Segunda-feira, Maio 20, 2013

Paços dos Cunhas de Santar: Vinha do Contador

Não sei se é hábito acontecer-vos, mas curto imenso quando acerto na mouche ou quando ando lá (muito) perto. Dá-me um gozo terrível apontar o dedo, carregado de convicção, a um vinho, gostar dele, e dizer no fim: É Beltrano ou Sicrano, Vem daqui ou de acolá. Fico inchado de vaidade e cagança.



Desta vez, e por causa deste vinho que figura o post do dia, não tive qualquer pejo em afirmar preto no branco: É do Dão e tem (quase) de certeza encruzado. Tiro limpo, certeiro e sem mácula.



Parecia um daqueles putos, que fui, quando acaba de marcar um golo na baliza da turma adversária ou da rua do lado. Com tanta derrota, com tantos falhanços, com tantos erros, um momento destes soa literalmente a campeonato ganho. 


Sábado, Maio 18, 2013

Casa de Santar

Cheguei ao fim da semana. Resta-me, agora, largar as coisas pelos cantos, deixar aqui e acolá todos os resquícios da semana de trabalho. Quero desligar de tudo. Limpar a memória, apagar desilusões e mágoas.



Abri uma garrafa, olhei para o vazio e fui bebendo. Julguei que estava em outros lugares. Suspirei, relaxei, esvaziei. E, entretanto, o vinho foi correndo para o copo. Fresco, suave e descomprometido. 



Mas as saudades não desapareceram. Faltavam-me, e ainda faltam, os sons e odores da (minha) terra. Talvez para a próxima. Bom fim de semana.

Sexta-feira, Maio 17, 2013

Vinha Othon

Fetiche? Quem não tem? Eu tenho. Sou um tipo cheio de fetiches. Fetiche por isto, fetiche por aquilo. Gosto de ter fetiches!




Fetiche por uma cor, fetiche por uma comida, fetiche por coisas indescritíveis. Fetiches sem qualquer razão. São, portanto, muitos fetiches. 




Os fetiches fazem-me bem. São fetiches, simples fetiches. Gosto de gostar de coisas, sem saber justificá-las.



E já sei, querem saber qualquer coisa sobre o vinho? Um fetiche. Mas o que dizer? Que gosto dele? Que gosto muito dele, que adoro o vinho? Chega ou precisam de mais? Como não sei o que mais palrar, resta-me regressar ao vinho e continuar a alimentar este fetiche.

Quinta-feira, Maio 16, 2013

Pedra Cancela: Signatura

Quando se assume um olhar, uma posição, uma perspectiva, não há que ter medo de a mostrar e defender publicamente. Não há que ter qualquer receio, pudor ou comprometimento. Sabe-se, de antemão, que o vinho foi feito por aquela determinada pessoa. Existe responsabilização, coisa que é rara nos tempos de hoje.




Com o escarrapachar de uma assinatura, a coisa fica bem mais clara, bem mais objectiva e bem mais focada. Quer dizer, também, que podemos estar perante aquele vinho. E com isto tudo, recordei outro vinho que, também, nos surge assinado preto no branco. Ambos semelhantes nas convicções. Acho muito bem. 

Post Scriptum: O Vinho foi oferecido pelo Produtor.

Segunda-feira, Maio 13, 2013

Wine & Soul: Guru

É público que não sou adepto da dita prova mestra, que desfaz toda a dúvida, que dá justiça aos injustiçados, que faz ver ao consumidor onde está a verdade. É tal e qual como aquele detergente que limpa e não deixa mácula. A prova cega é o momento de excelência para dissipar qualquer dúvida.


Eu, pelo contrário, não creio nem em metade do que se papagueia em prol da dita. Estarei, por isso, do outro lado da barreira, do lados dos detractores.




No entanto, lá me submeto, esporadicamente, ao exame. Os resultados, aqui e acolá, nunca foram, nunca o são conclusivos, para mim. Há sempre uma desculpa. Tudo se resume a uma questão de perspectiva.


Desta vez, tal como em outras vezes, saiu-me um vinho que gostei francamente, que fez as delicias de presentes e ausentes, que granjeou os maiores elogios e que, naquela específica noite, foi quase rei e senhor. O cómico da coisa, quando revelada a estampa, foi notar que o vinho encaixa(va) no saco dos ódios de estimação que gostamos de alimentar. E agora, esta prova cega valeu?

Sábado, Maio 11, 2013

Incertezas

Enquanto deambulo por entre coisas que não faço qualquer ideia e ao ler e reler essas mesmas coisas (desculpem a repetição da palavra), descubro que andei a brincar, a fingir que percebo da arte (dos vinhos). Fico, deveras, admirado quando alguém diz, afirmativamente e sem qualquer dúvida, que é beltrano ou sicrano. Caramba, como conseguem? 


A porra da idade em vez de ajudar, anda a desajudar. Nunca pensei chegar a este estado. Ando confuso, caminho sem norte, com a bússola a rodar loucamente. Salvé, por isso, aos que continuam cheios de certezas e sabem daquilo que falam.

Quinta-feira, Maio 09, 2013

Viña Ardanza

Como sempre, dei voltas e mais voltas saber o que dizer e como sempre, não sei o que dizer. Por isso, fico-me, apenas e apenas pela divulgação de três fotos de um vinho que naturalmente não conhecia, mas que pedi para beber.  




E devido a tamanho desconhecimento, e para evitar teses tontas, invoco o direito de dizer quase nada. Simplesmente agradecer publicamente a quem acedeu ao meu pedido, dizendo que gostei francamente. Com isto ou com este post, ficarei, um niquinho mais internacional e menos provinciano.

Segunda-feira, Maio 06, 2013

Quinta dos Roques: Encruzado

Este, entre tantos, é mais um daqueles que foi arredado para o lado, por causa da febre dos novos nomes, das novas referências, das novas colheitas. Pertencerá, digo eu, ao grupo dos clássicos que parece ter sido posto na prateleira dos fundos. Absurdo, pois foi e é um nome que representa qualidade para a região e para o país. 


E fica-se estupefacto quando se volta novamente a beber, a provar, a sentir o vinho. Com mais vergonha e embaraço se fica. E por voltas e mais voltas que se dê, não se vislumbra qualquer razão para tal abandono. O vinho continua em alta.


Mostra-se tenso, fresco, saudavelmente ameno e equilibrado. É, acima de tudo, um encruzado simbiótico, que consegue conciliar, sem conflitos, formas e olhares distintos de ver a coisa


Depois, sugere ter (muita) apetência para crescer, amadurecer, envelhecer com estilo. Por agora, está naturalmente imberbe, irrequieto, nervoso, mas cumpriu na integra a função que todo o vinho deve ter: Ser bebido até ao derradeiro sinal da sua presença. Um clássico!

Post Scriptum: O Vinho foi oferecido pelo Produtor.

Sábado, Maio 04, 2013

Emoções

Pensei, e ainda penso, no que deveria escrever para acompanhar com dignidade as ilustrações que escolhi para este post. Procurei, e ainda procuro, palavras que façam jus ao vinho. Que sejam o puro reflexo, um mero prolongamento dele. 



E por muito que rode com o copo, rodopie o líquido, pense e vasculhe, as palavras soam literalmente a vazio, a qualquer coisa sem sentido. Está-se, estou, literalmente preso. Preso por que sim, preso por que se está apaixonado por ele. Olhamos, miramos e pensamos. Pensamos no quê? Que o vinho, este mesmo, eventualmente não quererá, nem precisará de grandes enunciados. Por isso, por que complicamos? Por que adulteramos? 



E por que não consegui, por que não fui capaz, por que estou demasiado envolvido com ele, pois viu-o nascer, gatinhar, caminhar e tomar o seu rumo, restou-me simplesmente adorá-lo, só mais uma vez. Só mais uma única vez. Até um dia!


Quarta-feira, Maio 01, 2013

Encruzado by Quinta do Serrado

Ainda sob o efeito do #whiteday, ainda sob o efeito da dependência excessiva que tenho sobre a região, envolvi-me, isso mesmo, com outro vinho branco, feito, construído, desenhado a partir da casta encruzado. Um vinho que, também, não conhecia. Um vinho que urgia conhecer, interpretar, perceber, entender e fatalmente beber. Destino de todos os vinhos. E desgraçados daqueles que não conseguem cumprir o seu desiderato final. Algo não correu (ou corre) bem.



Um vinho que acompanhou-me durante, imaginem, três dias. Vinho que foi evoluindo, melhorando, quebrando amarras, libertando ideias, soltando cheiros e aromas. Aqui e além, parecia dizer que ainda estaria novo, muito novo, talvez demasiado jovem. Mas melhorou muito, veja-se lá, ao terceiro dia. Gostei da sua dureza, da sua austeridade, do seu poder, da sua força. Talvez porque, durante esses dias, precisasse de uma âncora, de um suporte, de um apoio. 



Foi, ainda, vinho que acompanhou comida, de qualquer género, que acompanhou pensamentos, actos e omissões. E foi sendo bebido, até à derradeira gota, até não restar qualquer réstia da sua presença. No fim, olhei para ele sorri com ar de satisfação. Valha-nos isso...

Domingo, Abril 28, 2013

Estágio Prolongado

Hoje é, literalmente, um dia para avalizar todos os erros cometidos no passado. Deu-me para isto e sabe-se lá porquê. E a lista é infindável. Diria que desde o dia que tomei a primeira decisão, que não mais parou a sucessão de enganos, avaliações incorrectas, deliberações mal tomadas, arrependimentos, sei mais lá o quê!


Em muitos casos, desejei e desejo voltar atrás, retornar, apagar, emendar, pedir desculpas, tomar outro caminho, mas o mal estava feito e foi (quase) sempre irremediável. Restava-me, apenas, arcar com as consequências e tentar seguir em frente, esperando, mais uma vez, que no futuro tenha a capacidade e estrutura para ser mais ponderado e responsável. 


Diria que o rótulo deste vinho, que vai acompanhando este emaranhado de pensamentos sem fim, é reflexo da (minha) vida. Tingindo, borrado e manchado. O que vale, para bem de todos os meus pecados, é que o vinho que está dentro da garrafa tem mais e bem melhores qualidades que este pobre tipo que está a bater com os dedos nas teclas. Um vinho que servirá, hoje, para aquietar muitas mágoas.


Quinta-feira, Abril 25, 2013

JPR: Alvarinho, Estremus e O.Leucura

Vai ser complicado falar sobre o assunto, sobre o sucedido. Quem o fizer terá que ter peito, estrutura, habilidade e capacidade para o fazer. O momento, os vinhos e a comida assim solicitam.



E começar por onde? Sei lá. Espaço e enquadramento que, logo à entrada, faziam antever a importância da coisa.






Timidamente se vai quebrando o protocolo. O vinho assim proporciona. E ainda bem. Come-se aqui, pica-se acolá, até assentar praça no lugar estipulado.
Começa, então, o chorrilho de novidades. Um Alvarinho. Simplesmente um Alvarinho. Um branco refinado, com requinte, que parecia querer confirmar, logo ali, as expectativas iniciais. Decididamente marcante.



Surge um tinto, alentejano, que segundo o rótulo se chama Estremus. Parece que é aquele vinho, segundo se dizia aos cochichos. Poderoso, tenso e envolvente. Pouco imediato (e ainda bem).



E lá se continuava. Avisavam, lá do canto, que iriam aparecer dois vinhos do Douro, com o mesmo nome, mas possuidores de características que os distinguia, que os marcava indelevelmente. Um vindo de parcelas de vinha alojadas a 200 metros de altitude, o outro tinha origem em parcelas de vinha situadas a 400 metros de altitude.




O primeiro, naturalmente, mais quente, com mais fruta, amplo e mais gordo. O segundo, presumivelmente, mais fresco, mais airoso, mais perfumado, mais feminino. Está-se, por isso a ver, para onde caíram as minhas preferências.
E apesar da noite caminhar a passos largos para o desenlace, é-nos apresentado o novo Vintage de 2011, que segundo consta é capaz de ser de ano clássico. Mas isso serão temas para gente que sabe, não para mim.



E que dizer mais? Um Vintage novo, escuro, com fruta fresca, saboroso e sei lá mais o quê. Um vício. Depois disto, aconteceram mais estórias, mas não contam para aqui.