quinta-feira, Agosto 28, 2014

Carregar uma Carroça

Ao rever o álbum de fotos que fui sacando, durante estes largos dias, há uma que fixou-me por breves segundos. É, para quem olhar para ela, uma simples foto de uma casa qualquer. Na verdade, para quem não sabe o que é e o que ela representa, não é mais do que isso: uma simples foto de uma casa foi amarela


Mas a foto possui algo de intimo, de muito pessoal e familiar. Trata-se de um espaço, de um dos cenários escolhidos por Vergilio Ferreira para algumas das suas obras. E por entre tantas passagens, vivências e conversas com algumas das suas personagens, que aconteceram por entre os domínios da casa, surgiu-me uma expressão, uma afirmação, uma consideração, uma citação, o que seja, na cabeça e que não pára de martelar incessantemente: "É mais difícil ser livre do que puxar uma carroça." Será por isso, que no final de tudo, preferimos carregar com carroças ao lombo. É muito mais fácil.

quarta-feira, Agosto 27, 2014

Anos Menores ou Inaptidão?

Constatação pessoal: começo a reparar, já algum tempo o fazia, que de anos menores, por múltiplas razões, surgem vinhos com enorme interesse, com enorme carácter, com grande potencial, com  uma personalidade bem vincada. Que apetecem beber.


Fica a (minha) convicção que, independentemente do ano e das contingências do mesmo, podem, por isso, surgir bons ou muito bons vinhos. O muito antes do bom, fica ao vosso critério. Depende do grau de doutoramento de cada um e do que procuram.


Tenho a impressão que em anos menos bons, vê-se quem consegue dar a volta ao texto. Dito de outra forma: ou se tem aptidão ou não.

domingo, Agosto 17, 2014

Quinta da Pellada

Um post que serve, antes de mais e de tudo, para desenferrujar os meus dedos em plena seally season. Nada mais que isso. Na verdade, o post em si é mais uma constatação pessoal e não outra coisa qualquer mais profunda. 


Digamos que é, também, um acto de partilha para quem vai lendo, aqui ou além, o chorrilho de disparates que regularmente vou largando, em jeito de poluição visual. Adiante no assunto.


Quando se fala que determinado vinho se bebe aos copos, que escorre pela garganta de forma viciante, não é desclassificá-lo, não é torná-lo menor. É precisamente o contrário. Revela que foi projectado de forma correcta, com um objectivo bem definido. O desiderato de um vinho é, no fundo, ser bebido. O resto são deambulações, mais ou menos, intelectualóides.


E este vinho que ilustra este furo dominical de domingo, encaixou no conceito: vinho para se beber aos copos: fresco, leve, elegante e sei lá mais o quê. Vinho que desaparece(u) da garrafa num ápice.

sábado, Julho 26, 2014

Aliás ou de Outrora?

Não quero tecer grandes considerandos sobre o(s) vinho(s), isso é matéria que há muito abandonei. Deixei de ter paciência, tempo, disponibilidade mental para tal. Quero, antes de zarpar para férias, registar publicamente nesta tabanca de esquina, e para sempre, que gostei francamente deste vinho.


Gostei, por que gostei, porque gostei da imagem, do estilo, da sua suavidade desconcertante, pelo seu equilíbrio, pela sua finura de trato. Depois, e reforçando ainda mais, fiquei saudavelmente chocado pelo seu baixo nível de graduação alcoólica. Atrevo-me a dizer que é efectivamente um vinho de outrora, ao arrepio da actualidade. Terminada a garrafa, ainda penso no que bebi.


E se porventura algum de vocês não estiver de acordo comigo, como sempre, nas palavras que desenrolei à vossa frente, não se preocupem, não liguem. Pensem, em apenas, que são palavras de alguém despreocupado, desligado e desbragado, que bebe carregado de emoção e sentimentos, sejam eles bons, maus, alegres ou tristes. Não se esqueçam que tudo se resume a uma mera questão de opinião, de perspectiva, de pluralidade. De sim ou de não.

quarta-feira, Julho 23, 2014

Ao Avesso e do Avesso

Há projectos que criam empatia por alguma razão ou por nenhuma razão. Outros nem por isso e de outros afastamo-nos. As razões estão sempre no subconsciente, no emocional, no (in)justificável. Mas queira-se ou não, diga-se o que disser, as relações humanas definem os nossos interesses. E quem pensar o contrário, desengane-se. Há-de ser sempre assim e assim há-de ser sempre. Por isso, continuo a divertir-me com pretensas isenções, com as novas paixões, com o que se vai dizendo por todo lado. As pérolas, essas, que pensava estarem esgotadas, surgem em catadupa. Na linha da frente, e apesar de algumas mudanças nas trincheiras, tudo se mantém inalterado. 


Por isso, e justificando o preâmbulo, devo dizer que por causa deste homem, o interesse na Quinta de Covela redobrou. Pela sua simpatia, pela sua amabilidade, pela sua humanidade, pela sua alegria, fez ganhar mais um adepto: eu.


Podia dizer que estava ou ando ao Avesso, mas não estou e não ando. Existe, apenas, um enorme desejo de liberdade e de franqueza, nem que por isso tenha que virar tudo ao Avesso. E como devem esperar, neste momento, a garrafa já foi virada não ao avesso, mas de baixo para cima. Várias vezes.

terça-feira, Julho 22, 2014

Lisboa ou Vinhos Atlânticos

Não sei se é o pronuncio de alguma coisa, mas o que posso dizer é que nos últimos tempos tenho olhado com atenção bem redobrada para os vinhos brancos de Lisboa. E antes que continue a desenrolar a homilia, devo dizer que apesar de bem esgalhada, do ponto de vista turístico, a denominação faz-me, ainda, alguma espécie. É que percorro Lisboa e não encontro vinhas. Mas porque posso dar-me ao luxo de poder inventar a meu belo prazer as mais disparatadas expressões, de escolher outras coisas e mais algumas, prefiro chamar-lhes Vinhos Atlânticos. E se dobrarmos para inglês, olhem que não fica mal: Atlantic Wines. Parece-me mais exclusivo, mais diferenciador, mais alternativo.
Paulatinamente e de forma gradual, começo a cimentar a ideia que teremos, ou poderemos vir a ter, que digam os verdadeiros peritos na matéria, um pólo com muito interesse para quem gosta de variar um pouco.


Toda aquela língua de terreno com silhueta feminina, ventosa, com nevoeiros matinais, que leva com o mar dia após dia, confere aos vinhos uma frescura acentuada, um carácter marítimo bem vincado. 
Fica, também, a minha convicção, que os produtores, no geral, começam a ter um propósito, um foco, uma intenção, um objectivo. A coisa parece prometer. E nós, apesar dos bolsos desfalcados, lá teremos que gastar mais umas moedas. Basicamente dividir o parco espólio. Sobre os tintos, salvo uma coisa ou outra, a história é um pouco diferente.

terça-feira, Julho 15, 2014

Lavradores de Feitoria@Memmo Alfama

Foi saudavelmente uma apresentação cheia de alegria, carregada de boas ondas, num lugar mais que perfeito (Memmo Alfama) para tomar conhecimento dos novos vinhos brancos da Lavradores de Feitoria. Um espaço magnifico, bem decorado, bem enquadrado na paisagem pitoresca de Lisboa.


A forma e o feitio da apresentação pareceu-me a ideal, quase provocatória e bem arriscada. Diria, e perdoem-me eventuais falhas, rara.  Ouviu-se pela mestre de cerimónia, apenas e bem: desfrutem. E, assim, foi feito. Para quem não se sente confortável ou não está habituado, é ou era capaz de ficar, sei lá, à nora.

Olga Martins:  CEO e Directora Comercial da Lavradores de Feitoria e que foi considerada a Executiva do ano em 2013 pela Máxima Mulher de Negócios.



Apostou-se na informalidade, na liberdade, em que cada participante podia fazer o que lhe desse na tola: sentar-se e apreciar a vista, ficar calado ou conversar com o vizinho do lado, rir e sorrir, dizer o disparate mais deslocado que possa existir. Nada de apresentações taciturnas, demoradas e prolongadas, cheias de nuances técnicas, empachadas de lugares comuns e egos.






E por entre petiscos, boa disposição, muita alegria, os vinhos foram rodando pelos copos e os comentários, esses, pareciam mais livres e genuínos. Sem medos, sem receios e com os sacra-caderninhos bem discretos, o people falou com quem quis e da forma que quis. 



Sobre os vinhos, e não querendo tecer longuíssimos comentários, diria que estão focados para a época (quente). Com fruta, para se beberem jovens, em regime de esplanada, picando uma coisa aqui ou outra acolá. Vinhos com urbanidade, cosmopolitas, citadinos. Regista-se a curiosidade do Colheita Tardia e do Riesling que resulta de uma parceria com o Chef Rui Paula. E, contradições à parte, gostei deles

quinta-feira, Julho 10, 2014

Rebater Teses

Um post telegráfico que serve, além de engrossar o arquivo do blog, para dignificar o mesmo. Posto isto, cabe-me afirmar sem rodeios ou qualquer pudor, e porque já viram a foto a rodar pelas redes sociais, que este vinho encheu-me as medidas. Não sei se foi por causa do momento, da altura, da ocasião (não havia nada para festejar ou lembrar), mas soube-me pela vida. 


Um vinho que, vejam lá, pertence ao tal ano quente de dois mil e três e que, vejam lá outra vez, tem mais de catorze por cento de graduação alcoólica. No momento, em que o vinho ia escorrendo, pareceu-me que as teses anti-graduações elevadas deixavam de ter qualquer sentido, tal como desconfiar de um vinho por causa de um ano mais ou menos complicado, pareceu-me, mínimo, preconceituoso. Apraz dizer que este vinho rebateu, no tal momento, algumas das ideias pré-concebidas que se vão instalando, muitas vezes, sem qualquer sustento técnico. 

sábado, Julho 05, 2014

B de Sofhie: Apetecia-me Este em vez do Outro

Bebi vinho, como é expectável, enquanto estava (e estou) a escrever este post. Um post que será, como sempre, despropositado. Ora reparem nesta confusão: enquanto ia bebendo determinado vinho, dei comigo, vejam lá, a pensar noutro vinho que já bebi e que gostaria de estar a beber. Coisa que é, no mínimo, parva. É como estar com uma mulher, mas pensando noutra. Digamos que estaria a cometer uma traição enófila.



Ou é por causa do tempo que começa a bater à porta ou por causa do estado de espírito que me acerca, este vinho que, segundo consta, vem de Sancerre, era o que me apetecia, na verdade, beber. Apetecia-me, talvez, por que tem aspecto diferente, por que vem de outras bandas. E o mais absurdo, é que por cada trago de vinho que via sorvendo, mais vontade tinha de beber o outro, que é este que aparece nas fotos. 

segunda-feira, Junho 30, 2014

Sob o Signo da Falácia

O que vou talhar nesta página em branco não está, como sempre, relacionado com as ilustrações. Elas servem, como sabem, para aumentar o tamanho do post, dando-lhe um ar mais sério. A garrafa está vazia, porque o vinho foi bebido fresco, ao longo de uma tarde soalheira, debaixo de um telheiro, à sombra e em puro estado de letargia mental. Estado que invariavelmente se instala, pelas múltiplas razões. Serve esse estado, por exemplo, como protecção para o que vou observando na vida e lendo aqui ou acolá.


E quando estava a botar para dentro do copo os últimos restos do vinho, será escusado falar sobre ele, e em jeito de suspiro, sou assombrado pela convicção de que vivemos, pelo que me dá a entender, uma enorme falácia. Tudo o que nos andam a dizer é, na verdade, um logro. Um manto de nevoeiro que se lança sobre os incautos, fazendo-lhes acreditar que a opção, o caminho é outro, quando não o é. Nunca o foi.


Filosofias baratas à parte, creio que as nossas castas sustentadas naquela enorme variedade, dizem que são largas centenas, são ainda insuficientes e não chegam. Não são suficientes para fazer vinho com algum interesse. É preciso, e cada vez mais, que se use algumas coisas que vêem lá de fora. Os portugueses, gente com enorme capacidade de iniciativa, que adora estar na linha da frente no que respeita à globalização, não quer, por isso, ficar atrás. Desta forma, há que rapidamente enfiar nas suas vinhas cepas que lhe possam garantir reconhecimento nacional e internacional, tal toque de Midas. É que palavras como Maria-Gomes, Bical e Cercial são efectivamente nomes de outros planetas.

terça-feira, Junho 24, 2014

Quinta das Tecedeiras: Reborn

No jogo de mudanças que também vai acontecendo no mundo do vinho, a Quinta das Tecedeiras apresentou-se ao público com novos proprietários. Os mesmos que, neste momento, governam a Quinta de Covela: Marcelo Lima e Tony Smith. Coube ao segundo o papel de representar a dupla em Lisboa.
Com esta mudança de mãos, regressa Carlos Lucas que, como é sabido, foi o enólogo responsável no passado pelo projecto. Um projecto que conhece e pelo qual tem especial predilecção, segundo palavras do mesmo.


E foi debaixo destes ares de mudança que no Bistro 100 Maneiras foram apresentadas duas novidades: a nova colheita de Flor das Tecedeiras e um Porto Special Reserve. O primeiro encarna perfeitamente no estilo de vinho com fruta, equilibrado, franco, directo e saboroso. Um vinho que pretende alcançar o maior número de consumidores possível.


O segundo, o Porto Special Reserve, de que apenas foram feitas algumas centenas de garrafas, foi apresentado à plateia como um produto de luxo e exclusivo e independentemente do preço (proibitivo?) a que irá ser disponibilizado ao público (lá para o final do ano), devo dizer que gostei francamente.


Feita a apresentação das duas novidades, o cenário passou a ser outro. Pela mão de Ljubomir Stanisic, o Papa Quilómetrostivemos acesso a um menu que procurou o equilíbrio entre a comida e os vinhos que foram sendo servidos. E antes que comece a desenrolar as fotografias do sucedido, ainda vou a tempo de traçar umas breves notas sobre o Reserva 2003 que foi oferecido aos comensais durante o almoço.  Um vinho que estava em perfeita saúde, muito equilibrado e elegante. Um vinho que acabou por ser, palavras minhas, o momento alto do dia.




Sardinhas

Borrego: Costela e lombo.
Quinta das Tecedeiras Reserva 2003: O meu preferido.



LBV e Queijos.
A partir daqui, resta-nos esperar pelo que irá sair novamente da Quinta das Tecedeiras. Ao fim ao cabo é o regresso a casa de alguém. E os regressos são sempre motivo para festejar.

terça-feira, Junho 17, 2014

Uma questão de Cotas

Com a distracção que o dia a dia impõe, acabamos por não observar determinados acontecimentos da melhor forma. Andamos, por ali, sem perceber, ou a perceber de forma errada, o que efectivamente se passa ou passou. Por vezes, e porque julgamos ser senhores e reis do pedaço, não damos conta que o nosso discernimento está tolhido.



Basta mudar de cota, subir mais uns quantos metros até lá a cima, para perceber melhor o que se passa na realidade. De cima para baixo, ficamos a ver de forma mais clara a movimentação das peças do xadrez. Fica mais visível, quem é quem, como actua, como se comporta. A vida parece ter outra vida, observam-se pormenores que dantes eram imperceptíveis, que passavam completamente despercebidos. Os ares são, de facto, outros. Mais frescos, menos abafados, mais airosos.



De facto, a cotas mais baixas, tudo parece (nos) igual, semelhante e pouco clarividente. Feita a experiência com as diferentes cotas, percebe-se facilmente que lá do alto se fica em posição privilegiada. Depois resta tomar, se possível, as melhores decisões.