terça-feira, maio 05, 2015

O Primeiro

O primeiro não é na maior parte das vezes o melhor, o mais bem conseguido, que nos satisfaz na totalidade. Por vezes, carrega às costas imperfeições, arestas por limar, inúmeras falhas. Apesar de todos os eventuais desalinhos, acaba por ser curiosamente o mais marcante. Marcante, porque do nada e sem nada apareceu. Apareceu, porque naquela altura tinha que aparecer. Foi o ponto de partida e todos os pontos de partida dão origem a uma viagem. Curta ou longa.

O tempo tem-lhe feito muito bem. E apesar de todas as incoerências, minhas e do vinho, sempre gostei muito dele, vá-se lá saber porquê.

E as suas incorrecções, com o amadurecimento do tempo, tornam-se perfeições que fazem recordar diversas peripécias do passado, com um simples sorriso nos lábios, sem qualquer mágoa. Eram tempos de ingenuidade, em que se pensava que tudo era possível, alcançável e que o mundo estava ali ao dispor de uma simples passada.

quinta-feira, abril 30, 2015

Quinta da Nespereira: O Encruzado e ...

Podia ser um dos projectos mais importantes e dinâmicos do Dão. As expectativas eram enormes. Conheci, muito bem, o que existia antes de ser colocada a vinha. Era basicamente um amontoado de pedras, calhaus, giestas e fragas. Ao fim ao cabo tratava-se de terra abandonada, sem qualquer utilização, como tantas outras na Beira Alta, na Beira Serra, Beira Interior ou no Interior Norte, como queiram. De uma assentada e a um ritmo considerável, a demonstrar fulgor, interesse, motivação e espírito de aventura, uma relevante área de terreno foi reorganizada, reconvertida, tornando-a numa das mais belas vinhas da região, sendo provavelmente a vinha situada na cota mais alta do Dão. Atrevo-me a dizer que será a verdadeira (única?) vinha de altitude na região. Havia, portanto, uma conjugação de felizes factores. 


Os anos passaram, e cumprindo a tradição fatalista da zona, o projecto entra num inesperado marasmo, apresentando um conjunto de contradições inexplicáveis: uma errática e estranha politica de distribuição, um crescente aparente desinteresse e desmotivação por parte de quem gere os destinos do projecto. Na verdade, não é caso único. Não muito longe, e ao fim muito pouco tempo, abandonou-se outro projecto que parecia ter tudo para vingar. Parecia, mas na verdade não tinha.


Passando, agora, para o lobbying: Os vinhos demonstram ter potencial que lhes permitiriam dar outro salto. Passar para o patamar superior. Há matéria de qualidade. Houvesse mais arrojo. O Encruzado de 2013 é exemplo desta premissa. Um branco que, e pegando nas palavras de outrem, está um verdadeiro mimo. Um vinho branco que não satura, que apetece beber até mais não, que vicia, tal é a feliz ligeireza e franqueza. Com uma simplicidade estonteante. Um vinho branco que, com outra visão, teria outro valor, seria mais reconhecido, seria uma perfeita coqueluche do Dão. Resumindo, vai valendo, assumo a minha profunda ligação e amizade ao faz tudo da Quinta, o empenho dos restantes colaboradores que gostam de receber e de ter gente por perto.

terça-feira, abril 28, 2015

Taylor's 20 anos

A categoria 20 anos é, provavelmente, a mais tramada de todas e não aquelas que se situam mais abaixo, como se diz por aí. Abaixo do patamar 20 anos, pouco ou nada interessa ou desperta verdadeira curiosidade. São, na maior parte das vezes, vinhos relativamente caros, com pouca complexidade, com elevada doçura e pesados. Sem interesse e não recordo um que atice a vontade de repetir. Logo, a coisa acaba por tornar-se fácil.



Com a categoria 20 anos temos, presumivelmente, a possibilidade de perceber, um pouco, o que são ou serão vinhos do Porto com mais idade. Apesar de mais caros, é possível descortinar o topo da cadeia. Conseguimos imaginar o que será e como será. No entanto, também aqui, nem sempre alcançamos um vinho que seja capaz de encher as medidas e compensar o investimento feito. Os engarrafamentos variam e influenciam o resultado final o que cria um amargo de boca. Deixam-nos, muitas vezes, a meia missa e defraudados o que não foi o caso deste Taylor's. A satisfação pessoal aumenta ainda, pois claro, quando bebemos sem pagar o que acaba por ser o cenário perfeito.

segunda-feira, abril 27, 2015

ALLGO Branco

Andava há tempo para traçar umas linhas sobre o vinho, nem que fosse só para referir-me, simplesmente, a ele. E mantendo-me fiel ao modo, serão breves as considerações sobre o dito. 


Um vinho que surpreendeu bastante. Fiquei com a convicção, no meio de tantas provas feitas no dia, no meio de outros vinhos mais ou menos semelhantes entre si, que tinha ali algo que merecia efectiva atenção, tempo e consideração. Um branco cheio de tensão, com muito nervo, com uma forte carga mineral, em que a frescura rasgava a boca a toda a largura. Com personalidade vincada.


Fiquei com a convicção de que tinha ali algo que iria aguentar o tempo, evoluir, crescer, dominar-se e amadurecer. Resta assinalar mais um aspecto curioso. No lote que integra o vinho, surge uma casta que, apesar de algumas replantações aqui ou além, tende a desaparecer no Dão: uva cão. É al(l)go , portanto, para seguir com toda a atenção.


quinta-feira, abril 23, 2015

Real Companhia Velha

Publicamente assumi perante os responsáveis que o meu conhecimento sobre a Real Companhia Velha (RCV) era, de alguma forma, reduzido. O que sabia assentava sobre diversos lugares comuns, mais ou menos sustentados.

Salão Nobre da RCV em Vila Nova de Gaia.
 Quinta das Carvalhas: Casa da Família Silva Reis
Quinta das Carvalhas e Casa Redonda ao fundo.
A percepção, a minha, é que estava perante uma empresa que apostava essencialmente no negócio do grande volume, com alguns produtos a posicionarem-se em patamares mais elevados, mas sem o reconhecimento de outras casas do Douro/Porto.



Quinta das Carvalhas
Quinta dos Aciprestes
Resumindo, e sem prolongar-me com justificações desnecessárias, sabia que produziam o Porca de Murça: o branco foi no passado uma opção de compra; o Evel na versão Grande Reserva/Grande Escolha foi vinho que sempre apreciei e segui com atenção até há pouco tempo; Quinta do Cidrô Chardonnay, por achar que era o perfeito exemplo de um vinho californiano; que também eram responsáveis pela Quinta dos Aciprestes, que apesar de algumas provas bem sucedidas no passado, não nunca lhe dei muita importância.
Sabia, também, que a partir da colheita de 2000 a empresa lançou todos os anos para o mercado um Vintage. E que foram (e são) responsáveis pelo colheita tardia, eventualmente, mais bem sucedido de Portugal. Sabia, porque passei diversas vezes perto do seu portão, que a Quinta das Carvalhas pertencia ao universo da RCV.

Quinta do Sídio
Palácio do Cidrô
Quinta da Granja

Por isso, e sem querer querer entrar em discursos bajulativos, enaltecendo isto ou aquilo, a empresa não precisa que o faça, fica a percepção, após uma visita de três dias aos diversos pólos sob sua responsabilidade (um património vastíssimo e muito interessante), que existe forte vontade de todos os responsáveis para reposicionar todo o projecto, incrementando-lhe qualidade, valor acrescentado, tentando, desta forma, desmitificar alguns dos potenciais preconceitos que poderiam existir. A criação da gama Séries e Carvalhas, bem como a consolidação das marcas Quinta do Cidrô e Quinta dos Aciprestes são exemplo disso.

quarta-feira, abril 22, 2015

Blandy's Verdelho 1977: Só para constar!

Estes é daqueles posts que mais gozo dá em delinear, dado que não servirá para quase nada. Desde as fotos, de má qualidade, ao conteúdo, pouco ou nada serve. O foco é simplesmente fazer pirraça colectiva. Como irão constatar, o conteúdo é profundo, cheio de articulados densos, que apelam a uma análise cuidada por parte de quem lê ou irá ler. Resumem-se, simplesmente, às fotos.



Portanto, e não querendo alongar-me muito com isto, dado que até estou razoavelmente bem disposto, facto raro, devo dizer que foi bebido com uma gulodice voraz, como que se a vida, a minha, acabasse logo ali a seguir. Por isso, como devem imaginar desapareceu num ápice. E pronto, foi assim. 

segunda-feira, abril 20, 2015

Abandonado

Estar Abandonado, por culpa própria ou de terceiros, é um estado que fatalmente deixa enormes mazelas. Abandonado à nossa sorte, sem qualquer apoio, sem qualquer amarra, torna-nos apátrida. De lado nenhum.


Abandonado é sinal de desamparo, de solidão, sendo que a condição de solidão, parece-me, é bem diferente da condição de abandonado. Solidão pode ser uma opção, enquanto abandonado é resultado, na maior parte das vezes, de acções. Acções que não se esquecem, que ficam guardadas, preservadas até um dia. Um dia em que se apontará tudo, em sinal de libertação, mesmo que o resultado final seja mais do mesmo: Abandonado.

Simplesmente um grande vinho. 
Só que desta ou dessa vez será por direito próprio, por livre escolha e não porque nos impuseram esse estatuto.

domingo, abril 19, 2015

O Branco: Flor das Maias

Assumidamente uma opinião parcial, tendenciosa e sem qualquer intuito, portanto, em esconder o que penso e como penso. Um estado que aprecio e que me deixa confortável. Na verdade, alegar independência é enredo para uma novela de cordel. Ninguém a tem e admiro, mesmo não concordando, quem demonstra e ou assuma a falta dessa qualidade. 


Feito o prelúdio, e sem qualquer cuidado, mais uma vez, nas palavras que escolhi para o efeito, devo dizer que este vinho branco encerra, dentro de si, um enorme potencial. Com o objectivo de ser um vinho de topo, mostra já uma complexidade, uma finura de trato muito assinalável. Apesar de não ser esmagador, não é esse o objectivo, são profundos e intensos os sabores e aromas. A sua evolução no copo é marcante e curiosamente mostra-se mais interessante, mais cativante com a temperatura mais alta. Sinal, quiçá, da sua personalidade. É um grande vinho branco do Dão.


Posto isto tudo, será escusado dizer que vem de um local que conheço, de uma terra e região que me diz muito e por isso é forte a carga emocional. Um vinho, portanto, de paixão e como tal foi bebido de forma exacerbada, intensa e fogosa. De outra forma, e ao coberto da tal seriedade e independência, perdia toda a graça e interesse.

quinta-feira, abril 16, 2015

Evel Grande Reserva 1999: Versão Manuscrita

Aproveitando a pausa do café, aqui vai um mero entretém para hoje.
Não há muito tempo tinha referido que, por causa do rótulo, comecei a relegar para segundo plano este vinho, não por causa de falta de qualidade dele, mas porque embirrei, por questões meramente pessoais, com a estampa. Uma questão, portanto, de gosto.
Mas não deixa de ser curioso que, da última vez que o bebi, não tinha sequer rótulo. Tinha, apenas, uma breve descrição manuscrita. Apesar de identificado de forma muito elementar, fez recordar a classe do antigo (rótulo). Vinho e vestimenta eram coerentes. Ficavam bem um para o outro.


De qualquer modo, foi e ainda é um belo vinho tinto e que marcou, para mim, um período feliz da minha vida. Quase que me atreveria a dizer que 1999 foi um dos meus anos Vintage. Um vinho elegantizado pela idade, um vinho que apetece simplesmente beber. Revelador, também, da boa capacidade que tem para ir passando pelo tempo. E terminada a pausa do café, sobra aquela máxima bem conhecida de todos nós: recordar é viver.

terça-feira, abril 14, 2015

Uma grande virtude

Acordei, como quase sempre, meio mal disposto, irritado com mil e uma coisas. Coisas que, por muito tente, ainda fazem disparar os alarmes da impaciência. Impaciência e irritação por não ser capaz de virar as costas a meia dúzia dessas coisas que insistem moer. Impaciento-me com a pobreza intelectual, a decadência da qualidade, a boçalidade escrita e oral que vai existindo, pululando livremente. Que enchem a nossa vida.
Gosto de acordar, tomar café e ler as novidades do dia. Novidades que sejam novidades, que sejam novidades alegres, ler e reler textos bonitos, que façam sentir que vale a pena, que há uma indelével esperança. Mas a porra é que a miserabilidade do intelecto é tão grande que nos coloca, bem cedo, sem vontade de enfrentar o (este) dia. 


Sobra por isso, neste momento, a confiança de que amanhã quando voltar a acordar, mesmo mal disposto, surjam pela frente histórias mais bonitas, relatos mais emotivos e íntimos. Coisas, as tais coisas, que nos alegrem. Até lá, apetece dizer que o cinismo é, efectivamente, uma grande virtude.

domingo, abril 12, 2015

Simplesmente: Back to Basics

Há momentos que se tornam icónicos por representarem na perfeição um estado de alma, a razão pelo qual optámos ou tentámos ser assim e não de outra maneira. São lances que nos fazem relembrar do que gostamos efectivamente, independentemente de modas ou corridas desenfreadas em busca sabe-se lá do quê. À procura de um graal que não existe, de facto. São momentos que nos dizem, tal altifalante ao ouvido: pára!

Simplesmente tinha tudo para não vingar. Mas vingou. Vingou de forma brilhante. Sorte ou acaso?

Na verdade, e em jeito de partilha, ando numa silenciosa demanda com o propósito de reencontrar a inocência perdida, numa tentativa de regressar ao básico, ao elementar. Despojar-me de todos os desejos, aspirações e ambições sem sentido, relegando para posições secundárias coisas e actos que são, na verdade, meras ilusões que apenas desgastaram e ainda desgastam. Que desviaram do óbvio, do que realmente importa e interessa. Que nos vão matando lentamente, impossibilitando de viver.

Era disto que gostava.
É como se quisesse voltar à condição de criança, que já fui, a olhar para uma montra repleta de brinquedos que não posso ter. Mirá-los por breves segundos, mas seguir caminho aconchegado pela mão da mãe. Sinal de resignação? Talvez sim. Talvez não. Antes sinal de constatação: cada um faz o que pode fazer e tem o que pode ter.

sexta-feira, abril 10, 2015

JMF Moscatel Roxo 20 anos: Moscatel que é Moscatel de Setúbal

Por muito que tente, por muito esforço que imprima em entender ou aceitar, há coisas que são o que são, para mim. E perdoem-me, todos aqueles, que acham o contrário. A presumível liberdade, em que vivemos, assim vai permitindo. Não encontro casa que trabalhe, na generalidade, os Moscatéis de Setúbal com a mesma mestria da José Maria da Fonseca. Dou de barato que esta afirmação tão taxativa, tenha como sustentação o meu eventual desconhecimento sobre o que há ou não na região.

Com uma profundidade e complexidade ímpares que o situam ao nível dos grandes vinhos licorosos portugueses.
A capacidade de perdurar na memória é elevada. Passadas horas, após o último gole, ainda pupulavam um conjunto de sensações sumptuosas, luxuriantes, levando-nos a pensar que a vida pode ser próspera.
São raros, muito raros (ou residuais) aqueles que conseguem situar-se no mesmo patamar. São pesados, demasiado melados, parcos em frescura e complexidade, planos e sem garra. Sem aquele toque muito especial, que nos faz ficar efectivamente feliz o resto do dia ou com enormes saudades no futuro, por causa da sua ausência. Acabo como comecei: são o que são.