segunda-feira, dezembro 18, 2006

A Subjectividade da Prova

Na Revista dos Vinhos, edição de Abril de 2002, nº 142, na coluna Correio dos Leitores, escrevi, em termos genéricos, o seguinte: quando leio uma critica a determinado vinho, parece-me que as avaliações e notas de prova são em muitos casos contraditórias. Porquê?
Com um pouco mais de atenção, fico com a ideia (empírica), que as notas de prova de um vinho estão intrinsecamente ligadas a um gosto ou tendência pessoal, por parte de um especialista. Isto é, será ou não verdade, se tivermos preferência por uma determinada região demarcada (acrescento: e produtor), proporcionamos quase sempre avaliações mais valorativas aos vinhos dessa região, que aos das outras?
Outra dúvida que tenho quando leio uma nota de prova tem a ver com a forma como se descreve um vinho. Por exemplo: um diz que dado vinho possui taninos vigorosos, com aromas a cacau, frutos silvestres, final prolongado e com boa capaciadade de envelhecimento. Outro diz que esse mesmo vinho possui taninos macios e sedosos, aroma a fruta fresca, final médio e aconselha a bebê-lo jovem. Aliás, na blogosfera somos confrontados diariamente com este problema. Basta recordarmos o que escrevi sobre o Quinta da Gaivosa 2003.
Um conjunto de questões que na altura me pareciam pertinentes e que passados alguns anos reparei que continuam actuais. O panorama da critica alterou-se substancialmente. Temos novos críticos, novas revistas. Vejo-me mensalmente confrontado com opiniões diversas, julgamentos díspares. Dou comigo a dizer: "Este tipo não percebe nada de vinhos. Este sim, sabe o que é bom."
Que deve fazer o consumidor, para evitar e controlar um pouco os ímpetos da crítica e não andar a correr, que nem um louco atrás dos vinhos que dizem ser os melhores?

20 comentários:

Copo de 3 disse...

Fundamentalmente deve encontrar alguem cujo perfil seja semelhante e apostar nos vinhos que essa pessoa valoriza mais que outros... é lógico.

João Barbosa disse...

Texto pertinente, este. Há claramente questões de subjectividade na crítica. Em toda a crítica isso acontece e, por conseguinte, também na de vinhos. O que julgo que falta, muitas vezes, na crítica de vinhos é a referência clara ao que é bem feito e mal feito, dando apenas um retrato geral do vinho. Os críticos referem os descritores e características genéricas, que lidas rapidamente podem servir para vinhos de vários patamares. Como leitor recorro-me à minha própria memória e simpatia, e já sei que posso encostar-me ao gosto deste ou daquele crítico. Penso que temos mais teóricos do vinho e curtos críticos, pois poderiam dissecar mais o líquido.

Pingus Vinicus disse...

Já agora, que acham se um dia os nossos criticos assumissem preto no branco os seus gostos as suas tendências? Um pouco ao estilo dos americanos.
Por aqui (em Portugal), parece que "queremos" fugir aos assuntos. Quando se questiona o critico, o que obtemos em muitos casos é uma resposta vaga, muito pouco esclarecedora.

Dá-me a sensação, que se têm "medo".

Copo de 3 disse...

O que dizem é que são todos isentos e imparciais... não podem dizer que gostam deste vinho porque pode parecer mal, não reparam que as notas que dão depois revelam isso mesmo... enfim.

o avental disse...

Guio-me por um crítico desde que apareceu a publicar, e hoje compro uma garrafa dos melhor classificados. Se somos coincidentes, compro uma ou duas mais. Se são fora de série, às vezes, mas só muito às vezes, compro seis garrafas, e por aí me fico. Mas é preciso saber do acerto do crítico, que também aí há quem se venda, estou certo que bem mais do que quem erre na prova, o que se me afigura honestamente bastante mais difícil do que acertar.

rui disse...

Caro Pingus,

Compreendo-te perfeitamente. Aliás, nós no vinhoacopo começámos a nossa actividade a debater exactamente este problema. Lembro-me ter publicado umas “famosas” tabelinhas Excel com comparação de notas entre os diversos guias e copiado a descrição de prova de um vinho específico (Osborne Vintage 2003) em que um crítico dizia A e o outro dizia B.

Acho que o nosso país é muito pequeno e por isso mesmo a meia-dúzia de críticos “famosos” quer agradar a gregos e a troianos. No EUA, os críticos podem-se dar ao luxo de “agradar” a minorias (nacionais e internacionais), que estas, ainda assim, são maiores que o todo português. Felizmente ou infelizmente, os nossos críticos só “trabalham” o mercado português.

Isto para dizer que, não existe solução perfeita. Cada um tem que encontrar um sistema que seja válido para si e ir ajustando através da prova.

Um abraço,
RC

elixirdebaco disse...

Texto muito actual, visto o surgir de novos críticos e de pessoas (onde me incluo) que apenas gostam de beber bons vinhos e partilhar essas provas com a restante comunidade.
Dizer a nossa opinião sobre alguma coisa não tem mal nenhum! Pode haver pessoas que não concordam, mas têm é que respeitar e aceitar (se quiserem!).
É óbvio que é complicado haver uma convergência entre todos, nós temos os nossos gostos pessoais, é uma variável que temos que ter sempre em conta.
Para mim qualquer opinião tem o seu valor, e ainda bem que existe opiniões diferentes, nós somos todos diferentes, ou não!

Kroniketas disse...

É claro que um crítico pode analisar o perfil do vinho e dizer se está bem feito ou não, mas não quer dizer que seja o que mais lhe agrada, e isso é perfeitamente normal. O que deve acontecer é que o crítico deve aconselhar o consumidor em função das características do vinho, dizendo "este vinho não dá para encantar, mas se é apreciador do género pode dar o dinheiro por bem gasto". Também pode e deve dizer "o vinho está correcto, não tem defeitos mas é demasiado caro para aquilo que nos proporciona". Isso é a parte mais objectiva. De resto, todos os gostos são subjectivos. Podem-me dizer "este é um grande vinho" e eu não achar nada de especial, por não me agradar o tipo de vinho. O melhor exemplo que conheço é o da Bairrada, onde tenho encontrado vinhos maravilhosos (daqueles clássicos) mas que são difíceis de beber quando novos e que se tornam difíceis de apreciar por quem não está habituado ou simplesemte não gosta do estilo. Por muito que eu diga que é bom, não vou convencer que me disser que acha que o vinho "arranha". O que temos de fazer é ler, investigar, provar, torcar impressões, registar e ir fazendo as nossas próprias escolhas.

Pingus Vinicus disse...

"este vinho não dá para encantar, mas se é apreciador do género pode dar o dinheiro por bem gasto". Também pode e deve dizer "o vinho está correcto, não tem defeitos mas é demasiado caro para aquilo que nos proporciona"

Esta parte do post do Kroniketas é interessante.

No entanto, gostava era de pensar na hipótese, mesmo muito hipotética que seja (desculpem a repetição), de os criticos assumirem os seus gostos e tendências. Seria possível? Mas como diz o Rui (vinhoacopo) a nossa critíca vive exlusivamente do nosso mercado (para o bem e para o mal)...

Kroniketas disse...

Eu não acho nada mal que um crítico diga de que vinhos é que gosta mais. O João Paulo Martins, por exemplo, enquadra-se no exemplo que dei: já o vi várias vezes em programas de televisão e já falei com ele no Chafariz do vinho e ele não tem pejo em sugerir um vinho segundo o seu gosto. Uma vez num programa do Francisco José Viegas sugeriu um Vinha do Monte para acompanhar doce de ovos. Mas também se preocupa com as escolhas do consumidor.
Já o José António Salvador, que se deixou de fazer roteiros de vinhos, tinha uma apreciação mais virada para si mesmo, o que para um crítico foge um pouco ao interesse dos consumidores. Ouvi-o dizer que gostava de vinhos de ruptura e que achava os vinhos do Alentejo demasiado fáceis, o que não é necessariamente um defeito, mas para ele pelos vistos era. O que é preciso é encontrar o ponto de equilíbrio entre o gosto pessoal do crítico e a orientação que deve ser dada ao leitor/consumidor. Porque ao fim e ao cabo é para este que eles escrevem.

Pingus Vinicus disse...

"...Já o José António Salvador, que se deixou de fazer roteiros de vinhos, tinha uma apreciação mais virada para si mesmo, o que para um crítico foge um pouco ao interesse dos consumidores. Ouvi-o dizer que gostava de vinhos de ruptura ..."

Assumo que foi durante muito tempo (e ainda, pois leio as suas crónicas na Visão) o meu "guru".

Kroniketas disse...

Meu também, mas depois deixou de ser quando percebi que ele não escrevia para os leitores mas para si mesmo...

Pingus Vinicus disse...

Bom, Kroniketas, tal como fazemos um pouco na blogosfera... :)

De qualquer modo, continuo apreciar o estilo e identifico-me em grande parte com o seu gosto.

AJS disse...

Para mim a critica de vinhos pode reflectir o gosto pessoal do provador/classificador. O problema é nós, consumidores, termos conhecimento se as actuais criticas de vinhos, quer dos consagrados livros anuais ou das revistas, são realizadas sempre pelos mesmos, o que não me parece. O que naturalmente pode alterar substancialmente a critica a um vinho, que no fim é assumida por apenas um provador. Caso que acontece com o Parker e com o famoso guia michelin, no que se refere aos restaurantes. Os provadores deviam, quanto a mim, assumir duas situações claras. 1º adquirir o vinho no mercado (unica forma de reflectir com exactidão aquilo que o consumidor vai comprar) 2º no caso de ser algum colaborador a realizar a prova assumir essa situação sem qualquer problema. Penso que provar dezenas ou centenas de vinhos por ano não pode ser assumido por ninguém sem que existam flutuações devidas a casos simples, como uma constipação. AJS

Paulo Pacheco disse...

Devido á minha dupla função de bloger e como tal de "pseudo" critico de vinhos e de distribuidor dos mesmos, sempre tive uma preocupação (quase exessiva) em tentar "transmitir" o melhor possivel o vinho a quem me ouve. Não só isso, como também já faço o exercicio ao contrário.
Por exemplo quando estou a falar com um dono de um restaurante pergunto-lhe que vinhos gosta mais, e os vinhos que ele me vai dizendo vão "caindo" em "niveis" ou "caixas" que eu proprio as criei (de forma empirica assumo) de vinhos com caracteristicas similares, de tal forma que no fim consigo sugerir - dos vinhos que vendo, vinhos que vão ao encontro do paladar do dono do restaurante.
Se ao menos o J.P. Martins e outros nos pudessem perguntar que vinhos gostamos mais......

Paulo Pacheco disse...

Portanto não me preocupa se um determinado critico gosta mais de um tipo de vinho ou de outro. Isso é transparente nas suas notas como bem diz o Alentejano. Facilmente se percebe que alguns criticos não promovem a variedade e são de alguma forma cegos ao seu gosto particular. Mas outros há que olham quase em exclusivo á qualiade intrinseca do produto. aí sim, temos a certeza de uma boa critica.
É que podemos -nós- não gostar de um vinho, mas dizer que não é bom ou que não presta vai uma grande distancia.
confesso que ás vezes fico na dúvida com alguns dos nossos mais famosos criticos. Se fazem a critica conforme o seu gosto pessoal ou se conforme a qualidade do produto.
Exemplo practico - eu não gosto do vinho Charme, mas não me atrevo a dizer que não presta. Até porque me parece que a madeira por onde passou é de altissima qualidade e a fruta presente das melhores, mas eu não gosto mas no entanto o vinho ... é bom!
e agora?

Pingus Vinicus disse...

Paulo, percebo-te perfeitamente.

Estou a recordar-me mais uma vez do Gaivosa (já provei o 99, 00 e 03). Pessoalmente, até à data, nunca lhe encontrei grande graça. No entanto vejo por aí, muitos e variados elogios, provavelmente com razão. Eu é que ainda não lhe apanhei o jeito.

João Barbosa disse...

Esta discussão é eterna e não é restrita ao mundo dos vinhos. Vejamos, por exemplo, o cinema. Filmes que agradam a multidões e têm apupos da crítica ou pontuações modestas, e filmes com grandes classificações e públicos restritos ou mais ou menos alternativos.
Acontece que o cinema é mais visível enquanto espaço de crítica (talvez mais antigo e mais vasto) e assume-se mais facil e abertamente a componente pessoal do crítico. Por cá, a aura de distância que o crítico assume face ao «produto» coloca-o num pedestal de autoridade que poucos ou ninguém ousa questionar, duvidar ou contestar... a começar pelos próprios produtores, embora à boca pequena o comentem, mas muitas vezes não revelando nomes. Os críticos têm nariz e boca como todas as outras pessoas, têm também um gosto pessoal e direito à opinião. O que é lamentável é que não se assuma o gosto pessoal inscrito na crítica. É pena que se duvide que há uma enorme componente de gosto pessoal na crítica.
Não vejo mal nenhum nisso. Penso é que é preciso ter noção da realidade. Voltando ao cinema, onde a crítica é mais pluralista: Veja-se a tabela das estrelas, há filmes simultâneamente com uma estrela e quatro estrelas. Estão os críticos a classificar o mesmo filme? Estão apenas a restringir-se a aspectos técnicos? Os críticos de vinho são absolutamente diferentes dos outros críticos todos? Só os críticos de vinho portugueses é que são diferentes?

Pingus Vinicus disse...

João Barbosa, que belo post e que relecte muito muito a questão.

"(...)há filmes simultâneamente com uma estrela e quatro estrelas. Estão os críticos a classificar o mesmo filme? Estão apenas a restringir-se a aspectos técnicos? Os críticos de vinho são absolutamente diferentes dos outros críticos todos? Só os críticos de vinho portugueses é que são diferentes? "

Esta passagem da sua autoria é o ponto fulcral da questão, para mim.

Um abraço

Pedro sousa P.T. disse...

Bela discussão. Isto dava pano para mangas. Mas uma coisa é certa: Nós, blogoesfera, temos a oportunidade, ou o previlégio, de sermos nós próprios com as nossas críticas e opiniões, sem rodeios, e sem pressões, e ainda por cima podemos trocar ideias abertamente, coisa que os ditos críticos, a meu ver, não conseguem.
Abráços.