segunda-feira, janeiro 21, 2019

MOB: Vinha SENNA

Há muito tempo que não bebia um vinho feito pelo trio duriense MOB, na região do Dão. Não bebia, porque apesar de irrepreensivelmente bem feitos, parecia-me que lhes faltava qualquer coisa. Deixaram-me de tocar no coração. Manias minhas. Depois, a voracidade das novidades, das modas ajudaram ao afastamento. Um pouco como nas relações entre as pessoas. Tudo muito volátil e intenso, mas de curta duração. 


Com este Vinha SENNA, devo dizer-vos que a coisa mudou de figura. Fiquei profundamente agradado com este branco da Serra da Estrela. Muitíssimo fino e focado, com carácter vincado, cristalino e identitário da região. Muito coerente. Complexo nos cheiros e nos sabores. 


Rematando a coisa de hoje, não quero encher isto com mais palavras de nada, digo-vos, sem qualquer se, que foi uma das melhores surpresas de dois mil e dezoito.

quarta-feira, janeiro 16, 2019

Ponte das Canas por Mouchão

Bebi-o ontem. Ou melhor bebi uns tragos, enquanto fazia o jantar, jantava e após. Coisas de pequena dimensão e volume. Raramente bebo vinho tinto, quando estou sozinho. Quando o faço, confesso, o eventual prazer está amputado de companhia. Não faz sentido estar rodeado de nada, a beber um copo de vinho tinto. Chateio-me, aborreço-me, bocejo. Canso-me.


Há muito que não bebia um vinho alentejano, há muito que não bebia um vinho da Adega do Mouchão.


E nos momentos que estive com ele, e apesar de castrado de companhia, desfrutei da sua força, do poder da sua fruta, da profundidade do seu corpo. Curti a sua férrea juventude. Satisfeito, rolhei novamente a garrafa. Hoje, à noite, voltarei a ele, para mais uns tragos, para mais uns momentos.

segunda-feira, janeiro 14, 2019

Os grelos...

No outro dia, vasculhei meio mundo à procura de uns bons grelos. É raro, em meu redor, conseguir um bom molho de grelos que tenha, de facto, grelos. A maior parte são folhas e mais folhas, com dois ou três espigos. Já nem discuto a ausência de sabor. Coisas de e para urbanos.


Gosto e prefiro de longe os grelos de nabo. Os de couve têm pouca alma, não dão luta. São aquela coisa fofinha. Os primeiros valem pela sua acidez, intensidade e complexidade. Simplesmente cozidos e regados com azeite, com um dente de alho bem picado lá no meio. Combinam com a alheira, com o farinheiro (não é engano), com a chouriça. Com a morcela. A da Guarda. Acidez e gordura, bem como têmperos fortes combinam de forma exemplar. Destinados a estar juntos.


Dizem-me que existem, também, grelos de nabia (não é lapso). Já me os meteram no prato. Já me os mostraram. Dizem-me (a minha família) que são menos ácidos que os de nabo, menos acres e mais doces. Algo entre os de nabo e os de couve. Serão de nabiça? Não sei.


E um arroz de grelos? Um arroz de espigos, como sempre disse e ouvi dizer, caldoso e escorreito. Come-se por si só. Sem acompanhamento ou para se envolver com uma valente tira de barriga de porco grelhada nas brasas e não aquela ridícula tira de entremeada que nos apresentam, na maior parte das vezes.

segunda-feira, janeiro 07, 2019

Mercearia do Fanqueiro

Conheci o lugar em finais do ano de dois mil e dezoito. Serviu de poiso para um almoço prosaico, arquitectado em cima do joelho. Localizado num sítio algo inusitado e, sejamos francos, com pouco para ver. Contudo, o espaço interior destoa completamente do espaço circundante, deixando uma impressão francamente positiva. Entramos e esquecemos o exterior. Coisas minhas.



A Mercearia do Fanqueiro é um daqueles sítios que combinam um espaço onde se podem comprar géneros alimentícios, ao estilo dos estabelecimentos comerciais do antigamente, com uma área dedicada à restauração. Decoração simples, mas aconchegante e airosa. Digamos que está felizmente despojada de artefactos modernos, presunçosos e pós-urbanos. Indicado para gajos simples, descomprometidos e profundamente informais. A aposta centra-se no petisco, no pitéu, no snack. Como queiram chamar. O vinho felizmente é bem tratado.



Destaco umas extraordinárias tiras de entrecosto fritas com massa de pimentão (não sou apreciador deste aglomerado vermelho), bem como uns belos cogumelos, metidos num molho ou caldo que era do caraças.



Registo o prazer de limpar uma selecção de queijos, acompanhado com um Quinta de Sanjoanne Terroir Mineral e um Quinta das Carrafouchas Branco. Houve tempo, ainda, para beber uns tragos de um Porto branco com mais de cinquenta anos da Kopke. Ainda por rotular e comercializar. Digamos que foi um extra oferecido por um dos companheiros de refeição. Foi aquilo a que chamamos de cereja no topo do bolo. A revisitar para bisbilhotar outras opções no que respeita aos tachos, às frigideiras e sertãs. 

quinta-feira, janeiro 03, 2019

O Arinto de Vila Franca de Xira

Arranjado (e comprado) por interposta pessoa. Por intermédio de um gajo que conheço há anos. Desde os tempos em que ele e eu fazíamos parte do painel de prova da Garrafeira Coisas do Arco do Vinho. Lugar incontornável na altura, onde muitos de nós cresceram como apreciadores conhecedores de vinho. Foi uma escola básica, secundária e universitária. Aqui aprendi e conheci muito sobre os meandros do mundo do vinho, bem como ouvi inúmeras histórias e estórias. Tudo era novo, com o surgimento de múltiplos produtores. Vivia-se uma Primavera no mundo dos vinhos. Digamos que agora o registo é mais outonal.


Logo no lançamento do vinho, achei curioso o seu nome, a sua localização, a forma como foi projectado. Proveniente da Quinta da Subserra (século XVII). Propriedade que foi adquirida pela autarquia de Vila Franca de Xira no ano de dois mil e oito. Em dois mil e quinze, foram feitos melhoramentos com o objectivo pensado de criar um vinho com cabeça, tronco e membros. É, na sua essência, um vinho municipal.


Devo dizer-vos que gostei francamente do dito. Apesar de ainda imberbe e meio duro, o que não deixa de ser bom sinal, proporcionou-me momentos de muito prazer. Bastante tenso, seco e arisco. Muito vegetal, bastante citrino. Salino, mas aqui creio que seja tanga minha. Descontando o facto de ter estado perante uma curiosidade, vinda de um local, para mim, meio inusitado, digo-vos que sou gajo para comprar mais umas quantas garrafas para o deixar amadurecer, ganhar complexidade e domar o músculo. Tenho a fé que temos vinho ribatejano.

quarta-feira, janeiro 02, 2019

O Castelo

Deixei-vos em paz durante alguns dias. Dêem alvíssaras. A maturidade da idade tem-me feito bem. Mais solto, mais livre, mais despegado de muita coisa e de muita gente. Digamos que, sem querer, foi-se (fui) separando o essencial do dispensável. Portanto, nem tudo é mau. Mas voltemos às minhas histórias.


Sou pai de uma tríade de raparigas. Não são melhores que as outras. São as minhas filhas e esta condição basta-me. Não são super-inteligentes, nem um exemplo de bondade. Elas são humanas, com todas as características inerentes à sua espécie. E assim espero que continuem. 
No outro dia, a do meio pediu-me para a ajudar e acompanhar no seu último desiderato. A montagem de um castelo de lego. Digo-vos que não acatei logo o seu pedido. Não me apetecia. Estava envolto naquela bruma que geralmente me acompanha. A custo, assumo, fui até ela.


Peça a peça, fui partilhando o prazer de construir e assistir à execução de um projecto. O de um Castelo de princesas e príncipes. Cheio de cor e de outras coisas que as crianças acreditam. Sonhos. Quando chegámos ao telhado, quando colocámos aquele icónico telhado cónico na torre altaneira,  festejei. Com algo simples, com algo normal. Com algo humano.