sexta-feira, dezembro 28, 2007

De volta ao LIDL

Encontram-se ao nosso dispor nas prateleiras de uma superfície comercial conhecida por oferecer produtos baratuchos, sem pedigree, aos que não possuem bolsos carregados de euros.
Numa investida final antes de ir até à terra para comer a couve, o polvo e o borrego, passei pelo LIDL e tirei de lá dois vinhos chilenos (Viajero Gran Reserva). Um Chardonnay e um Carménère. Ambos de 2006. As garrafas mostravam cuidado e aprumo na forma que se ofereciam ao consumidor. Bonitas.

O branco (chardonnay) revelou uma face bonita, cristalina, límpida. Os aromas andaram perto da fruta em calda. Pêssego, ananás e alguns nacos de manga. A madeira, apesar de formar com a fruta um bloco com alguma coesão, pareceu-me ter demasiado protagonismo (Foi deixando a sua marca ao longo da refeição). Frutos secos, baunilha e coco acabaram por saber bem (Estamos no Inverno). Alguma lima e erva tentaram, sempre que possível, deixar um saudável rasgo de limpeza. Nada mau.
Os sabores encaixaram no mesmo registo dos cheiros. Fruta e madeira (com a esta a notar-se lá para a frente). Razoável nível de frescura. Final amendoado e baunilhado.
Pena o aparente excesso de madeira. Acredito que seja um pormenor (pessoal). Nota Pessoal: 14

O tinto (Carménère) encaixa no grupo onde se encontram aqueles vinhos a que não viramos a cara. Gulosos e redondos. Este criou empatia desde o início. Não sendo um exemplo de extraordinária complexidade, mostrou-me que não estava ali para envergonhar ninguém. Tinha objectivos (bem) definidos. Proporcionar prazer em qualquer altura.
Cacau, fruta, licores e tabaco marcaram os aromas e os sabores. Souberam bem e nunca chatearam. Acompanharam perfeitamente a tagarelice (com a família numa noite passada). Foi bebido literalmente até à última gota e mais não digo. Nota Pessoal: 15

Caiu uma sensação de alivio. Tinha arriscado em vinhos (para alguns serão apenas coisas) que vieram do tal supermercado. Sou capaz de lá ir para trazer o Cabernet Sauvignon e o Pinot Noir&Syrah. Não é tarde, nem é cedo.

Post Scriptum: Lembram-se deste texto? As amarras do preconceito estão literalmente quebradas. Quero lá saber do que podem dizer por aí.
Post Post Scriptum: Gostava que, um dia, estes e outros vinhos fossem provados pelos críticos. Só para comparar com os que têm rótulo.

sábado, dezembro 22, 2007

Aos que acreditam!

Passou muita água por debaixo da ponte. Promessas, intenções, desejos foram sendo feitos ao longo do ano. Que ficou? Pouca coisa. Renovam-se, outra vez, as mesmas intenções, fazem-se as mesmas promessas, pedem-se os mesmos desejos. Espera-se que na próxima remessa surja aquilo.
Detestável é a hipocrisia que nos afoga nesta altura. É como se um pano encharcado em lixívia andasse por aí a limpar os detritos, a imundice, a vilanagem de 12 meses. Por breves momentos, tudo surge enganosamente limpo, esterilizado e incólume.
Defende-se a máxima: o Natal é quando um homem quiser. É pena que ele não queira vivê-lo mais vezes. Se o fizesse, o pano não precisaria de tanta lixívia.
Resta-nos, apenas, fingir que somos felizes e que ao virar da esquina seremos todos amigos, mesmo para além do dia 2 de Janeiro.

Apesar de não sentir o Natal, desejo a todos vós o melhor do mundo. Faço um brinde aos que conseguem acreditar, aos que ainda ouvem os guizos.

Post Scriptum: Durante estes dias, costumo ser uma personagem diferente. Serei um indivíduo que crê na magia, por causa da filha.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Vila Santa

Estamos atravessar uma época em que os interesses navegam por outras bandas. Por estes lados, mesmo não ligando ao que se passa em redor, o tempo não tem sido muito para vir até aqui. De qualquer modo, e para manter o fogacho aceso, trago mais um tarolo para que a conversa não morra.
Um vinho que não precisa de apresentações, de grandes dissertações. É um exemplo de consistência. Desde os idos 1997 que este tinto ensina como é possível manter o desejado equilíbrio entre preço e qualidade. Todos os anos verto uma garrafa para ver como ele anda.
Coisa a mais
, coisa a menos, percebe-se que as alterações são poucas. Assim de passagem, e para não perder muito tempo, o Vila Santa 2004 apresentou aromas que andaram essencialmente em redor das sensações terrosas, vegetais e silvestres. Bem alinhavados e sem que a fruta marcasse presença assídua. Original sensação a camurça oferecia ao vinho um toque rústico. Longe de exuberâncias desmedidas, afastado de calores desnecessários. A frescura saltava do copo. Pequena evolução para canela, cacau amargo e folhas secas. A madeira pareceu-me ter, por momentos, aspecto exótico. Cheiros com alguma classe.
O paladar era ameno, aprazível. Sentiam-se sabores balsâmicos e silvestres. Reforçou, mais uma vez, a sensação terrosa do vinho. Taninos macios (a indicarem que estariam, provavelmente, no ponto alto de afinação. De vez em quando, olhavam lá para baixo). Final levemente mentolado. Um vinho que, ao ser vendido por 10€, bate com luva branca na face dos finórios. Este 2004 está calmo e pede para ser bebido. Nota Pessoal: 15,5

É fácil falar bem deste vinho. Todos gostam.

domingo, dezembro 16, 2007

O Cabernet Sauvignon da Ermelinda

Ao provar este vinho, lembrei-me, várias vezes, de um pequeno texto que escrevi para o Pingas no Copo. Na altura, tracei umas quantas linhas para falar da influência do rótulo no consumidor. Aliás, e passado algum tempo, continuo a olhar para o assunto da mesma forma. O rótulo e agora a casta (vejam a loucura que existe em redor da Touriga Nacional) influenciam e muito. Se é famoso e caro, facilmente poderemos, ou não, gostar dele. Se for o oposto, é facilmente desculpabilizado. É a gestão das expectativas. Este varietal produzido por Ermelinda Freitas encaixa que nem uma luva no que acabei de referir. A casta matutava na cabeça. Olhava para o rótulo (que é acidentalmente parecido com outro que existe para os lados da COOP de Pegões) e via escrito: Cabernet Sauvignon (C.S.). Estaria ali, finalmente, um vinho onde esta casta faria abrir a (minha) boca de admiração e levantar-me para aplaudi-la? Estão, ainda, bem presentes aqueles que já provei. Vinhos que, na sua maioria, eram marcadamente vegetais, onde sugestões a talo de couve, a verdete e a pimentão impuseram registos aromáticos e gustativos pouco apelativos, pouco atraentes. Tudo, quase, sem interesse.
Influenciado por esse passado sinistro, este Cabernet Sauvignon de Ermelinda Freitas acabou por não sair da mediania de outros C.S. portugueses (que são os meus pontos de referência). O talo de couve voltou a surgir, o verdete reapareceu, o pimentão (que detesto) marcou presença. A coisa tentou animar, por momentos, com uns tímidos apontamentos a mentol e a hortelã, amparados por uma breve impressão mineral. Pensei que iria libertar-me dos meus preconceitos. Sol de pouca dura. O paladar era (muito) vago. Poucos sabores, com uma ligeireza absurda, liso. Estranho. Que raio. Seria vinho? A minha incompreensão e o meu amadorismo terão, certamente, influenciado as apreciações. Peço desculpa por isso. Nota Pessoal: 12,5

Ganharemos alguma coisa em beber sistematicamente maus Cabernet Sauvignon? Valerá a pena continuar a investir em varietais portugueses feitos unicamente com esta casta?

sexta-feira, dezembro 14, 2007

A Trincadeira da Ermelinda

Existem vinhos baptizados de fáceis, ligeiros e directos. São estinados aos maçaricos. Os outros são para a elite, para os que frequentam o clube.
Na ansia de tentar um lugar nesse estranho e obscuro meandro, muitos lançam-se para o meio dos vinhos difíceis, duros e complexos. Na maior parte das vezes, a infelicidade cai sobre o copo porque não proporcionaram o prazer que era esperado. O esforço é enorme para demonstrar que conhecem e dominam a ciência. Acreditam, deste modo, que um dia poderão ser respeitados pelos que frequentam o clube. Pura ilusão. Não existe democracia no mundo dos apreciadores de vinhos. Está literalmente dividido entre uns e outros.
Esta ladainha serviu meramente para ovacionar um Trincadeira (2005) das Terras do Sado. Despontou da garrafa com muitas flores e com uma valente pazada de terra negra. Os aromas adensaram-se, um pouco, com uma pitada mineral que surgia envolvida por sensações balsâmicas e mentoladas. Registo alegre. Não fingiu que era outra coisa (mais séria). Aplausos para a sinceridade. Fruta fresca, sumarenta e bem lavada. Infantil sensação a leite com chocolate e pastilha elástica aumentaram a alegria do tinto. Grão de café e meio charuto intrometeram-se pelo meio, marcando a parte final. Uma panóplia de cheiros joviais, pouco complicados e apelativos.
Os sabores eram agradáveis. As sensações vegetais misturaram-se com a fruta e com tosta formando um bloco coerente. Tudo afinadinho e com equilíbrio (não esperem um tinto extraído, quente e pujante. Decisão acertada de Ermelinda Freitas). Um tinto que merece ser provado. Melhor, merece ser bebido. Alivia o cansaço e distrai-nos um pouco. É preciso mais? Para mim não. Nota Pessoal: 15

Post Scriptum: Só não percebo uma coisa. Porque carga de água os rótulos que vestem os varietais da produtora Ermelinda Freitas são acidentalmente parecidos com os varietais da Adega Cooperativa de Santo Isidro de Pegões?

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Três Bagos, Três Colheitas (Parte I)

No meu currículo de enófilo, participei em poucas provas verticais. Dizem os verdadeiros especialistas que provas verticais são excelentes momentos para percebermos a filosofia de um produtor, observar eventuais mudanças de estilo e tomar o pulso à evolução dos vinhos.
Irei apresentar-vos e partilhar alguns comentários sobre duas provas verticais em que participei recentemente (Três Bagos Grande Escolha e Pintas). Pequenas amostras baseadas em 3 colheitas: 2001, 2003 e 2004. Verdade seja dita, falamos de nomes que existem há poucos anos.
Dividi a referida prova em dois textos que serão publicados em momentos distintos. A leitura fica mais facilitada, permite analisar melhor o perfil do produtor e dos vinhos. Tentei ser objectivo, directo e simples no discurso. Evitei ao máximo meter-me por caminhos enviusados, apesar do prazer que tenho em perder-me no meio dos vários enredos que teço sobre o vinho. Ele é, para mim, um elemento que deve proporcionar prazer, feito para fazer companhia nas viagens. Assim continuarei. Regresso ao que interessa.

Três Bagos Grande Escolha, Lavradores de Feitoria. O topo de gama desta associação de produtores do Douro. Estamos perante um vinho que passa, em muitos casos, completamente despercebido. Não é a primeira escolha quando falamos em topos de gama. Diria que é injustamente preterido. Tal como num filme, existem actores que podem enriquecer o elenco. E este desempenha muito bem esse papel. Mas adiante.

Na colheita 2001 surgiu inicialmente com face ligeiramente rústica, onde sugestões a lagar combinavam com cheiros vegetais. Deslumbrava-se no horizonte um tinto com cunho clássico e muito personalizado. O balsâmico, o silvestre, bem como uns valentes nacos de flor rasteira reforçavam o toque vegetal. Impressionante a largada de ervas aromáticas. Rodopiavam em roda-viva. Tomilho, alecrim, carqueja, erva-doce. Um conjunto de aromas, de cheiros, de odores, onde a fruta nunca ditou leis. Tudo bem feito.
Na boca, comportamento distinto. Os sabores revelaram classe e aprumo. Surpreendente, mais uma vez, o equilíbrio demonstrado. Sem magoar, sem aleijar.
Não teve percalços no caminho que trilhou ao longo destes 6 anos. Agora, com a idade virou-se para a contemplação. Quem o tiver, durma descansado ou, em última análise, beba-o. Faça como quiser, não haverá arrependimentos. Nota Pessoal: 17,5

Colheita 2003
, ano diferente. Semelhanças apenas no cunho vegetal, na rusticidade. De resto, andou um pouco longe da classe, da complexidade, do anterior. Apesar das diferenças, valeu pelas interessantes sensações minerais que foi largando ao longo da prova. Muita lasca de pedra, muita lousa. A alfazema tentou, sempre que lhe era possível, perfumar o copo.
Os sabores surgiam um pouco débeis. A acidez insinuou-se de tal maneira que me levou a pensar que tinha, ali à frente, um vinho com aptidão gastronómica. Foi curioso constactar que uma colheita mais recente e quente, deu origem, em termos gerais, a um vinho pouco frutado, pouco quente e aparentemente fresco. Não deixa de ser interessante. Nota Pessoal: 15,5

Colheita 2004
.
Pareceu-me ser uma colheita de transição. Foram feitos compromissos entre o passado e o futuro. O lado vegetal detectado nas outras duas colheitas, apesar de voltar a surgir em 2004, mostrou-se, agora, recheado pela fruta e pelas passas. O cacau amargo e o chocolate que surgem aqui, ajudam a mudar a face do vinho. Cheiros mais pujantes, mais vivos. A juventude a falar. As sensações terrosas e a esteva reforçam a força do vinho.
No paladar revelou (alguma) ligeireza que não esperava. Boa acidez, com os taninos bem domesticados. A discrepância entre a exuberância dos aromas e a tal ligeireza de sabores foi, para mim, o que mais marcou. Fiquei com algumas dúvidas, com a pulga atrás da orelha, por causa dessa diferença. Preciso de tirar as teimas mais tarde a esta versão moderna. De qualquer modo, um vinho que já desafia. Nota Pessoal: 16

Post Scriptum:
Uma experiência interessante que ajudou a mudar o olhar que tinha sobre estes tintos. O mais velho ganhou, por muito, aos mais novos.

sábado, dezembro 08, 2007

Monte Maior 2005

Vou perder pouco tempo na descrição deste tinto. Existem momentos em que ao esticarmos a coberta, vemos que ela não dá para tudo. Tapam-se os pés. Destapa-se a cabeça.
Fruta em catadupa. Fruta madura. Muitas amoras, carradas de ameixas (informações do contra-rótulo). Esbugalham-se os olhos. Pelo meio da fruta, tentei olhar para a frente, para os lados e para atrás à procura de qualquer coisa diferente. Por momentos, animei com umas pequenas sugestões vegetais. Mas a fruta voltou. Sempre madura e sempre a mesma. Soltaram-se enormes bocejos. O dedo batia na mesa, cabeça estava inclinada e sobrolho descaiu. Não há mais nada? Tudo muito trivial, roçando o desinteresse.
Fruta na boca. Fruta do principio ao fim. Apresentava-se com fruta, deixava fruta por todo lado e ia-se embora deixando fruta. Mais nenhum sabor para partilhar. Pouco ficou na memória. A estrutura era débil. Demasiado ligeiro para continuar a falar dele.
Percebe-se que é feito para ser bebido e pouco mais. Caramba podiam (lá na Adega Mayor) ter feito a festa mais barata para o consumidor. Por (quase) 7€ torna-se numa péssima opção. Engrossa, apenas, as prateleiras de vinhos indiferenciados. Nada mais. Num confronto com este, perde por Knock Out. Ambos são alentejanos e têm a mesma idade. Nota Pessoal: 12,5

Post Scriptum: A minha sorte foi o cafézinho que tomei no final da refeição. Deixou mais sabores, mais aromas.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Quinta do Quetzal

Este nome passou pela minha frente n'A Hora de Baco (já agora, acabou?). Depois voltou a reaparecer numa reportagem da Revista de Vinhos. O tema andava à volta da nova relação entre a arquitectura e o vinho. Tudo isto era suficiente para despertar a minha curiosidade. Estava perante um produtor que não conhecia. Era necessário que essa esquina fosse torneada.
Começo a ronda com o Quinta do Quetzal (Vidigueira, Baixo Alentejo), um vinho branco de 2005 (não deixa de ser curioso). Na caldeira onde foi feito aparece apenas a casta Antão Vaz. Depois adormeceu envolto em madeira. Por lá ficou durante algum tempo.
As sugestões vegetais marcaram os aromas, proporcionando frescura e alegria. Erva na fase inicial, folha de tomate e figueira lá mais para a frente. A fruta, que foi despontando com o desenrolar da prova, revelou uma faceta ácida, onde a maçã, a lima e o limão encarregavam-se de reforçar a frescura do vinho. Por entremeio, surgiram pequenos pedaços de ananás. Um pequeno ramalhete de flores brancas (gostei desta expressão) perfumava o copo. Toques amendoados e um pouco melados faziam o remate final, sem protagonismos exagerados.
Na boca o vinho pareceu estar equilibrado, bem arranjadinho, com nenhuma ponta fora do sítio. Bom nível de frescura. A madeira, mais uma vez, não apresentou pose autoritária. Mastigavam-se (não esperem coisas brutas) amêndoas, avelãs e um pouco de mel.
Um vinho que revelou ter um comportamento harmonioso, sem recorrer a grandes exuberâncias. Acima de tudo mostrou-se sadio, directo e calmo. Uma feliz descoberta. Pessoalmente, não o guardava muito mais tempo. Nota Pessoal: 15

Post Scriptum: A enologia é da responsabilidade de Paulo Laureano.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Permitem-me?

Estão filiados num clube onde raramente entro. São vinhos que raramente bebo e raramente são descritos por mim. Quando acontece, é com muito cuidado que o faço. Nos brancos, nos tintos, nos moscatéis e nalguns colheitas tardias aventuro-me um pouco mais além, atrevo-me a ir mais longe, consigo trocar algumas ideias com vocês. Quando a coisa vai até aos Vintages e Colheitas fico, quase sempre, pela observação. Ouço quem sabe. Mas agora não aguentei, não resisti. Vim a terreiro partilhar algumas palavras sobre o Niepoort Vintage 2005 e o Niepoort Colheita de 1976. Permitem-me?

O primeiro é um típico exemplo de um Vintage bastante jovem, com muitas sugestões químicas. Depois de quebrado o colete químico, a fruta madura (ameixas pretas) apodera-se do vinho. Vastas sugestões de violetas rompem por entre o (enorme) aglomerado de frutos e perfumam o vinho. A presença de odores minerais refrescam o nariz. As especiarias, uma ponta de baunilha e o caramelo fecham um bloco espesso, escuro e negro.
Ao entrar pela boca mostrou, mais uma vez, a força da sua juventude, o seu vigor. Pastoso e muito mastigável.
Um generoso que irá caminhar, certamente, com segurança durante muitos anos. Fica apenas a (minha) dúvida. Bebê-lo enquanto jovem ou deixá-lo adormecer uns belos anos. Por mim, é já. Não sei se estarei cá ao virar da esquina. Nota Pessoal: 18

O segundo, engarrafado em 1997, ditou uma pauta diferente. Uma pauta que aparentemente percebi melhor. Era a (minha) inocência a pregar partidas. Perfumado, muito cheiroso.
Fingiu ser frágil. Servia, apenas, para caçar, prender ao copo.
O desprender do vinho libertou uma profusão de aromas que iam desde o verniz, a madeira, a folha seca, o tabaco, o caramelo, a canela e muita farripa de laranja caramelizada. Encontrar outras palavras, outros adjectivos, tornaria este texto vácuo, inócuo, palerma. Não quero.
É um vinho que, apenas, pede para ser bebido, desfrutado, não para falar dele. Nota Pessoal: 18,5

Post Scriptum:
As minhas notas revelam a falta de referências. Acredito que haja melhor, muito melhor. Mas que fazer quando não existe com quem comparar?

domingo, dezembro 02, 2007

Santa Vitória 2005

Tenho reparado que se torna difícil encontrar um vinho a baixo preço (<5€) que consiga proporcionar um nível de prazer interessante e ao mesmo tempo mostre algo diferente. Apesar disto, noto que os vinhos que circulam pelas gamas baixas revelam mais qualidade. É bom para o consumidor. O risco de apanhar uma bela zurrapa é menor. Ainda bem.
O que cansa é olhar para eles e ver que comportam-se, quase sempre, da mesma maneira. Possuem os mesmo argumentos, oferecem os mesmos sabores, os mesmos cheiros. Só o rótulo os distinguem. Bem vistas as coisas, também nas gamas mais ricas isto acontece. Só que aí a compreensão é menor e os erros não se perdoam com tanta facilidade.
Notícia, para mim, é apanhar uma pérola no meio deste mar homogéneo. Com 5€, cacei um vinho tinto alentejano curioso, bem conseguido, que conciliou facetas raras nesta gama. Boa escala de aromas, bom paladar, nunca caindo em monotonia. Não soltei um bocejo. Vem daqui.
Aromas vegetais, terrosos e pequenas sensações florais prenderam a minha narina ao copo. Era fresco, alegre, quase primaveril. Curiosa, muito curiosa, a impressão a carvão (pensem no cheiro que se solta quando afiamos o lápis). Durante a sua estadia no recipiente, ganhou cheiros especiados que sugeriram canela. Estava misturada com o tabaco, com a baunilha, com uma leve sugestão a cacau amargo. A fruta? Silvestre, sem açúcar. Sedosa.
Os sabores eram sadios e vivos. Fui confrontado, mais uma vez, com um comportamento que combinou alegria com seriedade. O vegetal, a tosta e a fruta formavam um bloco bem conseguido. Apetecível, saboroso, com boa largura. Nunca se tornou chato, monocórdico. Pelo preço que paguei não posso pedir mais. Não posso. Nota Pessoal: 15

Post Scriptum: Nunca tinha provado este vinho. Olhei muito para ele. Sempre julguei que era igual aos outros. Como tal, não valia a pena prová-lo. Enganei-me. Parabéns à casa.

quinta-feira, novembro 29, 2007

Ainda existem! (Parte II)

É mais um que anda pelos cantos, aos caídos. Até a critica esqueceu-se dele.
No passado, caminhou pelas passareles, teve inúmeras luzes apontadas. Pertence ao grupo de vinhos que marcaram o nosso passado. Quando se falava no Dão, o Duque de Viseu era lembrando por todos. Não fugi à regra. Recordo com alguma saudade os brancos, principalmente as colheitas de 1999, 2000 e 2001. Depois, surgiram as coqueluches e lá fui atrás. Caramba, um tipo não aguenta!
A última vez que troquei dois dedos de conversa com o Duque, fiquei francamente admirado com a desenvoltura que revelou.

Na colheita 2005, os aromas possuem um aspecto delicada (ou frágil?). Os cheiros, na fase inicial, pareciam ter um leve toque petrolado. As passadas permitiram que notas de mimosa e de anis se envolvessem, um pouco, com a calda de fruta. Uma pequena ponta mineral prendia a narina ao copo. Sem exuberâncias desmedidas. Provavelmente não teria muito mais para dar.
Na boca, ele afinava pela mesma pauta dos aromas, com uma estrutura algures entre o magro e mediano. Razoável nível de frescura. Ia-se embora, deixando qualquer coisa que lembrava ananás, lima e mel.
Já me esquecia. A madeira dava, de vez em quando, ares da sua graça. Nada de extraordinário.

Não tendo argumentos de peso, acabei por valorizar o esforço que mostrou, mas as rugas não perdoam. Nota Pessoal: 13,5

Post Scriptum: Pareceu-me estar uns valentes furos abaixo da colheita de 2004. É pena. Agora, é certamente mais um. Quem o viu!

quarta-feira, novembro 28, 2007

O Chardonnay da Niepoort

Um vinho que pertence ao universo dos Projectos Niepoort. Um branco da colheita de 2004, construído com a casta chardonnay.
Deixando de lado os meus tradicionais "entretantos" e passando para a análise concreta (que nunca consigo fazer), diria que confrontei-me com um vinho que
insinuou, por largos momentos, ter um comportamento parecido a um Colheita Tardia. Tudo era muito superlativo e exagerado. Sem necessidade. Fiquei preso a esta impressão. Dela não me livrei.
As sugestões de casca de laranja caramelizada marcaram fortemente o modo de actuar. O resto da fruta pertencia à família do melão, da meloa, do figo. A constante presença do doce marcou incisivamente todos os cheiros. O vinho nunca se livrou desta mancha. Manteiga, amendoim e mel empurravam toda a trupe para precipício. Original a sensação de nougat.
Apesar de tudo, foi notória a frescura que revelou ao entrar pela boca. Pessoalmente, não esperava. Conseguiu aliviar todo aquele peso, todos aqueles aromas e sabores pesadotes. Fazia esquecer, por momentos, que estava defronte de um individuo com arcaboiço.
Em súmula, um branco que precisa de emagrecer, de cortar nos doces e na gordura. Para os apreciadores do género, temos aqui um belo vinho (E não é o que interessa?). Nota Pessoal: 15

Post Scriptum: Fase terminal do vinho? Estado natural de evolução do vinho?

domingo, novembro 25, 2007

Niepoort 2004

É notório que os vinhos da Niepoort surgem mais distantes daquilo que foram no passado. Tenho como crença - para não haver mal entendidos - que eram mais difíceis, reflectiam o verdadeiro carácter do Douro. Aquele Douro mais genuíno, mais rude, mais rústico. Pessoalmente apreciava o género. Dava gozo descobrir, vasculhar aromas e sabores. Eram autênticos pedaços de natureza enfiados numa garrafa que custavam a sair para o copo.
Agora, esses pedaços encaminham-se para um modo de vida mais urbano, mais cosmopolita. Que não esqueçam o berço que os viu nascer.

O velho Redoma decididamente quis, ou obrigaram-no, mudar vida. Todos temos esse direito.
Optou por um estilo mais moderno, mais apelativo. A conversa, agora, é bem mais fácil. Longe vão os tempos que era preciso ter peito forte para olhar de frente para ele. Caramelo, chocolate, baunilha e muitas sugestões fumadas marcam decididamente o estilo da colheita 2004. Olha-se e fica-se de olhos abertos. É bonito.
O cansaço surge quando vemos que os aromas e os sabores circulam, quase sempre, à volta da mesma coisa. Alguns bocejos saíram na esperança que surgisse algo diferente, algo que lembrasse aquilo que era no passado. Está completamente diferente. Para melhor? Para pior? Nota Pessoal: 16

Com o Batuta 2004, apesar de ter verificado, mais uma vez, a tal mudança de vida (Lembram-se dos Batuta 1999, 2000 e 2001?), a prova proporcionou um conjunto de tarefas mais difíceis. O corte com a tradição não pareceu tão acentuado. Confrontei-me com uma interessante combinação entre sugestões minerais, onde pontificavam muitos apontamentos de pedra lascada, e fruta madura (sumarenta). Caminhou sempre por entre trilhos frescos, onde os cheiros sugeriam terra, muita terra. A evolução terminou, aparentemente, num caldo onde o leite se misturava com o chocolate e onde as folhas de tabaco iam sendo queimadas em lume brando. Os sabores eram largos, cheios de vida, com duração longa. Um tinto com um elevado nível de complexidade. Nota Pessoal: 17,5

Charme 2004. As palavras que tentei escolher, mesmo socorrendo-me de todas as comparações possíveis (mesmo aquelas hiperbolizadas), soaram a futilidade. Fatalmente caía em chavões, em expressões corriqueiras que tanto se usam por ai. Tiro o meu chapéu aos que dissertam sobre este tipo de vinhos. Eu não consigo.
Escusado será dizer que os argumentos usados por ele prendem pela subtileza, pelo equilíbrio, pela consistência. O perfume leva-nos, sem saber, para locais, para imagens doces. Reflectem um horizonte que não encontramos, mas que desejamos um dia poder observar. Os odores são frios. Os sabores são calmos. Existe paz.
É, sem duvida, um belo vinho, um excelente vinho. Censuro, apenas, o preço que é pedido, simplesmente porque não tenho dinheiro para o comprar as vezes que gostaria. Nota Pessoal: 18

Post Scriptum: Estaremos perante um piscar de olhos aos críticos e consumidores anglo-saxónicos?
Quando olhamos para este tipo de vinhos, vemos que vale mais estar calado. Nestes momentos percebemos que andamos a brincar com coisas sérias.

domingo, novembro 18, 2007

Garrida. Touriga Nacional de 2004

Surgem, quase sempre, os mesmos nomes quando procuro um vinho que satisfaça, que revele uma interessante capacidade de envelhecimento, constância nas várias colheitas (neste caso, ainda não são muitas), gastando pouco dinheiro. Entre eles está um que, sem grandes alaridos, povoa a minha garrafeira com bastos exemplares. O preço pedido não é agressivo. Enquadra-se no patamar que considero ideal para o consumidor que pretende qualidade a bom preço (15€). É escolhido, inúmeras vezes, para estar numa mesa, onde outros convivas não comunguem da minha loucura pela pinga. Eles e eu ficamos contentes (por motivos diferentes). O seu comportamento é quase sempre consensual.

O Touriga Nacional de 2004, da Quinta Garrida, está ainda jovem. Austero. Foi despontando com o auxílio de sugestões aromáticas muito próximas do verniz e do cipreste. Amoras e groselhas, bem combinadas entre elas, libertaram-se posteriormente da prisão do vidro. Propiciavam a imagem de um trilho com silvas, rodeado de mato rasteiro, onde o chão pisado tinha tez escura e cheiro húmido. Pequenas sensações florais (não garanto que fossem violetas) surgiram aleatoriamente. Em alguns troços da prova, a caruma, as cascas das árvores emergiam com abundância. Com o aproximar do final, os cheiros do café, do cacau, da baunilha apareceram.
O paladar era balsâmico e silvestre. Quando ele se encaminhava para outros lados o café e a baunilha surgiam envoltos em fumo. Fresco, com os taninos a darem a ideia que temos vinho para evoluir.
Um Dão moderno, sem qualquer tipo de arestas, impossível de virar as costas. Apesar da face ser urbana, notei, desta vez, mais finura, mais equilíbrio, mais complexidade que este Touriga Nacional. Não farta tanto, não enjoa tanto e não aborrece tanto. Mexe-se mais. E valerá a pena guardar. Nota Pessoal: 16,5

Post Scriptum: Tive a sorte de provar um gole de uma cuba repleta com Touriga Nacional de 2007.

quinta-feira, novembro 15, 2007

Vinha Grande na versão Branco

Ouvir determinada coisa e ficar, logo, com os ouvidos inquinados impossibilita-nos, em muitos casos, tomar uma decisão equilibrada.
Nos vinhos, como sabem, somos apanhados por avalanches de comentários que, na maior parte das vezes, só servem para criar confusão e pouco contribuem para o esclarecimento. Sempre defendi e continuo a defender que o consumidor deve, depois de esclarecido, optar pelo que lhe interessa. O resto é pólvora seca. Serve para entreter as hostes. O consumidor tem que ter, cada vez mais, a coragem para contrariar, para dizer que não está de acordo. Não existem primas donas intocáveis. Existem vinhos que se gostam ou não (Quem paga a factura final?).
À conta dessa pólvora seca que existe, quantas vezes matamos um vinho à nascença, sem o termos provado? E quantas vezes o idolatramos, sem o termos provado?

O Vinha Grande br 2006 foi um vinho que matei à nascença (colheita 2005). Desta vez, não liguei a comentários e arrisquei.
A abertura do gargalo e o consequente verter para o copo libertou um saco de fruta madura proveniente dos trópicos. Viçosa, bem perfumada. Nunca enjoou. Foi aberto novo saco, e desta vez, com fruta de aspecto mais europeu. Bom encadeadamento, sem quebras. A frescura era suportada por uma impressão a erva (que marcou presença nos sabores).
A madeira utilizada tinha, apenas, o papel de aumentar a quantidade de aromas (e sabores) oferecidos. Sem exageros, sem pressões, sem protagonismos. Avelãs, baunilha, coco.
Pela boca, os sabores mostravam-se suculentos, crocantes, estaladiços. Uma vivacidade (o vegetal ajudou) que mereceu nota positiva (da minha parte). Era curiosa a sensação picante, algo mentolada. A acidez indicou alguma capacidade de evolução (o contra-rótulo informava o consumidor que a qualidade poderia manter-se durante seis anos após a data da colheita. Indicação arriscada. Se for verdade, estamos perante um vinho com excelentes qualidades). Voltando aos sabores, estes despediam-se com frutos secos e uma leve nota melada. Se desculparem os exageros, diria que temos aqui um branco. Nota Pessoal: 16

Post Scriptum: Confrontei-me com um vinho que merece ser melhor compreendido.
Não conheci a versão de 2005, mas esta, a de 2006, não foi nada desagradável. Pareceu-me ter capacidade para andar. Agora, é o vosso gosto a decidir. Dêem-lhe uma hipótese.

quarta-feira, novembro 14, 2007

Serros da Mina 2004

Início estas linhas tentando reflectir um pouco sobre a capacidade de um enólogo em conciliar diversos projectos, trilhar vários caminhos (Muitos deles díspares, tanto no conteúdo como nos objectivos pretendidos). Dirão que basta ter, em redor, uma equipa coordenada. Acredito que assim seja, mas quem assina de facto? Quem mete preto no branco o seu nome? Será que o retorno financeiro compensa o risco?
Olho para muitos enólogos e pergunto-me se, provavelmente, terão noção de todos os vinhos que assinam. Em última análise, acredito que sejam aplicados modelos, consoante o que é pretendido pelo cliente. O resultado, apesar de não ser mau, é apenas mais um. Indiferenciado.

Dei comigo com mais um vinho do enólogo Paulo Laureano. Serros da Mina, um tinto alentejano nascido para os lados de Vila Nova da Baronia.
Um mistura de couros, pêlo de animal, com fruta madura promove abertura. O vegetal sugeriu, durante bastante tempo, fragrâncias a esteva e flor rasteira. Chegou a ser incisivo. Ao longo do tempo que deambulou pelo copo, caminhou para uma curiosa impressão a bolo inglês, recheado por marmelada e embebido em licores de ginja. Por aqui ficou. Agradável, é certo, mas sem grandes pontos de exclamação, da minha parte.
Pela boca andava com discrição, servindo-se, quase sempre, da acidez para animar.
Pelas sinapses passava o mesmo impulso: Igual a tantos outros. Uma receita aplicada e voilá custou-me 5.99€. Nota Pessoal: 14

Post Scriptum: Longe de mim querer beliscar a qualidade profissional do enólogo deste vinho (Conta no seu portefólio alguns vinhos que aprecio, que gosto muito). Não é esse o cerne da questão. Poderia ter pegado noutro exemplo. As (minhas) dúvidas circulam apenas na capacidade humana para dirigir, organizar, produzir diversos trabalhos e que eles consigam revelar qualquer coisa diferente.

segunda-feira, novembro 12, 2007

Corujão. Reserva de 2004

Depois de termos dobrado a festividade do São Martinho, onde nos juntámos em redor da mesa para enfiarmos no estômago uns quantos petiscos, regresso com alguns comentários sobre um mais vinho da Quinta Corujão (Dão). Um Reserva de 2004.
Um tinto que, tal como uma manhã outonal, acordou ao coberto de cheiros frios e húmidos (Notei que andavam por ali sugestões a pedra molhada, a lagar, a quelhas), com uma intensa sensação floral. Usando mais uma das minhas hiperbolizadas comparações, atreveria-me a dizer-vos que alguém teria colocado no jarro ao lado um farto molho de flores viçosas, regado pelo orvalho matinal. Com mais ou menos desvio, andou sempre longe da fruta madura, nunca tocando no doce, na força, no exagero. Quando surgia, ela era silvestre e fresca. A evolução, apesar de lenta, permitiu que o vidro fosse aquecido com um pouco de grão de café humedecido em cacau. Uns quantos paus de canela deram aquele toque mais especiado, tornando-o mais universal.
Os sabores eram, tal como os aromas, frescos (Perdoem-me a constante repetição da ideia) e silvestres.
Um vinho original e diferente e que merecerá uma nova prova (Não está ainda no mercado). Para já, digo-vos que foi bebido, quase, sem se notar. Nota Pessoal: 15,5

quarta-feira, novembro 07, 2007

O Pingus GOSTOU mais destes!

Mais uma pequena selecção de vinhos (2007) que partilho com vocês. É uma mera lista constituída por vinhos que obtiveram (implicitamente e explicitamente) classificação superior a 17. Nesta escolha pessoal, tive que baixar um pouco mais a fasquia relativamente aos meus eleitos do ano passado. Corria o risco de apresentar-vos meia dúzia de opções (e se calhar chegava).
Quantos aos critérios, tal como na selecção de 2006, mantêm-se os mesmos. Foram apenas escolhidos aqueles que possuem textos publicados neste blog. Não são tidos, nem achados, outros que eventualmente bebi e que vocês beberam. Não teria sentido mencionar vinhos que não foram falados no Pingas no Copo.
Em alguns casos, se voltasse a beber, a minha opinião poderia ser, eventualmente, outra. Reflectem, como tal, o momento. A vocês, cabe a função de dizer: concordo, não concordo!
Tal como no ano passado, cada vinho tem um link para o respectivo texto.

Douro
Charme 2004
Redoma Reserva Branco 2003
Dado 2004
Evel Grande Escolha 2000
Quinta do Javali Grande Escolha 2004
Valle Pradinhos 2003
C.V. 2004

Dão
Dado 2004
Quinta das Marias Cuvée TT Reserva 2005
Quinta das Marias Touriga Nacional Reserva 2005
Quinta do Perdigão Touriga Nacional 2004
Quinta do Cabriz Superior 2000
Quinta dos Carvalhais Reserva 2000
Barão de Nelas Reserva 2003

Terras do Sado
Colecção Privada Domingos Soares Franco Touriga Nacional 2003

Alentejo
Marquês de Borba Reserva 1997
Marquês de Borba Reserva 1999
Herdade do Meio Garrafeira 2003
Bombeira do Guadiana Escolha Trincadeira 2005

Generosos

José Maria da Fonseca Moscatel Roxo 20 anos
Smith Woodhouse LBV 1995


domingo, novembro 04, 2007

Três trabalhos do Douro

Regressemos às minhas memórias enófilas. Embrenho-me, desta vez, nas colinas, nos montes, nas escarpas serpenteadas do Douro. Recordo, com agrado, três trabalhos que haviam destinado para mim. Pouco sabia sobre eles. O desafiador referiu, apenas, que apresentavam obstáculos mais ou menos complicados. De resto, não foi disponibilizada qualquer pista. Os desenlaces apesar de distantes, eram passíveis de ser alcançados. Tudo dependia, naturalmente, da minha sagacidade, da minha capacidade para levar a bom termo as demandas propostas. Sabia que estava, mais uma vez, a ser testado.

O primeiro trabalho, Quinta da Leda 2004, foi feito na presença de aromas quentes, onde o cacau, o caramelo a canela se envolviam de tal forma que não era possível saber onde um começava, onde outro acabava. Tudo se desenrolou em redor de uma pequena e suave colina. Ao longo do caminho, subindo para cima, um pouco lá mais para o alto, foram aparecendo algumas flores e fruta, que apesar de bem madura, apresentava-se fresca, roliça e suculenta. Os bálsamos combatiam algum excesso de doçura que deambulava sistematicamente por ali. Pequenas torrentes de água fresca iam batendo na cara aliviando a pressão. A jornada, que inicialmente sugeria ser mais longa, terminou de forma quase abrupta num pequeno planalto, onde se podia contemplar a paisagem. Extensa. Foi, apesar de tudo, um trabalho brando. Mas não podia esquecer-me: Estava no início. Atribui a apaziguadora Nota Pessoal de 16.

Passemos para o segundo trabalho: Chryseia 2003. Inicialmente as tarefas pareciam ser idênticas às do primeiro trabalho. No entanto, acabaram por desenrolaram-se num cenário bem diferente, algo oriental, mais especiado, na presença de madeira exótica. Foi curiosa a sensação. Julguei-me no meio de uma buliçosa rua, preenchida por bazares, onde tigelas alinhadas de açafrão, de gengibre, de pimenta, de canela e baunilha soltavam cheiros incisivos que rodopiavam em redor da face. Nas bancadas de trás, frutos secos. Tâmaras, figos, amêndoas, avelãs. O fim parecia distante, a intensidade de aromas confundia. Desemboquei numa pequena praça onde o perfume de flores, de arbustos verdes, circulava em volta de um pequeno charafiz. Permitiu respirar e descansar. Foi um trabalho cheio de provocações. Ofereci-lhe a Nota Pessoal de 16,5.

O último trabalho: C.V. 2004. Muito antagónico, completamente diferente dos seus antecedentes. Mais enigmas, mais obstáculos para remover. Mais difícil. O ofício foi feito em ambiente mais húmido. Com minas para percorrer, rocha para partir. Depois os trilhos assentavam, quase sempre, em terra revolta e escura. Sempre rodeados por mato cerrado, penhascos bem altos.
Os desafios pediam músculo, preparação. Um incauto poderia aleijar-se, perder-se. O descanso era feito nas pequenas brechas que iam irrompendo. O momento era aproveitado para colher reconfortantes e sumarentas bagas silvestres. Não havia tempo para descansar demoradamente. A complexidade da caminhada era alta. Chegado ao desejado termo, percebi que a adversidade depois de ultrapassada acaba por ser doce. Deslumbrei-me e dei-lhe a Nota Pessoal de 17.

Trabalhos cumpridos. Reparei, desta vez, que as coisas tinham corrido de forma mais pacifica, sem grandes polémicas, sem grandes confrontos de ideias. Os contraditórios, no final, foram curtos e de pouca intensidade.

quinta-feira, novembro 01, 2007

EVS 2007

Muitos de nós (que gostam da pinga) estarão, neste momento, a preparar as suas goelas, a protegerem-se de possíveis resfriados ou de maleitas do estômago. Tudo para se apresentarem nas condições ideais no Encontro com o Vinho e Sabores 2007 (que vai decorrer, em Lisboa, no próximo fim de semana - 3, 4 e 5 de Novembro). Acredito que, nestes dias, a dieta é cumprida (não pelos melhores motivos), fechamos a janela do carro e usamos mais uma camisola para que o diabo não as teça.


A título pessoal espero que a qualidade se
mantenha, que a simpatia domine, que possa dar um abraço caloroso a muitos amigos que percorrem o mesmo caminho que eu. Aliás, acima de tudo, este evento está a tornar-se num espaço de confraternização entre enófilos, simples curiosos e profissionais.
No final, todos estarão com cor a mais e as gargalhadas serão um pouco mais audíveis.

Lá mais para a frente, falaremos do que gostámos mais ou não!

terça-feira, outubro 30, 2007

Uma decisão polémica

O cenário era composto por três vinhos alinhados, que foram caindo para dentro do copo na mesma altura. Estiveram, durante algum tempo, a olhar para mim. Notava-se o esforço que faziam para que um deles fosse escolhido como o melhor. O silêncio encobria uma aguerrida disputa. Ninguém queria ficar preterido. A liça, apesar de curta, foi acutilante e voraz.
Não descortinei um claro vencedor, que esmagasse os seus adversários. Estavam todos bem preparados. Eram, apenas, vinhos com estilos, modos de estar diferentes.
Tive que decidir, tive que optar. A decisão foi controversa. Houve reclamações e contraditório. Um deles não ficou nada satisfeito. Barafustou. Tinha, segundo o próprio, demasiados argumentos para vencer sem qualquer contestação. Julgava-se mais apto, mais próximo do que se pretende de um Colheita Tardia. Notei um pouco de altivez (desnecessária). As (minhas) deliberações foram, sem dúvida, polémicas e provavelmente (muito) pouco consensuais.

H.E. Late Harvest 2006. Acordou para a sessão com aromas que fizeram lembrar combustível, que se envolviam suavemente com algo que recordava pão quente, panificação (Pensem numa padaria a laborar ao longo da noite). O caminhar foi delicado, muito cativante, onde, por momentos, odores a erva verde e calhau molhado proporcionavam um ambiente primaveril. A doçura era disponibilizada através de umas nesgas de nougat. O corpo apresentava (alguma) elegância e descrição. Níveis de doçura pouco elevados. Frescura bem projectada.
Pareceu-me que não tinha grandes argumentos para evoluir em garrafeira, mas fiquei surpreendido pelo equilíbrio e acerto que demonstrou. Cometi o sacrilégio de lhe atribuir a Nota Pessoal de 16,5.

Projectos Vindima Tardia 2003. Muito seco na fase inicial. Aliás, a secura marcou indelevelmente o perfil aromático deste Niepoort Tardio. Mais uma vez, os aromas petrolados andaram por perto misturando-se, desta vez, com flores brancas e feno. Na boca, o paladar era fresco e seco. Manteve a balança da doçura bem equilibrada. Pareceu ter capacidade para evoluir com dignidade (Acidez bem colocada).
Em linhas gerais, um vinho muito afinadinho que revelou ser diferente. Um projecto bem conseguido. Atribui-lhe a Nota Pessoal de 16,5.

Grandjó Late Harvest 2005. Ora aqui está o vinho que me deu água pelas barbas. Mais melado que os anteriores. Com um estilo mais tradicional, com uma forma de actuar mais consentânea com o que estamos à espera de um Late Harvest (Esta afirmação deu pano para mangas. Discutiu-se, e muito, a ideia de que não podemos olhar para este Grandjó como o único exemplo a seguir).
Uma trupe constituída por casca de laranja caramelizada, mel e passas encarregou-se da actuação. Muito voluptuoso, com alguma gordura e doçura que se podiam (eventualmente) dispensar. Os sabores eram, naturalmente doces, gordos e cheios. Fui martirizado ao atribuir-lhe a Nota Pessoal de 16.

De qualquer maneira, gostos e polémicas à parte, estive perante uma pequena amostra do que se anda a fazer em Portugal no que respeita a colheitas tardias. Não fiquei desiludido (Tomar nota que o conhecimento que tenho sobre este tipo de vinhos é muito reduzido).