quinta-feira, novembro 15, 2018

Não me façam vinhos destes!

Mesmo que um gajo queira, não consegue dizer muito sobre este vinho. E as razões são muito simples. Desde o momento em que se abriu a porra da garrafa, mais a velocidade com que se bebeu o vinho, que era de tal ordem, não foi possível qualquer pausa, para reflexões mais ponderadas. É que, meus queridos amigos e desamigos, não havia tempo. 



O drama aumenta se tivermos ao pé outro gajo, que também não perde tempo em verter para o seu copo, o vinho. Fica-se com a sensação que estamos(estávamos) em competição, não declarada, em que o objectivo é(era), simplesmente, beber mais que o outro gajo, que está(va) ali à nossa frente. Por isso, não me façam vinhos destes. É que um gajo não pára de os beber. Principalmente se o(s) gajo(s) e o(s) vinho(s) forem gulosos.

quarta-feira, novembro 07, 2018

Fui às compras e aproveitei ...

Tal caçador fortuito, esperei que o vinho deixasse de ser vendido ao preço verdadeiro (ironia). Quando caiu a promoção dos setenta por cento, aproveitei e comprei. Comprei ao coberto de dois pressupostos muito simples: a possibilidade de ser profundamente surpreendido ou destinar o vinho para outras funções. Deste modo, as perdas não seriam significativas. Eram riscos calculados.
Não tecerei considerações sobre estes vinhos Premium, Signature, Vinhas Velhas exclusivos das cadeias de supermercados. Já muito se disse. Apenas queria saber se era possível obter algum prazer, alguma satisfação com um vinho destes e se voltaria a comprar. A minha escolha recaiu sobre este vinho branco, engarrafado pelo Monte da Ravasqueira. E sem tiques de elitismo presunçoso, direi que as minhas conclusões foram muito simples.


Não tenho qualquer pejo, em dizer que este vinho não vale os dezoito euros que custa (sem promoção). É um ultraje. Não vale, porque se olharmos para a parafernália de vinhos que existem no mercado e que custam entre quinze e vinte euros, logo perceberíamos que estamos perante um grande engodo. Basta pegarmos, por exemplo, no Esporão Reserva. Não dei, portanto, relevância às variáveis relacionadas com o estilo. Há estilos que não aprecio, mas que reconheço muita qualidade, cuidado e quejandos. Não é o caso. O vinho em causa está longe de tudo isto.


E com promoção? Vale os cinco e tal euros? Também não. Não vale, porque é possível encontrar, mesmo nas grandes cadeias de supermercados, vinhos, neste patamar de preço, muito mais interessantes, mais equilibrados, com mais estatura e que, por conseguinte, proporcionam mais prazer. A variável estilo foi, também, desprezada. Prefiro de longe, o Monte Velho que é mais barato. Ou um Evel. Ou um Pegões Colheita Seleccionada, em última análise. Existem inúmeras opções e que bebemos em ocasiões informais ou em ajuntamentos sociais, com (algum) agrado.
O vinho pareceu-me profundamente doce, cheio de sensações a madeira, com uma acidez que parecia ter sido metida lá, pouco natural. Pareceu-me qualquer coisa assim para o estranho, feita aos empurrões. Após uns tragos ponderados e reflexivos, optei por refrescar umas coxas de frango de aviário que estavam no forno. Guardei o resto que estava na garrafa, para outras situações de emergência.
Sei que é difícil vestir roupa que não é nossa, mas tentando colocar-me no lugar de um consumidor mais normalizado, após provar este vinho, diria que nunca mais voltaria a comprá-lo. Optaria, sem qualquer margem para dúvida, pelos clássicos.

sábado, novembro 03, 2018

Gozo Explícito

Há coisas que não valem a pena explicar. Nem estar com grandes teses argumentativas. Que cada um faça o que quiser, com quem quiser, na posição que achar melhor. Vicissitudes da vida.



Sempre achei muita graça a este vinho. Acho-o bem porreiro, bem balanceado e equilibrado. Com um bom nível de frescura e nervo. Em tempos, dizia que estes vinhos eram simbióticos, transversais, mas sem perderem identidade. Rótulo bem curtido. Basicamente, é um vinho que me dá muito gozo. Assim, de uma forma explícita.

quarta-feira, outubro 31, 2018

A Lei do Barro ...

Entendo que temos que inovar, procurar novos caminhos, vasculhar outras opções. Entendo e respeito. Posso depois, e como consumidor, discordar, gostar ou não, comprar ou não. Mas às vezes, permitam-me, fico meio perplexo com algumas das novas tendências. Ou com o exagero a que elas chegam. Foram os vinhos provenientes de vinhas velhas ou centenárias, quando durante muito tempo nos disseram que grande parte delas tinham sido arrancadas. Depois vieram os vinhos naturais ou biológicos ou biodinâmicos que aprecio e dos quais tento ser um seguidor mais atento. Sempre que é possível, é claro. 

Foto retirada do Suplemento FUGAS
Agora a nova moda, parece-me, é a utilização do barro na concepção de vinho, seja ele branco ou tinto. Num ápice temos, quase em todo o lado, vinho a ser fermentado ou estagiado em talhas, potes ou cântaros de barro. Ou ânforas, se formos mais elitistas. 
Se entendia e compreendia que foi, noutros tempos, prática comum na região sul do país, já não consigo perceber a razão e o objectivo de estarem a surgir vinhos de outras regiões mais a norte, fermentados e estagiados no barro. Será que já há vinho do Dão da Talha? Preciso, portanto, que me ajudem a descortinar as razões, os motivos e o interesse. E um dia, por este caminho, ainda veremos aparas de barro.

sexta-feira, outubro 26, 2018

Às vezes acontece...

Não fui bafejado com muitas qualidades, pelo contrário. Tirando uma ou outra, posso partilhar convosco que era e sou um gajo muito rudimentar. Contudo posso dizer-vos que, desde tenra idade, sempre tive uma imaginação fértil. Nunca fui muito prosaico, pelo contrário, em criar cenas alternativas, em desenhar realidades virtuais. Por isso, seria extremamente fácil gerar um enredo de volta deste vinho. Com princípio, meio e fim. Mas seria um atentado ao dito. 



Desta forma, resta-me dizer que este post serve apenas para mostrar que, de vez em quando, também bebo coisas destas. É raro, mas às vezes lá acontece.

terça-feira, outubro 23, 2018

Parcialidade levada ao extremo...

Este post, como tantos outros que vou largando sem qualquer destino na atmosfera, estará, com toda a certeza, carregado de subjectividade, coberto de total parcialidade, alambazado de sensações pessoais. Direi, sem receio e despojado de todo e qualquer tique pseudo-crítico, que gosto de soltar para o ar, um chorrilho de emoções, muito próprias da minha personalidade, sem qualquer fundamentação, sem qualquer nexo, sem qualquer preocupação. De peito aberto e que se lixe quem não gosta.


Num acto de desespero, em que o vício é levado ao extremo, verto para o copo torrentes de vinho completamente desgovernadas. Eu, sujeito passivo, deleito-me ao vê-las caírem na goela.
Que fino vinho! Que saboroso vinho! Sem evidências, sem adornos, despido de modernidades, de urbanismos mal programados. Tão inocente, tão generoso, tão suave, tão dócil, tão eloquente, tão macio, tão perfumado. Um jogo de emoções que quase não acaba. E emociona.

domingo, outubro 21, 2018

As Batatas e Couves

Sem grandes teses ou discursos. Não sou um grande comedor de batata. Talvez, porque não me saibam bem, nas terras onde habito. Não sou um grande comedor de couves, porque também não me sabem bem, nas terras onde moro. A ambas falta-lhes qualquer coisa, nas terras por onde ando. Talvez lhes faltem o enquadramento. Talvez a paisagem, plana para interior e cimentada para o litoral, lhes tire a alma. São, batatas e as couves, parcas em sabor.



No sítio certo, lá mais para cima, onde as fragas governam e dominam sem oposição, as batatas e as couves atingem elevado estatuto no prato (não se esqueçam que ambas mataram a fome a milhares, no passado). As batatas alcançam um sabor inigualável. A couve, esta planta hortense, consegue uma textura, uma graça que em terras mouriscas não tem. Será do frio, da chuva, da neve, do gelo? Será da casta? Não sei. Sei que não me sabem ao mesmo.


Sei que em tais lugares mais para cima, que são os meus lugares, a batata e a couve atingem uma importância, apenas comparável ao ouro. Na verdade, valem mais. Inundadas com azeite, servem para tudo e mais alguma coisa. Muitas vezes, nem precisam de nada.

terça-feira, outubro 16, 2018

A Pescada Cozida

De confecção simples, é das coisas que mais gosto de comer. Fresca e com calibre assim para médio/grande, a pescada cozida ocupa lugar no topo das minhas preferências, junto a outras tantas.


Com uma boa dose de sal, antes de ir para a panela para puxar pelo sabor. Depois cozida com cebola e dois a três dentes de alho, com um raminho de salsa e coentros. Não deixar cozer muito, para não se desfazer. Perde a graça. Na verdade, chateia-me comer o peixe demasiadamente cozinhado. Seja ele cozido ou assado. A parte do bicho que prefiro é, sem qualquer dúvida, a cabeça. Se ela tiver tamanho xxl consegue alimentar dois estômagos potentes. E todos os recantos, espinhas e cartilagens têm o seu encanto e profundo sabor. É chupar até ao fim. Tudo, na cabeça, serve para este propósito. É tipo caça ao tesouro.


Para acompanhar este peixe da família dos cienídeos, uso uma porrada de coisas: batatas, feijão-verde, cabeça de nabo, grelos (prefiro os de nabo), cenoura e, pois claro, um ovo cozido. Depois tudo bem encharcado em azeite, com umas esguichadelas de vinagre, para poder molhar o pão. O vinho tem que ser assim qualquer coisa para o ligeiro e fresco, sem grandes complexidades. Apenas para ir desembuchando.

sexta-feira, outubro 12, 2018

Ide à Adega dos Sabores

Como espaço profundamente pessoal, em que presto contas apenas a mim, não quero perder, desta vez, a oportunidade de elogiar, de publicitar esta tasca de Alcochete. Não sendo necessário, digo-vos que tenho uma relação próxima com o dono da coisa. Adoro falar bem de quem gosto e me trata bem. Ao fim ao cabo, como vocês.




Espaço pequeno, acolhedor, talhado para o petisco. O objectivo não é encher a pança, apesar de ser possível tal desiderato. É que o homem da casa tem mão para a coisa. Isto é para os tachos e panelas. Tudo bem apurado e temperado. Nada de desenxabisses. E se um gajo levar companhia certa, acaba-se por engolir, assim num ápice, uns quatro a cinco pratinhos bem aconchegados. Desde o pica-pau às burras estufadas de comer à colher, aos ovos mexidos com isto ou com aquilo, às moelas, aos cogumelos e mais outras coisas que não me lembro. 



Outra coisa. É também lugar onde há vinho. E a cada ano que vai passando, percebe-se que a aposta e o interesse (o tipo da cozinha, que se chama Pedro, gosta muito de pinga) vai sendo cada vez maior. Por isto tudo e mais algumas coisas que não me lembro, a Adega dos Sabores é (quase) a minha segunda casa em terra por onde habito.

segunda-feira, outubro 08, 2018

António Saramago: Outros Tempos...

Podia começar a coisa com uma tese sobre os vinhos da Península de Setúbal, terra que me adoptou há muitos anos. Não preciso de voltar a dizer e muito menos insistir que esta região não está na minha primeira linha, no que respeita às minhas escolhas. Contudo, não perco a oportunidade para ir provando o que vai saindo no momento, optando por um leque muito reduzido de produtores e vinhos. Ao fim ao cabo, como nas outras zonas do país. Tenho as minhas preferências. Mas apraz dizer-vos que lembro com muita saudade dos velhos vinhos feitos com castelão. Coisas que já não regressam.


Este vinho, meus queridos amigos e desamigos, reporta-nos para um estilo que praticamente já não existe, aqui por Pegões, Palmela, Azeitão e Setúbal. Profundamente elegante, cheio de frescura, tanino seco e muito fino no trato. O tempo fez maravilhas. Caramba, ao reler o que acabei de escrever, até parece que percebo da coisa. 


Vendido, no seu tempo, por dez euros, era dos melhores vinhos, para mim, que  se podia encontrar no polígono de Pegões, Palmela, Azeitão e Setúbal. Escusado será dizer que me proporcionou um dos melhores momentos, no que respeita ao vinho, neste ano de dois mil e dezoito. Talvez por saudosismo.

segunda-feira, outubro 01, 2018

O Casamento Perfeito...

Vejo a malta a falar de combinações, de maridagens, de que isto fica melhor com aquilo, que para comer isto devemos beber aquilo. 


Na verdade vos digo que não haverá maior coerência, melhor maridagem (que palavra tão pipi) que acompanhar um vinho com água, provenientes do mesmo local, da mesma região. Poucos lugares terão vinho e água tão boa. 


Digamos que aqui, a mineralidade e a frescura não se perdem. Prolongam-se. Isto sim, é harmonia, casamento perfeito. 

quarta-feira, setembro 26, 2018

Seria só para explicar à malta!

Apesar de andar meio desmobilizado da coisa do vinho, e por causa das feiras do vinho, notei (mais uma vez?) que nenhuma das edições escritas em papel, vulgo revistas de vinho, fez um artigo, uma peça de investigação ou esclarecimento, sobre a dinâmica das promoções. Como é que são idealizadas, pensadas e aplicadas? Quem ganha? Quem perde? Ninguém perde? Todos ganham?


Podia ser algo do tipo muito simples. Seria só para explicarem à malta como é que se consegue promover um vinho com 50%, 60% ou 70% de desconto. Com ou sem cartão.
É que continua a fazer impressão, ao Tico e ao Teco, ver produtores a lançarem conjuntamente com as cadeias de hipermercados, vinhos com nomes perfeitamente desconhecidos, quase todos premium, a preços de promoção estrondosos. Será que é tema sem interesse?