Ter os melhores enchidos, sem o excesso de fumo (uma das razões porque nunca consegui habituar-me às versões sulistas), é quase uma quimera, para quem passa, como eu, grande parte da sua vida enfiado e amontoado nesta esquizofrénica linha litoral, entre Braga e Setúbal. Portugal Metropolitano, segundo consta. 

Queijeta, pão, chouriça, presunto e azeitonas. Feitos por mãos.
A treta é que tenho uma necessidade premente de comer com contexto. É uma forma de potenciar o meu prazer, torná-lo mais orgástico. Ter um contexto é fundamental, é imperioso. Preciso de sentir que o que mastigo está de acordo com o que está em redor. Principalmente se esse redor tiver a ver comigo.  E a esta mesa faltou-lhe esse redor. Estava desenquadrada.

quarta-feira, junho 13, 2018

Quinta de Camarate: O Rosé

As vantagens de escrever num computador é que permite poupar papel. É o lado ecológico da tecnologia. Se fosse de forma mais convencional, já tinha dado cabo de uma porrada de folhas, tal foram as tentativas frustradas para dar inicio à coisa de hoje. Não está fácil, como tal que se faça da maneira mais simples. Directo ao assunto.


Comprei o vinho na Casa da Baía, em Setúbal. Trata-se de um centro de promoção turística da região, situado num edifício do século XVIII, onde podemos adquirir produtos identificativos da região de Setúbal. Queijos, doçaria, vinhos. Espaço que aconselho vivamente visitar. Para beber um copo, para tomar café, para estar um pouco. 


E sem demorar mais tempo, tenho que vos dizer que me soube bastante bem o vinho que ilustra a publicação do dia. Apesar de possuir uma cor mais carregada que o habitual, que tende actualmente para o salmonado, mostrou ser um rosé de perfil seco, com razoável profundidade. Gostei do seu equilíbrio, da sua persistência, da forma como a fruta nos é oferecida. Sem exageros. Um vinho, pareceu-me, que alinha essencialmente pela elegância. Para além de estar bem porreiro, bebeu-se sem qualquer esforço. E prontos, basicamente era isto.

segunda-feira, junho 11, 2018

La Bruja de Rozas

Há uma porrada de tempo que não bebia os vinhos do Comando G. Um comando formando por Daniel Jimenez-Landi e Fernando Garcia. O G reporta-se a Garnacha. Os vinhos que saem das mãos desta dupla são desafiantes e meio loucos. Vindos de vinhas situadas a mil metros de altitude, na Serra de Gredos. É daqueles que nos abrem a cabeça e as pupilas gustativas, para outras cenas mais alternativas. Vinhos indicados, portanto, para quem quer sair do conforto do mesmo de sempre. 

Desculpem as nódoas na toalha, bem como a fraca apresentação da vianda.
Este Bruja é um mero entrada de gama do Comando, mas ainda assim mostra ser um vinho completo e provocador. Não sendo um simplório qualquer. Mostra-nos, também, que os catorze graus de álcool não interferem e não destroem o prazer. 
Um vinho bastante fresco, cheio de impressões vegetais. Repleto de fruta sumarenta, limpo de madeira e pouco concentrado na cor. Seco e refrescante na boca. Bebeu-se com profundo agradado e enorme satisfação, de tal forma que a garrafa se esvaiu num ápice. 

sábado, junho 09, 2018

E um Anthony Bourdain português?

Ainda na ressaca provocada pelo desaparecimento inusitado, ou não, de Anthony Bourdain, esta mona desembocou em meia dúzia reflexões. Simples e sem grandes articulados argumentativos, como é apanágio. 
Temos, por aqui em Portugal, algum aspirante a Anthony Bourdain que seja capaz de criar e manter uma verdadeira legião de fãs? De fãs devotos, em dimensão razoável? Com capacidade para fazer escola, criar uma industria com o seu nome. Capaz de rasgar com os ditames mais conservadores da nossa crítica gastronómica e de vinhos. Será que este desejo secreto é coisa que nunca irá acontecer, neste país que se comporta continuadamente de forma insossa e pequena, em que só vinga o gajo sem piada, certinho, formal e sem qualquer laivo de opinião? 

A verdadeira foto.
A gritante falta de humor, de provocação torna-se, na maioria dos casos, cansativo, monótono e desmotivante. Faz lembrar os sermões da professora do Charlie Brown. Lembram-se deles? Caramba, meus senhores, façam lá um esforço para acrescentar algo mais desafiante, mais picante, mais temperado e mais divertido. Não é preciso muito.

sexta-feira, junho 08, 2018

Salvé Anthony Bourdain!

Não sou gajo para idolatrar. Nunca tive ídolos. Minto. A minha mãe é o meu único ídolo. Não sou seguidor de ninguém. Quando morre alguém, mais ou menos famoso, passo ao lado do momento. Registo, apenas, o facto. 
Com Anthony Bourdain era diferente. A coisa aqui pia de maneira diferente. Gostava muito do gajo. Gostava dos programas dele. Ainda hoje vi um em que estava a comer e a beber vinho, enfiado numa adega, algures na Croácia. Mais uma vez, fiquei com dores de inveja. Delirava com as enormes orgias de comida e bebida, em que aparentemente se envolvia. Pura decadência. Desvairos alimentares e alcoólicos levados ao máximo. Digamos que ele era a versão moderna do clássico La Grand Bouffe


Anthony Bourdain, permitam-me, é o grande guru, o profeta, de todos aqueles que gostam de borgas, de farras desmedidas. Daquelas valentes pândegas, livres de irritantes etiquetas e salamaleques presunçosos, que tiram o apetite a um simples mortal. 
Merece que se construa um altar, pois todos aqueles que gostam de comer e beber de forma ávida, como  eu, merecem um lugar de culto. Um lugar onde comer e beber sejam os únicos dogmas. Em memória dele, que se viva, como se o mundo acabasse amanhã. Daqui, deste lado, saúdo-te. Salvé Bourdain! 

quarta-feira, junho 06, 2018

Voltei a 96

Como dizia o outro ainda sou do tempo em que combinar bacalhau com um belo tinto do Dão, maturado pela idade e amaciado pelo tempo, era dogma. De facto, durante anos e anos, respeitei a lei. Com o tempo, comecei a preferir acompanhar o fiel amigo com vinho branco, largando definitivamente o tinto.


  
Sem saber ao que ia, fui novamente convidado a emparelhar um tinto com o dito peixe, apresentado numa das formas mais clássicas. Assado nas brasas, com batata, bem regado com azeite e alho. E afianço-vos que todos os elementos jogaram na perfeição.


O bacalhau, o azeite, o alho e o vinho sincronizaram-se de forma exemplar. Gordura da comida e frescura do vinho. O tinto estava num perfeito estado de equilíbrio, profundamente refrescante. Por cada garfada, sucedia-se um valente trago. E tudo batia certo. Demasiado certo. Se há alturas em que não queremos recordar e nem regressar ao passado, há outras em que o fazemos com um sorriso nos lábios.

terça-feira, junho 05, 2018

O Pargo

E o pargo, meus amigos? E o pargo? Mulato ou legítimo? O primeiro mais modesto no preço e de acesso mais fácil. O segundo menos modesto, aparentemente mais requintado e nobre.



Tenho optado, nos últimos tempos, por peixes menos nobres, no que isto quererá dizer. Dentão, rascasso, cantaril, salongo, cavala. Vendidos a preços muito mais cordatos que os galácticos sargos, gorazes, chernes, garoupas, salmonetes (adoro), pregados ou linguados do mar. Até o popular peixe-espada branco começa a aproximar-se dos lugares cimeiros, no que respeita ao preço. No outro dia, reparei que estava a catorze euros o quilo.
Aprecio cada vez mais o pargo mulato, em detrimento daquele que é legítimo. Mais suculento, menos seco e menos neutro que o seu irmão vermelho. Depois a minha miudagem não enrola este peixe na boca. Não fazem aquelas bolas de proteína, que mastigam tempos a fio. Logo, os meus nervos agradecem.



Preferencialmente assado no forno, acolitado com poucos ingredientes. Bastante alho, duas a três ervas aromáticas. As que tiver no frigorífico ou no quintal. Tudo enfiado na barriga e nas guelras. Sal, azeite e muito vinho branco ou espumante. Aliás, uso cada vez mais o espumante, como substituto de vinho branco. Mas seja qual for a opção, despejo quase sempre meia garrafa. O Pêra Manca já teve essa honra.
Depois é assar durante o tempo necessário, apenas para cozer, sem deixar secar. É que não aprecio peixe muito cozinhado, seja nas brasas ou no forno. Basicamente, é controlar o tempo para que o sangue desapareça da carcaça e já está.