sexta-feira, junho 26, 2015

Espumantes

Após uma célere passagem pelos tablóides, para ver quais eram as novidades do momento, deixo-vos aqui duas ou três considerações irrelevantes, mas que servirão para distrair um pouco, a mim, e entremear com outros escritos bem mais importantes. 

Perfeito blockbuster. Um todo terreno. Um vinho profundamente seco, vegetal e viciante. 
Gosto dos nossos espumantes, independentemente do que se faz lá fora. Gosto de beber os nossos espumantes, tenham bolha com diâmetro grande ou pequeno. Gosto, porque são multifacetados, porque têm apetência para refrescar, acompanhar comida, seja ela qual for, para ajudar a trautear qualquer coisa. Gosto porque parecem-me bons, correctos, personalizados e com uma matriz muito portuguesa. São nossos e pronto.

Nos últimos dias, julgo ter perdido a conta ao número de garrafas abertas deste vinho.  Sintomático.
Nada melhor que ter um espumante fresco, sempre preparado para domesticar estas ou aquelas angústias que vão teimando em insistir. É que depois de um ou outro trago, fica-se naturalmente mais aliviado.

sexta-feira, junho 19, 2015

Real Companhia Velha: O Branco das Carvalhas

Apetece-me dizer impropérios, vociferar sobre qualquer coisa, sem regras e sem cuidado no verbo. Elevar ao extremo, sem cuidado qualquer, a libertinagem. 


Quero libertar a língua e dizer que o que me apetece, sem rodeios. Se discordarem, não liguem, relevem para segundo plano. São palavras de alienado, de um tipo que julga segundo critérios obscuros e tendenciosos. Sem regra e sem método. Ou amo ou odeio. Não existe meio termo. O meio termo é, apenas, sinal de submissão, de quem não julga com paixão e se esconde numa discutível independência. 

Branco de 2012
Este vinho está bom. Este vinho é muito bom. Soube-me, porque caiu bem, pela vida que nunca hei-de ter. A complexidade de sabores e de cheiros era enorme. Uma intensa sucessão disto e daquilo. Com garra, com intensidade, com classe. Um vinho, que se lixe, quase perfeito. Esvaziada a garrafa, despida de qualquer réstia de vinho, instalou-se aquele fatal estado de ebriedade, que nos eleva a estádios de felicidade desmedida. 

terça-feira, junho 16, 2015

Pagar para fazer!

Devo dizer que divirto-me, um pouco, quando leio comentários elogiosos sobre alguém que faz alguma coisa. Naturalmente, é meritório para quem arregaça as mangas, vai à luta e leva avante um determinado projecto. Mas poucos o fazem com regularidade e sistematização. É de louvar, sim senhor. No entanto, a maior parte das vezes, são quase sempre fogachos matinais. Divirto-me, apenas, porque dá a ideia que são o último grito de alguma coisa, quando na verdade anda meio mundo a copiar outro meio mundo. 

Tão simples quanto isto: Meia dúzia de tipos procuraram no mercado as diversas colheitas Quinta do Roques Touriga Nacional para poderem provar. Vieram, portando, das mais diferentes proveniências. E ainda, por cima, convidaram o produtor. 
Fico, também, meio angustiado com tanto nervosismo e alarido como aquilo ou isto fosse a tal última novidade. Como se mais ninguém tivesse feito ou fosse fazer. Depois como tudo, o berreiro é potenciado ou não, consoante os interesses de determinado grupo, alinhamento ou postura. Uma questão, portanto, de clubite.

Quinta dos Roques Touriga Nacional 1995. Num estado fantástico. 
Elogio, perdoem-me o abuso, é quem paga para fazer. Pague para ter acesso, para perceber o que é e o que não é. Pague o que tenha que pagar, o que for preciso pagar para provar este ou aquele vinho. 

É um produtor incontornável na região do Dão. Os seus Tourigas estão num elevado patamar de qualidade. Naturalmente surgiram variações entre garrafas. Cada garrafa veio de uma proveniência diferente. Eram vinhos reais. Pessoalmente destaco as colheitas de 1995, 1996, 2002, 2005, 2008, 2010 e o promissor 20013.
Fala-se em enofília, em blogosfera, em apaixonados, em consumidores, em interessados pelo vinho, mas raramente se referem aqueles que, sem patrocínios, metem as mãos à obra e concretizam o que pensam, o que querem, pagando para ter. Fala-se de tudo e mais alguma coisa, mas poucos, muito poucos, sacam do guito que têm no bolso para viverem aquele momento, para terem aquela prova, o quer que seja. Isto sim, meus caros, devia ser mencionado, referido e elogiado. Puros actos de cidadania enófila. Mas tenho que concordar que é muito mais fácil receber caché, para participar ou fazer.

quarta-feira, junho 10, 2015

Saudades

Dizem que somos um povo que vive coberto de saudades de tudo e mais alguma coisa. Na verdade, sempre irritou este lado melancólico, estupidamente pachorrento, meio saloio, meio beato, alcoviteiro e caceteiro que se cola na pele e que insiste em caracterizar-nos. Basicamente uns desgraçados.


A saudade serve, apenas, para justificar falhas, incompetências e erros que se vão cometendo ao longo de uma vida, enraizando, desta forma, a incapacidade para dar a volta, tornear a questão, sacudir o problema. Vivendo de e com a saudade, fica-se confortavelmente sossegado, num banco de uma esquina, à espera que algo aconteça, repetindo vezes sem conta para quem está ao lado: antigamente é que era bom. E aponta-se aos outros as falhas e falta de coragem que tivemos. Desta forma, ficamos livres de qualquer responsabilidade.


Choraminguices de lado, há coisas que deixam efectivamente saudade. Saudades, por exemplo, de termos sido imortais, algures no tempo. E, por que não, já agora, saudades dos verdadeiros vinhos. Dos vinhos que eram inextinguíveis. Agora, tudo parece tão efémero e tão despersonalizado, tão desinteressante, tão enganadoramente perfeito. 

domingo, junho 07, 2015

A assertividade trauliteira

Quando a dúvida se instala cada vez mais, quando o cepticismo começa a ganhar raízes, devo dizer que admiro, cada vez mais, aqueles que ao coberto daquilo que julgam ser convicções bem fundamentadas, emitem opiniões com uma assertividade que faz estremecer o maior dos incautos. A sua assertividade é tão impetuosa, que crêem profundamente estar a desempenhar um papel messiânico, revelando que a luz certa não é aquela que vemos, mas é outra que não descortinamos, devido a uma profunda cegueira conjunta. 


Tenho que concordar, olhando para a história, que todos os movimentos filosóficos, religiosos foram em determinada altura, seitas com meia dúzia de gatos pingados aparentemente tresloucados da realidade, mas possuidores de uma visão sobre um futuro melhor. Por isso, é perfeitamente plausível que acreditem que um dia, determinadas minorias, se possam tornar em verdadeiras correntes de pensamento, capazes de influenciar centenas, milhares ou milhões. Mas para que o sejam de facto, é necessário que toquem no coração das pessoas pela graciosidade, pela paixão desbragada, se possível, e não por um conjunto de actos puramente trauliteiros e teimosos.

quarta-feira, junho 03, 2015

Grandes e Pequenos ou Pequenos e Grandes

Anda uma sensação no ar, para os meus lados, que tenho alguma dificuldade em entender. Sem provas ou factos, vamos situar todo este enredo no universo das percepções estritamente pessoais. Portanto, sem qualquer prova provada
Nas minhas deambulações por provas, eventos, certames, festas e arraiais, tenho sido confrontado invariavelmente com situações que são, no mínimo, caricatas, curiosas ou estranhas. Ao contrário do que seria de esperar, surge pela frente um número assinalável de pequenos produtores que apresentam vinhos com aparente fraca personalidade, estranhamente normalizados, com pouca alma e fugazes. Por vezes, demasiado simples, quase inócuos, não apresentando qualquer valor acrescentado para quem os prova. 


Parece-me que há uma colagem forçada por algum insucesso, ao que os produtores maiores fazem, com o intuito, perfeitamente compreensível, de serem semelhantes a eles, mais consensuais, mais modernos e, deste modo, obterem o maior retorno comercial possível. Mera ilusão. Pior é quando acreditam piamente no que fazem, julgando que estão na linha da frente. Os primeiros, na maior parte dos casos, não possuem marca consolidada, enquanto os segundos estão no mercado há anos, com as suas marcas estabilizadas e firmes. Por isso, julgo, que é absurdo canalizar o foco e os escassos recursos, falo dos mais pequenos, para produtos que não são mais do que iguais entre si e que irão cair fatalmente no saco dos esquecidos ou na secção dos perdidos e achados. Curiosamente ou não, do lado dos maiores, começam a surgir sinais de mudança de orientação da agulha em alguns dos segmentos. Curioso, não?

terça-feira, junho 02, 2015

Para além de...

E quando a paisagem, o mundo, é mais importante que o vinho. O vinho, esse, acaba por ser, apenas, mais um acrescento, um acessório que se torna, na maior parte das vezes, supérfluo e dispensável. Colocado num plano subalterno. 





Olha-se em redor e vê-se a vida, a nossa, o que fizemos e não fizemos, o que ganhamos e o que perdemos. Os avanços e os imensos retrocessos. Olha-se e pensa-se em tudo, em tanta coisa, menos no vinho que está dentro da garrafa que está ali ao lado. 





Percebe-se que há muito mais para além de uma catrefada de garrafas abertas, de provas e contraprovas. No fundo, perde-se o essencial, por causa de uma correria desenfreada para ver quem chega mais à frente. Começo a parar, a desacelerar profundamente. Apetece ficar quieto, sentado, sossegado e em silêncio. Longe do rebuliço de outros tempos, mas consciente que as recaídas podem acontecer.

quinta-feira, maio 28, 2015

Em Contramão

Passados alguns dias, cumprindo a velha máxima masculina de não pensar em nada, um dos melhores estados de alma em que se pode estar, comecei a ouvir, sabe-se lá porquê, aquela canção do Abrunhosa, voamos em contramão. Lentamente, vagarosamente, foi instalando-se até tornar-se bastante audível no meio do tal nada em que estava envolvido. Romantismos à parte, choraminguices de lado, dei comigo a moer a cabeça com a percepção de que, na maior parte das vezes, circulo em contramão com o resto do trânsito. Questionei-me sobre a razão para tamanha inabilidade pessoal. A resposta parece-me simples: inaptidão intrínseca. 


Se no princípio, presumo estar inteiramente certo e o resto da malta, apesar de numerosa, estar errada, com o desenrolar dos acontecimentos, sejam eles quais forem, começo a achar estranho não encontrar ninguém que vá no mesmo sentido que eu. Nem uma viva alma. É o momento em que páro e percebo que tenho que saltar para a outra mão e seguir viagem como o resto da trupe. Para estar integrado, mesmo que seja num mero estado figurativo. Forçado, é certo, sigo na enxurrada para não destoar aparentemente. A porra (que em português do Brasil ou em brasileiro quer dizer algo diferente) é que, sem saber porquê, dou comigo novamente em contramão até à próxima saída.

sexta-feira, maio 22, 2015

Krohn 1958

Em jeito de fim de semana, nada melhor que deixar uma foto, no caso duas e parecidas, de um grande vinho do Porto. Largá-las apenas, ir embora e regressar aqui passados alguns dias para ver como andam as águas.



Fica, portanto, registado o momento para a posteridade, para relembrar unicamente que um dia cheguei a beber também um vinho da elite. O intuito, como podem ver, é muito simples e prosaico.

quinta-feira, maio 21, 2015

Com Rótulo, sem Rótulo: Importa antes de tudo o Vinho!

A homilia de hoje não tem como objectivo idolatrar a ausência do rótulo ou a prova cega que é endeusada ciclicamente, achando que é a única maneira de separar o trigo do joio. Curiosamente o joio é, na maior parte das vezes, considerado comestível, ao coberto de tais actividades honestamente cegas. Atrevo-me a dizer que serve para umas coisas, não servirá para outras. Varia consoante a perspectiva. Lá está a perspectiva. Serve, preferencialmente, se o vinho está dentro da fronteira daquilo que achamos ou pensamos gostar mais. 


Independentemente de tudo isso, há vinhos que dispensam o rótulo. Dispensam, porque o conteúdo, o carácter que possuem é incomensuravelmente maior do que qualquer rabisco decorativo que possam vir a ter. Atrevo-me a dizer que prescindem da vestimenta por completo. Quase que seria um acto de arrojo comercial, vender um vinho despojado de toda ou qualquer farpela, tal Adão e Eva. 


Estaríamos a sentir apenas o que ele é, sem qualquer distracção pela frente. Naturalmente, e sem qualquer problema, assumo que, neste caso, o quase vi nascer, conheço o seu nome e o rótulo virtual. Que ao fim ao cabo, conheço tudo sobre ele, logo não estou despido de qualquer parcialidade. Mas também não quero. O paralelismo com a relação humana é, por isso, dramaticamente muito semelhante.   

segunda-feira, maio 18, 2015

Outros Tempos: Palmella Superior

E é assim: Não conhecia, perdoem-me os entendidos. Não fazia qualquer ideia da sua existência. Desconhecimento total. Como tal, tenho sempre uma enorme desconfiança ou desconforto quando estou perante vinhos ou situações em que não domino nenhuma das variáveis. Bebo ou provo, por vezes, já com o intuito de largar o dito no momento seguinte. A surpresa, a estupefacção acabam por cair sobre a alma, por diversas vezes, fazendo esbugalhar os olhos. 


Uma rápida e superficial viagem pela rede, constato que serei ou seria o único que não conhecia a antiguidade desta categoria de vinhos. Surgem imagens de garrafas de com rótulos similares, alguns datados outros não, com variações na grafia e formato de garrafas.


Regressando ao presente, largando outras considerações desnecessárias, expressões e comentários mais ou menos incoerentes e ou alucinados, registo para memória futura deste pasquim, a elevada complexidade do vinho, a enorme capacidade para prender, despertar o interesse ao maior incauto. Um vinho que, após o primeiro trago, leva-nos a querer mais, mais e mais até que o estado de ebriedade caia  em cima de nós, de uma vez por todas, e nos adormeça.

quinta-feira, maio 14, 2015

O que se passa com as rolhas?

Coisa célere, muito rápida. Consideremos, apenas, como se fossem aquelas linhas gordas de um jornal. Tipo: Correio da Manhã. Um título popularucho: O que se passa com as rolhas? Haverá desinvestimento dos produtores na qualidade do vedante?
Depois das letras mais gordas, surge um acrescento à noticia, com letras mais pequenas, de forma a levar o leitor a parar, desfolhar o jornal e ler mais um pouco. Momento, esse, que acontecerá no café da esquina, enquanto se toma a bica. 


Baseado na prática diária de abrir vinhos, nota-se que o número de vinhos contaminados por rolha, tem estado a aumentar. Um aumento que parece ser (muito) significativo e que surge em vinhos das mais diversas gamas. Se por momentos, a possibilidade de encontrar um vinho marado por causa da rolha parecia ter desaparecido, agora fica a impressão, partilhada por outros conhecedores do meio, os consumidores, que a proporção de rolhas influenciadoras do mau estado dos vinhos tem vindo a crescer. Tudo, naturalmente, baseado em pressupostos científicos: a abertura de garrafas. Fica, novamente, a pergunta: O que se passa ou anda a passar com as rolhas?