sábado, Novembro 22, 2014

A simplicidade...

Ao ter andado meia vida acabrunhado, irritado, exasperado com as mais diversas passagens, acontecimentos, momentos, a idade tem-me (posso escrever assim?) obrigado a mudar o olhar, o ângulo sobre tanta coisa. Dia após dia, reforço a convicção de que gastei demasiado tempo em lutas desnecessárias, em campanhas sem resultado, em apostas mal apostadas, em dar relevância ao que não devia ter dado. A ideia que fica, o que resta ou restou, diz-me que há valores bem mais importantes, que contam mais, que estiveram sempre presentes, apesar de nunca lhes dar qualquer atenção. Mas a treta do orgulho, desfocava tudo.
 

 
A simplicidade, o acto simples, a forma desbragada em que devíamos viver é, incomensuravelmente, mais importante do que tudo o resto. O resto, pela definição, não é mais do que o resto. É o que sobra, é o que não é divisível, é o que não é importante, tenha ele o valor que tiver, seja ele grande ou pequeno. O estado em que se fica após tantas e tamanhas constatações, é que andamos a caminhar, por aqui, em puro estado de estupidez, toldados por um conjunto de falsas ideias, de falsas perspectivas. Já na dita caverna era ou foi assim. 
 

terça-feira, Novembro 18, 2014

Por causa das tais mais de 200 castas

Ao fazer uma breve leitura matinal pela rede, dei comigo com este post do Hugo. No post e por causa de uma nova estampa que ele irá colocar nas suas habituais t-shirts, lança uma dúvida: mais de 200 castas nativas e não chegam!
 


Atrevo-me a dizer, em jeito de constatação, claro que não são suficientes, não chegam. É preciso continuar a importar, substituir, a disseminar por zonas que até pouco tempo, estavam a salvo desse ataque. Diria que este enredo que anda à volta da presumível riqueza de castas, da sua hipotética diversidade é, permitam-me esta afirmação absoluta e bastante pessoal, uma das maiores falácias (entre outras) no mundo do vinho em Portugal.
 

domingo, Novembro 16, 2014

Mais uma Flor: de Penalva

Não comprei o vinho por causa do nome, aliás ao lado dele estavam outras flores. Acho, até, que podiam escolher, deviam ter escolhido outro nome. Havia ali uma certa colagem. Pareceu-me. 
Também não escolhi o vinho pelo rótulo, que apesar de ser minimalista e classicista, podia ser um pouco mais arrojado, mais actualizado, vá lá um pouco mais jovem.


Comprei o vinho, por causa da mistura de castas que vinha escarrapachada no contra-rótulo: Malvasia-Fina, Cerceal-Branco & Bical. O omnipresente Encruzado, vejam lá, estava ausente. Também comprei o vinho, por razões, a maior parte delas, completamente subjectivas, sem qualquer sustento. Comprei porque tinha, naquele momento, de comprar qualquer coisa


Terminado este emaranhado de considerações, sobra a (forte) convicção que o vinho era digno de outro nome e de outro rótulo, porque o vinho merecia e merece, de facto. Um vinho saudavelmente minimalista, fresco e franco. E em jeito de conselho, para os autores dos famigerados rótulos e contra-rótulos, revejam o principalmente o texto.

quinta-feira, Novembro 13, 2014

A Expectativa

Enquanto estava por a aqui a folhear normativos, despachos, teses, relatórios, salta para a minha frente, entre tantas palavras, uma que reteve-me por momentos: expectativa. Alguém, segundo parece, queixava-se que as suas expectativas, sejam elas quais eram, são ou foram, tinham sido defraudadas. Apeteceu responder simplesmente e desta forma: Não as tivesse colocado, às expectativas, num patamar tão alto. Pareceu-me exagerado, exacerbada tal desilusão, porque na verdade da vida, a expectativa deve ser doseada e servida na medida certa.
Por vezes, e no meio de tanta loucura, consumo e desejos desenfreados, aposta-se alto, elevam-se as tais expectativas ao máximo, como se o tal fosse o tal. Começam, parece-me, a haver muitos tais. Depois a desilusão, o desconsolo é grande, que quase (nos) desequilibra.
O remédio santo, apraz dizer, é ir vivendo, bebendo com calma, sem grandes euforias, sem grandes correrias. Acredito que assim, as tais expectativas, que tanto desiludem uns quantos de nós, acabarão por estar de acordo com a  real realidade. Vale mais fazer a estimativa por defeito. Assim e deste modo, a probabilidade de haver lucro é bem maior. Não acham?

sábado, Novembro 08, 2014

Encruzado&Malvasia

Simplesmente um dueto que funciona, uma dupla que faz sentido, um par que identifica a região.
Seja qual for a proporção entre elas, a percentagem, o peso de uma em relação à outra, combinam, complementam-se, há coerência. Mesmo sabendo que não há relações perfeitas, ficam bem uma junto da outra.



São vinhos que mostram tensão, frescura saudavelmente exacerbada, limpeza de sabores e clareza de aromas. Formam um bloco. O que uma não tem, terá a outra. Ou vice-versa.

quinta-feira, Novembro 06, 2014

Tá-se bem...

Após alguns anos a vaguear pela enofilia, após diversas e múltiplas primaveras e torneadas as emoções, a sensação que fica é que pouco ou muito pouco mudou. O olhar que tenho, desapaixonado nesta altura, é que será impossível sair da redoma em que estamos instalados. As incapacidades são de vária ordem e nem valerá a pena desenrolar o rolo. Seria repetitivo. Está-se assim, porque se quer estar assim ou porque será sempre assim. Ponto.
Observei atento e esperançoso, durante anos a fio, que aquilo, isto ou o outro tivessem a habilidade de prender, de dar um murro na mesa, dar a volta ao texto. Que carregasse o ar com asseio. Fatalmente ou não, tudo acabaria ou acabava por encalhar numa normalidade mórbida, num fatal cinzentão. Os rasgos que ainda perduram, não têm capacidade (ainda?) para alimentar uma esperança qualquer.
 
 
O status, e sem qualquer intuito pejorativo no uso da palavra, vive instalado, seguro, dominando diversas áreas, tentando agora, parece, ocupar nichos que estavam aparentemente a descoberto. Apetece dizer que, no entanto, não tem jovialidade, falta-lhe alegria, interactividade. Falta-lhe, ainda, muitas caras bonitas.
E rodeados por um cinto cada vez mais estreito, mais apertado, vai-se repetindo o que se sempre se fez, o que sempre se disse, vivendo agarrado a uma falsa segurança de não arriscar em ser diferente. Por isso, tá-se bem.
 

quarta-feira, Novembro 05, 2014

2000

Era o ano de tudo. Era o ano do fim, do principio, do apocalipse e do renascimento. Era tudo e foi nada. Alimentou as mais diversas teorias messiânicas, bem ao encontro das multidões desnorteadas. Foi, ainda, o ano em que muitos se apressavam a entrar nos trinta.


Foi, antes de acontecer, uma data longínqua, distante, que iria advir um dia. Algo que remotamente ainda estava bem longe. Agora, depois de acontecer, é também uma data longínqua e remota. Num ápice, e sem se dar conta, já passou. A única diferença é o tempo, que agora é contado de forma diferente: de forma decrescente e sem possibilidade de retorno. 


Foram, ao fim ao cabo, catorze anos normalíssimos, sem nada de extraordinário. A Terra, segunda consta, ainda roda em redor do Sol e o messias ainda não apareceu.

quarta-feira, Outubro 29, 2014

Dão: CAV Vinhas Velhas

Numa lazy afternoon, surge no meio da caixa do nada a lembrança de um vinho branco. Um vinho branco que nasce ou nasceu a partir de um aglomerado de vinhas velhas encostada às faldas da Serra. Segundo consta, vinhas com mais de cem anos. Este facto, não sendo exclusivo na região é, por si só, motivo de curiosidade. 


Depois há outra curiosidade: o nome. CAV quer dizer Clube Amigos do Vinho. É um dos vários projectos que o Produtor SEACAMPO está envolvido. De grosso modo, este produtor vai facilitar aos interessados espaço e os requisitos necessários para que possam guardar os seus vinhos. Desconhecendo a existência de outros projectos semelhantes, devo dizer que achei a ideia curiosa para quem luta com dificuldades de espaço ou não tem as melhores condições ao nível da temperatura.


Sobre o vinho, e para rematar a conversa, pareceu-me um vinho que se pauta pela elegância, pela suavidade, pela finura, pela frescura. É vinho para regressar e voltar a provar ou beber. Como queiram.

sexta-feira, Outubro 24, 2014

Confirmado e Confirmadíssimo

Podia acabar com outro vinho, podia fechar, com chaves de ouro, escolhendo um nome mais sonante, mais de acordo com a fina flor, conseguindo, sei lá, mais inveja ou coisa parecida.


Escolhi para encerrar o périplo bairradino, um vinho de cooperativa. Um vinho que representa um estado, uma lógica: é possível fazer e apresentar ao povo mais elitista e que olha de soslaio, algo com enorme qualidade. 


Este vinho, e resumindo o enredo e contando de forma grosseira, estava a um canto lá no meio de outros. E a certa altura, foi revisitado por quem de direito, ficando estupefacto com a força, a forma, a qualidade, a complexidade que apresentava passados vinte e dois anos. Um vinho saudavelmente decadente. Por todas estas razões e mais algumas, direi que está, por isso, Confirmadíssimo.

domingo, Outubro 19, 2014

Dores Simões e a Irrepetibilidade do Momento

Ainda às voltas com as reminiscências do passado. Estou quase no fim da linha, quase a encerrar o livro de memórias. Os momentos foram únicos, foram irrepetíveis. Este vinho, este mesmo, encerra no seu âmago a definição de perfeito, de maior, de algo que muito dificilmente se conseguirá escalpelizar. 



Devo dizer que seria, no mínimo, curioso ler e ouvir uma qualquer descrição sobre o que poderá saber e cheirar. Quem o fizer, ou fez, tem a minha admiração. Admiração pelo tempo que perdeu em tamanha tarefa. Admiração por ter tido a veleidade e o arrojo de tornar possível o impossível e ter perdido o essencial: o desfrute, o prazer. Ter deixado fugir o silêncio e a companhia, porque há coisas que são irrepetíveis. Por muito que se tente, não se voltam a ter. E a recordação, meus caros, vale mais que simples e inócuas palavras. Sente-se.

quinta-feira, Outubro 16, 2014

Casa de Saima e o Branco de 1993

Podia dizer que ainda havia outro e que entre este e o outro, as diferenças eram meros pormenores, sustentados somente por inclinações pessoais. Na verdade, ambos eram grandes vinhos. Uns preferiram o outro, eu preferi este. Sem zangas, uns beberam o outro e eu bebi este



Preferi este pela suavidade, pelo enorme equilíbrio, pela enorme complexidade de aromas e sabores. Preferi este, porque preferi, porque gostei mais, porque tinha que escolher. Preferi este, porque naquela noite foi, simplesmente o melhor vinho branco ou porque, basicamente, foi o que me soube melhor. E basta.

terça-feira, Outubro 14, 2014

Casa de Saima: do Tonel 10

Simplesmente, e usando pouquíssimas palavras, arrebatador. Em discurso simples, sem qualquer rodeio, sem qualquer vai não vai, sem isto e aquilo, estive perante um grande vinho. Um vinho que marcou a minha noite e o meu momento. Um vinho que fez parar o tempo, que ajudou a colocar algumas agulhas no lugar. E isso é que (me) importa.


Não sei se é clássico, moderno ou simbiótico. Na verdade, não quero saber literalmente de tendências, caminhos ou filosofias. Há muito que uns e outros me baralharam sobre o que era, o que podia ser e qual devia ser o caminho. Afinal tudo não passava ou passa de perspectivas, maior parte das vezes tolhidas por uma enorme cegueira.


Mas regressemos ao vinho. É efectivamente um vinho que merece ser colocado ao lado dos maiores da região, não para ser reconhecido, mas porque o merece por direito. Ser um par e não um pária. E acabo, literalmente como comecei: simplesmente arrebatador.